terça-feira, 21 de julho de 2026



                  o olhar derradeiro


Fui semeando pela vida

as utopias de meus sonhos

Como era de esperar,

salvo raras exceções,

só colhi decepções.


Não sei o que sobrou

Não sei o que me tornei

Não sei o que esperar

Só sei que nada mais quero ter

que não seja verdadeiro

como o olhar derradeiro

de um moribundo

cansado do mundo.



                        

                          perdas e ganhos


Por que te lamentas ?

Do que reclamas ?

Tens a vida que mereces.

A mocidade se foi, os sonhos se perderam,

mas a vida continua.

Nem tudo se perdeu.

Tens saúde, disposição, recursos.

Entre perdas e ganhos, estás no lucro.


Tudo somado, as coisas que te incomodam

valem menos do que as boas lembranças.

Palavras duras, decepções, ingratidões, só servem

para envenenar o espírito.

E estes retratos da família, que ainda carregas,

atestam o que a memória amarga teima

em negar. 

Que tiveste uma vida boa, momentos mágicos,



Tempos de alegrias, tempos de despedida, dia virá

em que no mesmo esquecimento,

tudo se fundirá.

Conquistas, Fracassos, paz de espírito : 

cumpriste bem o teu papel.

Se mais não fizeste, é porque nunca fazemos

o suficiente.

Se não durou, é porque o eterno amor

tudo une e separa.




                             a vida é uma festa



A vida é uma festa.

A vida não presta.

Vivendo sem viver,

sem razão de ser.


Tudo é rápido e fluído.

Gosta-se e desgosta-se.

Ama-se e desama-se por mixaria.

Curtir sem culpa é a ordem do dia.


A telinha é quem manda.

A transitoriedade dos sentimentos embute farsas,

inocência, ignorância.

Repetitiva e cansativa, a vida se abriga

no mundo virtual.

Na banalização de tudo, tudo é normal.

As aparências não enganam.

Ninguém mais se envergonha de nada.

Não basta ser, é preciso ostentar.

Ladrões, putas, pederastas, vivem o auge. 

Prevaricação virou espetáculo público

e gratuito.

Até o amor deixou de ser bonito.


A vida é uma festa.

A vida não presta.

Fora da rede, a realidade nua e crua

é tudo o que resta.

 



                      a vida no bagaço


Sim, claro, o que há de melhor a fazer

do que curtir a vida ?

A vida calma e pacata nos incomoda.

Ah, que tédio ! Que chatice !, estamos 

sempre reclamando.

Ah, os outros é que sabem viver.

O gramado do vizinho é sempre mais verde.

Felicidade fingida, cartão estourado, mas o status

no topo.

Seguindo sem rumo, dançando no caos 

de um mundo falido.

Quando a luz apaga e a festa termina,

tudo o que sobra é o cansaço.

A vida no bagaço.



 

segunda-feira, 20 de julho de 2026



                    

                   razões

* versão musicada



Amor é uma palavra usada 

com muita facilidade.

Na maioria das vezes, em vão.

Vivemos em busca do par ideal,

mesmo sabendo que o ideal não existe.

Só muito raramente se encontra

alguém que te completa.

E quase sempre, nem repara.


Na modernidade líquida, a vida desidrata.

O que se ganha, se perde com a mesma facilidade.

Os relacionamentos se diluem no mundo virtual.

Assim como começam, acabam.

Às vezes, com um simples

bloqueio no wats ap.

Bem prático.

Bem moderno.

Sem drama.

Amor com prazo de validade,

cancele quando quiser.

Todo mundo livre mas ninguém disponível.

Todo mundo se vendo, mas ninguém se enxergando.





 


                              insônia



A madrugada se arrasta.

Na distraída escuridão noturna,

vaga memória de pios e arrepios.

Corujas, galos, patas de cavalo ecoando

no paralelepípedo. 


Na antiga noite em que me afundo,

estrelas e pássaros ainda dormem.

Alguns sortudos acasalam.

Insone, não durmo, nem acasalo.

Na imensa noite de abandono,

o amor sucumbe. 


Na madrugada que se arrasta

Na vida que se engasta

Nas coisas que não desenroscam

No sono que não chega

Sonhados todos os sonhos

No meu abismo despenquei.

Da minha antiga vida, despertei.

 

 

                         (des)caminhos


Muitos caminhos

levam a lugar algum.

Atalhos, encruzilhadas, bifurcações

levam a todos os lugares.

Mas não onde queremos chegar.


Lugares em que o fim do caminho

é onde não deveríamos estar.

Posto que longe do caminho do qual

desviamos.

Privados do que tínhamos de melhor.

Tarde demais para voltar.


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