quinta-feira, 25 de junho de 2026


                            a derradeira condição                          


Viver o ocaso dos sonhos.

A dor dos vivos.

Em meio a consciência dos fracassos.

A transitoriedade de tudo.

Quando enfim todos os fingimentos caem.

Eis a derradeira condição.


O futuro emulado no engodo do passado

retém o que poderia ter sido e o que foi.

Nas esferas da existência, a mão do tempo

dá e falsifica.

Depois da abundância, vem a escassez.

E o amor em ódio se transforma.


As regras são arbitrárias.

Adaptar-se é a única escapatória.

Coabitar com as perdas, as doenças,

as condições extremas,

as condições herdadas,

as falsetas do destino,

aos erros crassos.

A falta de sorte.


Ao fim e ao cabo da excruciante jornada, 

vivos e mortos

passam da mesma forma.


   

 


                         um dia



Um dia você vai ver.

Um dia você vai saber.

Um dia você vai saber o que hoje não sabe.

Vai ver o que hoje não vê.

Um dia vai descobrir que quem

não sabe dar valor ao que tem,

corre o risco de ficar sem.


Você me tratou como peça fácil de substituir.

Alguém menor, cujo ausência não iria sentir.

Me subestimou, achando que eu era o elo fraco

de nossa relação.

Não hoje, talvez nem amanhã, mas um dia

a ficha vai cair.

Quando descobrir o vazio que plantou,

ao perder aquele que mais te amou.

Um dia...

Um dia...








 

 


                           a dor mais bonita



Vivendo e aprendendo.

As melhores coisas da vida são aquelas 

que não temos.

Porque depois que as temos,

deixam de ser.


Te quis mais do que tudo.

Lutei, me empenhei, me sacrifiquei.

Até conseguir.

Até descobrir que a realidade

sempre fica aquém das expectativas.

Você foi a melhor e a pior coisa

que me aconteceu.


Te quis mais do que tudo.

Até descobrir os teus podres.

Você foi meu céu e meu pedaço de inferno.

A pessoa que me fez mais feliz e infeliz.

Não sei se te odeio ou ainda tô te querendo. 

De tudo que vivi,

você é a dor mais bonita que já senti.












quarta-feira, 24 de junho de 2026


                                 mundo sem nexo


Tudo muda.

De repente, um a um,

os entes queridos se vão.

Num instante, tudo aquilo que se conhecia,

que se tinha, as coisas que fazia,

em que acreditava,

mudam para sempre.


É o drama recorrente da vida.

Perder tudo, à revelia do mundo sem nexo.

Ficando apenas traços imperfeitos no tempo.


Somos muitos e, no entanto, estamos sós.

Descartados, quando muito tolerados, 

já tendo cumprido seu papel.

Poucos têm a sorte de contar com o amor

incondicional.

Abandono, descaso,

a tudo estamos sujeitos,

quando os laços não são eternos.





                                                o vulcão


Houve, sim,

um tempo em que fui feliz. 

De repente, acordei velho.

Mas no espelho ainda vejo

um menino perdidão.

Que não só é feliz, como sabe.


O coração finalmente sossegou.

Já não berra.

Já não sangra.

Só quer paz.

A paz de quem se conhece melhor.

De quem não perdeu o gosto pela vida.

Apenas se aquietou.

Se feito um vulcão hibernando,

só o tempo dirá...



terça-feira, 23 de junho de 2026

 

                         um mundo

                   como

                   nunca houve


Nas diferentes eras,

das mais obscuros a atual revolução tecnológica,

impingir sofrimento e dor tem sido a sina

da humanidade.

Até aí, nada de novo.

Novidade seria o mundo ter mais paz, harmonia.

Que os povos se respeitassem e aprendessem a conviver

pacificamente.

Que os conflitos e discriminações cessassem,

que se depusessem as armas,

e as pessoas se irmanassem,

dividindo e somando,

para construir um mundo como nunca houve.





                                       

                                  conto do vigário



Na vida há vários caminhos.

De luzes e cruzes.

De rosas e espinhos.

Os prazeres passam, as dores 

e os dissabores ficam. 

O amor esconde os defeitos, enquanto 

nos põe algemas.

Quem nunca foi traído, não perde 

por esperar. Nem ganha.

O amor é um conto do vigário.

para o qual

nunca falta otário.



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