domingo, 19 de julho de 2026


                           

                      o silêncio também é remédio



Há coisas que duram.

Há coisas que passam. 

Há coisas que são.

E outras que vão.


Há coisas que idealizamos,

e outras que nem chegam a ser.

Há coisas lindas e raras,

e outras que é preferível esquecer.


Há escolhas que pesam.

Há verdades que abalam.

Há bocas que rezam.

E outras que amaldiçoam.


Gritamos para o mundo,

querendo respostas.

Contudo, o silêncio também é remédio.

Já não sinto o peso do que se perdeu.

Do que deixou de ser original.

Eu sou o começo, 

o meio

e o final.









sábado, 18 de julho de 2026


                       nódoa

* versão musicada



Uma cantiga antiga atravessa o tempo,

chega com a linguagem do vento,

limpando-se do limo dos crepúsculos esquecidos.

Tão paciente como um navio solitário,

transpondo horizontes e nuvens como se tivesse

a vida presa na garganta.


É uma cantiga antiga há muito esquecida,

carente de gestos e roteiros,

ferindo e conferindo a beleza adormecida.

Ainda assim, despertando as coisas mais ternas,

face a face com seu disfarce de fera.


Nos acordes dessa cantiga antiga,

suja de terra, coberta de cinzas e saudades,

o que passou já não conta.

A antiga mágoa hoje não passa

de uma simples nódoa.


 

quinta-feira, 16 de julho de 2026


                                        nada permanece



Tudo vai de mal a pior.

O mundo reinventa o seu inferno

a cada dia.

A vida se revela recriando o drama da convivência.

O incerto e o duvidoso se atraem e se traem.

Tudo sempre fica aquém das expectativas.

Já fomos esquecidos antes de termos nascido.

Nada permanece.

Não há vitória nem derrota.

Não há guerra nem paz.

Não há conquistas nem fracassos.

Não há dor nem prazer.

Nada que dure para sempre.


  

quarta-feira, 15 de julho de 2026


                               novos e antigos dias


 



Sou um sonhador que sonha

com a apoteose dos momentos perfeitos.

Como se fosse possível ser mais feliz 

do que eu fui.

Pelos amores que tive.

Pelos filhos que tenho.

Pelo coração humanamente compungido

que a tudo e a todos subsiste.


Passeio pelo tempo sem reparos e remorsos.

O que fiz e o que deixei de fazer

se dissipam sem amargura ou rancor.

Não me resguardo nem me esquivo diante

do que a vida me ensinou.

Aprendi a valorizar as coisas que me fizeram diverso

do que um dia fui,

e que tão longe me levaram.

Longe e predestinado a ser feliz.


Assim, digo adeus ao que fui

sem deixar de ser o que sou.

O que fiz está feito, não há como remediar.

Das batalhas vencidas e perdidas, só ficaram as feridas.

Agora que os novos e antigos dias se misturam,

trato de desfrutar o que ainda vale a pena

ser vivido.

Contra tudo o que a existência deu e levou,

ainda guardo a louca ideia de ser feliz.



domingo, 12 de julho de 2026



                            chegou, chegando

 *versão musicada


Hoje a saudade bateu forte.

Chegou sem avisar, sem pedir licença,

me fazendo lembrar de tudo aquilo que finjo

ter esquecido.

Chegou chegando, remexendo as feridas que eu jurava 

terem cicatrizado.

Veio mostrar que há lembranças que jamais serão

esquecidas. 

Que há ausências que jamais serão supridas.


Hoje a saudade bateu forte, talvez por ainda 

alimentar esperanças.

Ao ver que, apesar de tudo, você ainda vigia 

meus passos. 

Posta indiretas. Finge indiferença, mas sopra as cinzas, 

não deixa apagar o fogo.

Porque o que tivemos foi forte demais para fingir

que nunca existiu.

Para caber numa simples despedida.


Hoje a saudade pegou pesado.

Talvez porque eu ainda te ame.

E não me conforme por ter te perdido

de bobeira.

De tanto fazer besteira.







 

sexta-feira, 10 de julho de 2026


                         

           abençoado ou amaldiçoado



Abençoado ou amaldiçoado, 

o amor cumpre sua tarefa com louvor. 

Aventura-se por becos e vielas, consumindo-se

entre o prazer e o desencanto.


O amor não bate a porta, arromba.

Não pede licença, invade.

Vai se achegando, sem alarde.

Confunde afeto com paixão.

Não distingue o santo do ladrão.

Chega, senta, e fica.

Às vezes por pouco tempo.

Às vezes por uma vida.


Esgotadas as tentativas,

sai como entrou.

Sem despedida.

Quem fica é quem inventa justificativas.

Porque o amor não se explica.

Abençoado ou amaldiçoado,

não devolve o tempo tomado.

Entra e sai de cena, cedo ou tarde demais.

Deixando cada um com seus ais.





                                 o teatro da vida



Nas cidades de aço e concreto,

em que ruas e praças são palco de atores itinerantes,

os dias passam crivados

de dúvidas e súplicas.

No teatro da vida encena-se de tudo.

Todos fantoches sem rosto nem identidade.

Puxados por fios invisíveis que cortejam o inexistente.


Cortinas abrem e fecham em sessão permanente.

Atores e tramas se sucedem para que o show

possa continuar.

Decorando falas, seguindo roteiros sem ensaio.

Cada um com seu figurino, inventando um destino.

Todo mundo conectado e ninguém dá a mão.

Na cidade de aço e concreto, tem wi-fi em cada esquina,

mas falta conexão.

Cinco mil amigos online e ninguém para carregar o caixão. 



 

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