pixel sem tela
Onde fomos parar...
Todo mundo procurando algo real no mundinho virtual.
Buscando parceiros em relações superficiais.
Trocando de pretendentes como num cardápio surreal.
Acreditando que exista alguém ali, sem filtro,
scrollando rostos como quem compra e vai comparando.
Gente vaidosa, carente, alguns desesperados,
doentes, opções não faltam nessa grande latrina.
O mundo digital virou vitrine,
onde tudo se expõe e vergonha é coisa
de outrora.
Influenciadores proliferam, com roteiro
decorado e áudio editado.
Vale tudo para vender produtos e cursos
com conteúdo copiado.
Todo mundo é expert, todo mundo tem opinião.
Comentário raso vira debate, ninguém entende
nada de nada mas crucifica os outros
como se fosse o dono da verdade.
O que não falta é gente feliz, em paz, viajando,
casais perfeitos,
enquanto a vida real é a bagunça de sempre.
Um caos organizado e mal disfarçado
de uma vida em que ninguém sabe direito
o que está fazendo, é tudo improviso
e a gente vai vivendo.
Fingir que está tudo bem é o lema.
Tiro por mim.
Acordo, já pego o celular antes mesmo
de abrir o olho,
checo quantos curtiram meu jantar de ontem,
a foto do por do sol, quando eu, na real,
estava ali sozinho, tentando mostrar para todo mundo
que estou vivendo mesmo, ah, coitado de mim.
Vendo vídeo de um conhecido passeando em Dubai,
outro tomando vinho na Toscana,
enquanto tomo suco de caixinha na cama.
Mas tudo bem, aqui vai meu brinde,
sem pose, sem holofote, à pachorra da vida normal.
Rir de mim mesmo é o único remédio real.
Sou só mais um pixel sem tela do circo digital.