terça-feira, 21 de julho de 2026



                      fim de festa


Sim, claro, o que há de melhor a fazer

do que curtir a vida ?

A vida calma e pacata nos incomoda.

Ah, que tédio ! Que chatice !, estamos 

sempre reclamando.

Ah, os outros é que sabem viver.

O gramado do vizinho é sempre mais verde.

Felicidade fingida, cartão estourado, mas o status

no topo.

Seguindo sem rumo, dançando no caos 

de um mundo falido.

Quando a luz apaga e a festa termina,

tudo o que sobra é o cansaço.

A vida no bagaço.



Paz e sossego não nos satisfaz.

 

segunda-feira, 20 de julho de 2026



                    

                   razões

* versão musicada



Amor é uma palavra usada 

com muita facilidade.

Na maioria das vezes, em vão.

Vivemos em busca do par ideal,

mesmo sabendo que o ideal não existe.

Só muito raramente se encontra

alguém que te completa.

E quase sempre, nem repara.


Na modernidade líquida, a vida desidrata.

O que se ganha, se perde com a mesma facilidade.

Os relacionamentos se diluem no mundo virtual.

Assim como começam, acabam com um simples

bloqueio no wats ap.



 


                              insônia



A madrugada se arrasta.

Na distraída escuridão noturna,

vaga memória de pios e arrepios.

Corujas, galos, patas de cavalo ecoando

no paralelepípedo. 


Na antiga noite em que me afundo,

estrelas e pássaros ainda dormem.

Alguns sortudos acasalam.

Insone, não durmo, nem acasalo.

Na imensa noite de abandono,

o amor sucumbe. 


Na madrugada que se arrasta

Na vida que se engasta

Nas coisas que não desenroscam

No sono que não chega

Sonhados todos os sonhos

No meu abismo despenquei.

Da minha antiga vida, despertei.

 

 

                         (des)caminhos


Muitos caminhos

levam a lugar algum.

Atalhos, encruzilhadas, bifurcações

levam a todos os lugares.

Mas não onde queremos chegar.


Lugares em que o fim do caminho

é onde não deveríamos estar.

Posto que longe do caminho do qual

desviamos.

Privados do que tínhamos de melhor.

Tarde demais para voltar.



                                 a espera

* versão musicada

                            

Minhas mãos, desaprendidas de tocar,

já não tocam, já não oram. 

Meu coração, cansado de sentir,

já não sente,

menos mal que já não mente.


Nos dias que transcorrem, sem sentido,

sem tocar, sem sentir,

já nada espero, apenas sobrevivo.

A vida estagnada, o terno embolorado,

a espera do enterro.


Nada mais importa.

Bocas, sorrisos, palavras ao vento,

apenas gasto o tempo.

Os vermes já me comem por dentro.

domingo, 19 de julho de 2026


                       invisível


Ando por aí como se fosse invisível. 

Como se não existisse.

Virei fantasma antes de ter morrido.

Rostos colados em telas sem fim 

nem reparam em mim.

Nenhum olhar cruza com o meu,

sou só alguém que o mundo esqueceu.

Sou o figurante que o público não nota.

Eu e meu carisma de ator aposentado.

Até o espelho de me ver anda cansado,

me olha de lado, boceja, faz ar de enfado...


Postei até uma foto com filtro e um belo cenário.

Para saberem que ainda existo.

Mas o algoritmo, esse grande otário,

escondeu meu post para não comentarem.

Tudo bem, penso comigo, o anonimato não é tão ruim.

Ninguém me vê, ninguém me cancela.

A vida é mais leve fora da tela.


Outro dia sonhei que um bug bizarro me viralizou.

Apareci de pijama, comendo pastel,

e do nada ganhei milhões de seguidores.

Fiquei rico vendendo cursinho, virei escravo

da validação, 

e de repente a fama virou um castigo.

Acordei aliviado, rindo do pesadelo, 

saboreando minha doce insignificância. 

Descobri que ser invisível tem lá sua relevância.

Não preciso fingir que a vida é perfeita, 

nem viver de mentira.

A vida real é a única coisa que ninguém me tira.






  





                           

                      o silêncio também é remédio



Há coisas que duram.

Há coisas que passam. 

Há coisas que são.

E outras que vão.


Há coisas que idealizamos,

e outras que nem chegam a ser.

Há coisas lindas e raras,

e outras que é preferível esquecer.


Há escolhas que pesam.

Há verdades que abalam.

Há bocas que rezam.

E outras que amaldiçoam.


Gritamos para o mundo,

querendo respostas.

Contudo, o silêncio também é remédio.

Já não sinto o peso do que se perdeu.

Do que deixou de ser original.

Eu sou o começo, 

o meio

e o final.









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