quarta-feira, 16 de setembro de 2026


                             meu rascunho


Estou vazio por dentro.

Sensação estranha para quem viveu sempre

tão intensamente.

Onde foi parar aquela urgência ?

Quem apagou o fogo do meu incêndio ?

Virei rascunho da minha própria biografia.

Colecionando restos do que já não sinto.


Tateio o meu nada no mundo que hoje me ignora.

Meus passos já não deixam marcas.

A vida passa em câmera lenta, enquanto tento explicar

para minha mente, que, quem eu fui, 

já não volta mais.


Eu, que era fogo, virei fumaça.

Eu, que era protagonista, virei coadjuvante.

Tudo se resume agora a encontrar forças 

para seguir adiante.

Estou vazio por dentro, e pela primeira vez, 

não sinto pressa de me encontrar.

Apenas sou o que sobrou.

Convivendo com a dor de não ter 

o que curar.



 

sábado, 5 de setembro de 2026



                              o tal do amor

* versão musical

Nosso caso nasceu ao acaso.

Como um rio caudaloso que se desvia

do curso.

O que era bom e prazeroso,

foi piorando,

a medida que fui me apaixonando.

E o que era para ser só diversão e cama,

acabou virando um drama.

Positivamente, não dou sorte com o tal do amor.

Já era para ter aprendido, mas o juízo sumiu

num segundo,

quando quis o abraço mais longo do mundo.

O trato era simples, mas confundimos as coisas.

Eu querendo afeto, e você, um teto.

Você atrás de abrigo, e eu brincando

com o perigo.






 











 



                           achados e perdidos

* versão musicada


Acende-se o fogo

e o fogo nos consome. 

Pode a fé fazer do lobo, cordeiro ?

Fazer sincero o sentimento impuro ?


Uma voz insiste em me perguntar : estás perdido ?

Ora, dentro de cada um de nós

há segredos, coisas inconfessáveis.

Uma eterna busca

nos achados e perdidos da vida.


Finda a juventude de memoráveis prazeres,

hoje os dias são todos iguais.

Me satisfaz a falta de perspectiva.

A vida sem ilusões nem planos.

Liberto das esperanças nocivas.

Sem a premência de ser feliz.

Na transitoriedade de tudo,

é onde tudo começa e acaba.




sexta-feira, 4 de setembro de 2026


                            meu avesso


É sempre a mesma agonia

De noite ou de dia

Viola os cantos, revira os recantos, 

desfaz o encanto que despetala 

a dúbia consciência.

Não, meu bem, não pense que me conhece.

Pois a mim mesmo desconheço,

nem comigo me pareço.

Eu sou meu avesso.








                         roteiro sem nexo


Não estranhe, a vida é assim mesmo.

Uma grande farsa, um desfile de máscaras.

Ninguém é o que aparenta, todos tem segredos, medos,

duas caras.

Quem eu sou, quem você é,

não é o que vemos, e sim o que escondemos.

Tudo é um jogo de cena, um trato velado.

Você me engole, eu finjo respeito.

A verdade é barulhenta.

O roteiro sem nexo.

O fim sempre acaba sem plateia, sem aplauso.

Ninguém sustenta o papel o tempo todo.

O pedestal é de barro, 

e afunda no lodo.




terça-feira, 1 de setembro de 2026




Há muitos olhos em seu olhar.

Muitos sonos, sonhos, promessas descumpridas.

Nada do que você fala é verdade.

Teu brilho desfez-se pelos labirintos de uma mente

conturbada.

Em meu quase amar-te, o receio de perder-te sempre

falou mais alto.

Apego, anelo, desvelo, me obrigando a ser 

o que nunca fui.

Alguém que não soube envelhecer.

E que agora 

não sabe como sair de cena.







 

 


                           puro e incondicional


Para meu filho, Benício




Eu amo todos os dias ao teu lado.

Eu não sabia, até então, o que é chorar de alegria.

Por muito tempo andei perdido e desanimado,

mas hoje,

me sobram motivos para viver.

Chegaste em minha vida quando eu já não

esperava mais nada.

O que hoje sinto é incondicional e puro.

Como só o amor por um filho consegue ser.

Vivi sempre da maneira que quis, mas agora

sinto que já não sou dono da minha vida.

Eu que pensava ter feito muito e vivido tudo,

hoje vejo que nada se compara

a ter você em meus braços, filho querido.





 





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