terça-feira, 16 de junho de 2026

 


                            meio sol, meio escuridão



Louve-se a perenidade das coisas sem nome.

O labor anônimo, o sacrifício velado às causas perdidas.

O bem que se faz apenas por fazer.

Bendito tudo que encanta, que alegra,

faz alguém sorrir.


Oxalá a vida fosse simples como repartir um pão,

para que cada um tivesse o seu quinhão,

e ao fim de cada dia, o aconchego de um lar

para apascentar o coração.


Mas não fomos feitos para viver

em paz e harmonia.

Expulso do Paraíso, perseguido por deuses 

desdenhosos,

nosso destino inglório é perseverar no erro.

Rodeados de desamparo, transmutando

como um camaleão. 

Meio sol, meio escuridão.



segunda-feira, 15 de junho de 2026


                        o avesso do amor



Dessa vez não nos abraçamos,

reconciliados,

como numa novela.

Dessa vez não houve palavras de arrependimento,

nem o perdão perfeito.

Mas sim um silêncio honesto,

uma espécie de cansaço

do enredo de sempre.

Nenhum beijo na face, apenas 

o som da chave girando,

destrancando a porta que já estava

há muito aberta.


Aceitamos o fim sem o peso do drama

ou das promessas rasas.

Assumimos, enfim, que o amor também

cansa de tentar 

consertar o que já nasceu quebrado.

Dessa vez, sem o barulho de portas batendo,

nem mesmo tentativas de justificar o espaço

vazio que entre nós se formou.

Descobrimos, menos mal, que o avesso do amor

não é o ódio, 

apenas o silêncio eloquente

de quem não precisa mais justificar-se.

Nem tampouco explicar os motivos

de não ter dado certo.

O fim nem sempre precisa de culpas

e culpados.

É apenas o fim.








domingo, 14 de junho de 2026


                                       Tudo bem, faz parte




O trabalho cansa

O dinheiro nunca chega 

As relações pesam

As cobranças sufocam

As festas acabam

Os sonhos mudam

Tudo bem, faz parte.


A gente cai e se levanta

As certezas desabam

As feridas cicatrizam

A alma amadurece

O novo amanhece

O relógio não para.

Tudo bem, faz parte.


A vida se reinventa

O que realmente importa

Não são as conquistas e os fracassos

Mas o aprendizado que nos permite 

seguir em frente.

E a mão de quem caminha com a gente.







sábado, 13 de junho de 2026

                

               APAGA-TE DOS RADARES.


Explico-te...


Com a idade que tens, deves aprender a arte do desaparecimento estratégico.

Limpa o teu convés, muda de rumo e torna-te um fantasma para aqueles que não souberam valorizar a tua presença.

Eis a razão pela qual apagar-te dos radares é a jogada de mestre que vai salvar a tua vida.


1. A raridade cria o respeito, a omnipresença cria o desprezo.

Quando estás sempre lá, sempre disponível, sempre pronto a perdoar o pior em dois minutos, as pessoas habituam-se ao teu brilho.

Tornas-te como o ar que se respira:

Indispensável, mas totalmente invisível.

Já ninguém te agradece, pisam-te por hábito.

O leão não passa os dias a rugir para provar que existe. 

Ele isola-se.

É a sua reserva que cria o terror e o respeito.

Pára de alimentar a máquina. Desliga as notificações.

Não respondas mais às mensagens no segundo seguinte.

Recusa os convites de última hora. Retira o teu açúcar da vida deles.

Quando virem o vazio imenso que a tua ausência deixa, compreenderão finalmente o preço do teu valor.


2. Desaparecer sem discussões:  a obra-prima do silêncio.


A maioria das pessoas faz uma cena quando se vai embora.

Enviam um testamento de cinquenta linhas à meia-noite, bloqueiam, desbloqueiam, gritam a sua raiva.

Isso é criancice.

Ao fazeres isso, mostras à outra pessoa que ainda estás preso a ela, que a sua violência subtil conseguiu ferir-te.

Apaga-te sem estrondo, sem querelas. Não precisas de reunir um tribunal para justificar a tua partida.

Afasta-te na ponta dos pés. Num dia estás lá, no dia seguinte já não estás.

Sem ódio, sem censuras, apenas o vazio.

Esta é a punição mais destrutiva para o ego de um manipulador.


3. O jejum mediático: O teu corpo precisa de calma.


Porquê passar três horas por dia a olhar para a vida dos outros nos ecrãs?

Isto serve para fugir do silêncio.

Porque o silêncio obriga-te a olhar para as tuas próprias fissuras.

O teu corpo está a pagar as faturas que o teu espírito emitiu sem fundos.

Esse cansaço, esse estresse, esse nó no estômago... É a tua estrutura a gritar "basta".

Desaparece das redes durante um mês. 

Fecha as aplicações.

Utiliza esse tempo morto para te reconstruíres em segredo.

Lê, caminha, dorme, repara o teu navio longe dos olhares alheios.

Não se reconstrói um império sob os holofotes, edifica-se na sombra da noite.

Não confundas a retirada com a derrota. O pugilista recua um passo para melhor armar o soco.

Desaparecer não significa fugir, significa escolher as tuas batalhas.

É decretar que a tua energia é demasiado preciosa para ser atirada aos porcos.

Recupera as tuas chaves. 

Fecha a porta da tua intimidade.

Deixa-os procurar a tua sombra enquanto constróis a tua luz noutro lugar.

A grande limpeza da tua existência começa na escuridão do silêncio, e essa faxina começa hoje.


#storefront 

#Quentin 

#machado


sexta-feira, 12 de junho de 2026


                               a beleza da vida



De tudo e por tudo,

o esquecimento é uma benção.

Mesmo dos melhores dias, pouco ou quase nada

se retém.

Por melhor que tenha sido o passado,

o presente é o que há.

E em não sendo possível voltar no tempo,

só nos resta descobrir outros caminhos,

garimpar novos tesouros.

O sol sempre brilhará para quem tiver

olhos para ver.

Se tudo hoje parece vulgar e sem graça,

não culpe ninguém.

Para quem esqueceu de esquecer,

nada será satisfatório.

Muito menos o fato de que a beleza da vida

está justamente no imprevisto.

No provisório.











                         sentimentos


Maior é sempre a dor

de não saber

por que dói. 

Se não é por amor.

Se não é por desamor.

Afinal, por que dói ?


Nada é mais poderoso do que sentimentos

que procuram sentimentos.

Do sublime que consola e acalanta.

Do toque que inunda e remexe os sentidos.

Da compaixão que humaniza e aproxima as criaturas.

Da paixão que alucina e desencaminha.

Do amor gratuito e improvável.


Maior é sempre a dor

de não saber por que dói.

Se não é por amor

Senão é por desamor

Afinal, por que dói ?





quinta-feira, 4 de junho de 2026

 

                         a pasmaceira da vida


A pasmaceira da vida flui lenta e chata.

Acabando com sonhos e planos.

Expectativas sempre frustradas.

Acontecer algo de bom é um parto !


Os dias passam abrindo espaço para os inimigos.

A espera pelo que nos é devido é longa.

O que desejamos sempre nos escapa.

A beleza e a felicidade não passam de um acidente

de percurso.

As crenças são pedras de amolar facas cegas.

Libertar-se das crenças inúteis é o primeiro passo

para nos libertar

dos desejos inalcançáveis.


Os dias fluem lentos e chatos.

Agora que uma parede maior que o silêncio

entre nós se interpôs,

resignado,

despeço-me de todos os sonhos

de um tempo plural e ausente,

de quem desejou tantas coisas

sem saber

quanto custa

delas

se libertar.





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