quinta-feira, 6 de agosto de 2026


                  pedaço de mau caminho

* versão musicada


Tua beleza é um pedaço de mau caminho.

O oásis em que faço meu ninho.

Tão carente e dependente do teu carinho,

como um filhote de passarinho.


Tua boca me diz uma coisa.

Teus olhos me dizem outra.

E o coração que é bom,

não diz nada.


Quando penso que tudo o que eu queria

era ter você só para mim,

me dou conta do quanto sou anacrômico.

Ou cômico...


Queria dizer que te amo.

Não fosse uma expressão tão banalizada.

Que nem se pode mais levar à sério.

Ainda assim, preciso dizê-lo.

Meu coração assim o exige.

Antes que outro o faça.

E eu fique a ver navios.



quinta-feira, 30 de julho de 2026


                            a corrida da vida





Sem visão.

Sem pernas.

Sem nome.

Sem ajuda.

E mesmo assim você venceu

a corrida da sua vida.

Contra milhões de concorrentes.

Sem regras.

Sem luz.

Sem mapa.

Apenas o instinto a guia-lo.

Você.

Você.

Você.

Um campeão antes mesmo de nascer...


E agora quer entregar os pontos?

Deixar de lutar ?

Desistir ?

Só porque tem apanhado da vida ?

E quem disse que seria fácil ?

Você, que venceu sem olhos, vai perder

agora que pode ver ?

Você, que venceu sem pernas, vai parar

agora que pode correr ?

Você, que venceu sem ajuda, vai desistir

agora que tem um mundo de possibilidades

para conquistar ?

A vida te bateu, bata de volta.

Engula o choro, irmão.

Transforma essa dor no peito em armadura,

com a mesma força e obstinação que te fez vencer

quando você ainda não era nada.


Acredite, ainda és o mesmo.

O mesmo instinto, a mesma fome,

o mesmo coração.

Campeão não é quem nunca cai.

É quem se recusa a ficar no chão.






                             comodato

* versão musicada



Não queira ser o que não é.

Não inveje sequer a formosura alheia.

Pois o que importa é a essência.

Nenhuma beleza se sustenta além do tempo.

Mas o que vai por dentro, sim.

Não queira ser como a rosa,

que impera bela em formosa no jardim,

mas quando posta num vaso,

logo murcha e morre.

E como tudo na vida, é jogada fora.


Não queira ser o que não é.

Pois as aparências enganam.

Nada é o que parece.

Muito menos as pessoas.

Vaga e falha é a ideia que fazemos do mundo.

Nada é realmente nosso.

Tudo é emprestado.

A vida nada mais é do que um comodato.

Com prazo indeterminado.



sábado, 25 de julho de 2026


                                 dias felizes


Há dias que vale a pena viver.

Outros nem tanto. 

Mas há que vivê-los.

Há que suportá-los.

Por mais pesado que seja o fardo.


Há dias de ouro, para serem valorizados.

Entre tantos que apenas passam.

Sem deixar saudades.

Há dias perfeitos, que de tão tranquilos e simples,

nem nos damos conta.

Não reparamos quão calmos e belos

em sua mansidão,

em seu escoar tranquilo,

feito essa chuva que cai mansamente.


Amo a calmaria desses dias perfeitos.

A preguiça que me assalta.

O alarido de meu filho, brincando no quarto.

Amo o perfume que exalas, mulher amada,

ao sair do banho em traje sumário.

Amo o teu jeito de menina-mulher.

Teu olhar de quem nada quer, tudo querendo.


Olho em volta e vejo que não preciso

de mais nada para ser feliz.

Apenas dias assim, tranquilos.

Ao lado de quem amo.

Ao lado de quem

faz a vida valer a pena.


(16/08/2014)


                         o começo e o fim


O fim de uma coisa é o começo de outra.

Nada realmente termina. 

É como capinar, arrumar a casa.

Um trabalho que nunca acaba.


Em todo presente o passado habita.

O fim é o começo de um novo plano.

Nada de fato acaba, apenas se transforma.

E de alguma forma retorna.

Lembranças, sequelas, feridas.

É a lida.

É a vida bandida.

O começo e o fim entrelaçados.

O bom e o ruim mudando de lado.

E uma agonia que nunca acaba.




sexta-feira, 24 de julho de 2026


                                        o verdadeiro amor


Não tente entender.

O amor não obedece à razão. 

Tampouco é ligado em virtudes e posses materiais.

Ninguém ama uma pessoa por ser educada, honesta,

ou até mesmo rica.

O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo,

conjunção astral.

Ama-se pelo cheiro, pelo toque, pela paz ou pelo tormento

que provoca.


Você ama aquele cafajeste. Ele não leva nada à sério,

está sempre duro e é extremamente galinha.

É um legítimo sem futuro, e ainda assim

você não consegue esquecê-lo.

Quando ele toca seu corpo, você derrete feito manteiga.

Nem você sabe porque ama esse cara.

Você tem inúmeros pretendentes, já ficou com vários

deles, alguns bem generosos, bem de vida,

mas nenhum consegue ser do jeito como o amor

da sua vida é.

Ah, quem dera o amor fosse como uma equação

matemática, tipo assim : você linda + ele inteligente =

dois apaixonados...



* baseado em crônica de Arnaldo Jabour




  





                                filhos

                                         


Filhos, enquanto pequenos, carentes,

são a expressão do mais belo ideal.

Mimos e zelos cercam seus passos,

multiplicando o amor a cifras inimagináveis.

Além das estrelas...


Pequeninos, enquanto inocentes, submissos,

trazem felicidade ao lar mais carente.

Aquecem o coração da alma mais fria.


Filhos, seu sorriso é como um bálsamo,

uma centelha de luz na escuridão do mundo.

Pequenos, são a alegria e a dor,

a esperança e o desespero.

Crescem entre o amor e medo.


Há o que crescem livres e belos,

na certeza de um amanhã venturoso.

Ali na esquina, porém, maltrapilhos e desamparos,

outros pequeninos parecem chorar

a desgraça de terem nascido.


* escrito em 12/1988

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