sábado, 1 de abril de 2023



                   Tao te King *




Sou bipolar, graças a Deus.

Sou e não sou, sendo.

Bipolar como o Cosmos e tudo que existe.

O positivo e o negativo.

O masculino e o feminino. 

O dia e a noite.

O yang e o yin.

O céu e o inferno.

O insondável é a essência de tudo.

O inominável é o Tao - a divindade transcendente

e inacessível ao nosso limitado conhecimento.


Sou bipolar no bom sentido.

Procurando mais "ser" do que "existir".

Mais ouvir do que falar.

Mais dar do que receber.

Mais amar do que ser amado.

Aprendi que em meio a tudo, um poder 

supremo prevalece.

Forças espirituais guiam nossos passos.

Nossos atos desencadeiam os fatos, bons e ruins.

Desentranham e mobilizam as energias formativas.


Como eu sei ?

Não sei, e ninguém sabe, a não ser intuitivamente.

Como os grandes iniciados. 

Mahatma Ghandi, Lao Tse, Jesus, Francisco de Assis, 

Descartes, Einstein...

Todos em perfeita sintonia com a Realidade Univérsiva,

que extrapola qualquer análise empírico-intelectual. 


O paradoxo sintetiza o conceito do monismo cósmico, 

que permeia o pensamento iluminado.

A mensagem de Cristo está repleta dessa sabedoria cósmica.

O paradoxo agrega todo o conhecimento básico, como sugere

Paulo de Tarso.

"Eu morro todos os dias, e por isso eu vivo", 

Só os mistérios do mundo espiritual dá sentido as coisas.

Mundo que se auto-regula, que abarca as grandes verdades

e a solução de todos os problemas.

E cuja essência é o famoso wu-wei que embasa toda milenar

filosofia chinesa.

O misterioso "não fazer", "não interferir", deixar o barco correr.

"O Tao não age. E por este não agir, tudo acontece.

Onde não há desejos, reina a paz. E onde há paz, o Universo

se regula por ai mesmo". (Lao-tse)  


* Baseado no livro Tao te King, de Lao-Tse, tradução

e notas de Huberto Rohden.
















 

quarta-feira, 29 de março de 2023


                             

                                quando eu deixar de ser otário



Houve um tempo em que achei

possível você me amar.

Em que pese meu ardor sem contexto.

O meu querer destrambelhado.

O jeito diferente de pensar.

Mas você me amar... sejamos francos.

Seria como o mundo girar ao contrário.

Um corte sem cicatriz.

A flor amar o espinho.


Houve um tempo em que achei possível

você me amar.

Ser o vício da tua cura.

O jornal que embrulha o peixe.

O álibi do teu disfarce.

Mas você me amar... francamente. 

Mais fácil a galinha criar dente.

Pois você só ama a si mesma, e eu só sirvo

para pagar tuas contas.

Mais fácil você me odiar, quando eu 

cair na real,

e deixar de ser otário.










Repare, amor,

separados,

somos um par

mais-que-perfeito.


 

terça-feira, 28 de março de 2023




                       

                             pagando o pato 




Ao largo do poluído estuário santista,

pescadores amadores se enfileiram,

com a maior paciência do mundo,

a espera do improvável : fisgar um peixe

que preste.

Os baiacus, coitados, é que pagam o pato.




                                a vida que não vivi






            Não tenho culpa de ter nascido.

            Do resto, me declaro culpado.


Passei a vida em desassossego.

Fracassei em quase tudo, num pensar

e sentir deslocado da realidade.

Desejoso de tudo abandonar e viver outra vida.

Deixando de viver a plenitude de cada dia.

A vida que tudo me oferecia e eu não via.


           A tudo, porém, o espírito inato de Orfeu 

           se sublevou. 

         Os desatinos não me impediram de ser feliz.

           Pagando o preço mas colhendo os frutos

           da vida que não vivi.

           Para a qual enfim despertei.








 

segunda-feira, 27 de março de 2023



Maneira infalível de não cair na conversa

de um mentiroso : duvidar de tudo que ele fala.

Mesmo daquilo que eventualmente possa ser verdade.


 



                    SOBREVIVENTE



Entre as muitas jornadas em meio a jornada,

sóis estagnados aquecem o labor

de quem se esquece de quem um dia foi.

O antigo eu não exige nem pede.

Venceu a dor mas perdeu a esperança.

Nada espera mas não cala.

Celebra a vida da qual se despede.

Sublime e dolente.

Nada mais pungente

que o doce epitalâmio 

de um sobrevivente.








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