quarta-feira, 15 de julho de 2026


                               novos e antigos dias


 



Sou um sonhador que sonha

com a apoteose dos momentos perfeitos.

Como se fosse possível ser mais feliz 

do que eu fui.

Pelos amores que tive.

Pelos filhos que tenho.

Pelo coração humanamente compungido

que a tudo e a todos subsiste.


Passeio pelo tempo sem reparos e remorsos.

O que fiz e o que deixei de fazer

se dissipam sem amargura ou rancor.

Não me resguardo nem me esquivo diante

do que a vida me ensinou.

Aprendi a valorizar as coisas que me fizeram diverso

do que um dia fui,

e que tão longe me levaram.

Longe e predestinado a ser feliz.


Assim, digo adeus ao que fui

sem deixar de ser o que sou.

O que fiz está feito, não há como remediar.

Das batalhas vencidas e perdidas, só ficaram as feridas.

Agora que os novos e antigos dias se misturam,

trato de desfrutar o que ainda vale a pena

ser vivido.

Contra tudo o que a existência deu e levou,

ainda guardo a louca ideia de ser feliz.



sexta-feira, 10 de julho de 2026


                         

           abençoado ou amaldiçoado



Abençoado ou amaldiçoado, 

o amor cumpre sua tarefa com louvor. 

Aventura-se por becos e vielas, consumindo-se

entre o prazer e o desencanto.


O amor não bate a porta, arromba.

Não pede licença, invade.

Vai se achegando, sem alarde.

Confunde afeto com paixão.

Não distingue o santo do ladrão.

Chega, senta, e fica.

Às vezes por pouco tempo.

Às vezes por uma vida.


Esgotadas as tentativas,

sai como entrou.

Sem despedida.

Quem fica é quem inventa justificativas.

Porque o amor não se explica.

Abençoado ou amaldiçoado,

não devolve o tempo tomado.

Entra e sai de cena, cedo ou tarde demais.

Deixando cada um com seus ais.





                                 o teatro da vida



Nas cidades de aço e concreto,

em que ruas e praças são palco de atores itinerantes,

os dias passam crivados

de dúvidas e súplicas.

No teatro da vida encena-se de tudo.

Todos fantoches sem rosto nem identidade.

Puxados por fios invisíveis que cortejam o inexistente.


Cortinas abrem e fecham em sessão permanente.

Atores e tramas se sucedem para que o show

possa continuar.

Decorando falas, seguindo roteiros sem ensaio.

Cada um com seu figurino, inventando um destino.

Todo mundo conectado e ninguém dá a mão.

Na cidade de aço e concreto, tem wi-fi em cada esquina,

mas falta conexão.

Cinco mil amigos online e ninguém para carregar o caixão. 



 

quarta-feira, 8 de julho de 2026


                            a vida se repete

                            (versão musicada)


Hoje está tudo bem.

Amanhã já não sei.

Hoje está tudo bem, 

amanhã já não sei.


A vida se repete até chegar

ao impasse,

ou a um ponto sem volta.

Que é quando as pedras rolam

e até as flores choram.


Disseram que triste seria meu fim.

Houve até quem risse de mim.

Mas se a vida é um circo sem lona

nem dono,

eu sou o palhaço que riu por último.


Se meu mundo desabou e virei motivo de chacota, 

de tanto erro crasso, 

oooooh-lá-lá...oooooh-lá-lá

virei coach e monetizei meu fracasso.


Hoje está tudo bem,

amanhã já não sei. 

Hoje está tudo bem,

amanhã já não sei.

Mas já nada me assusta.

Cada tropeço me trouxe até aqui.

Quem não teme a queda aprende

a ir além.

E eu só levo comigo,

aquilo que me faz bem.


Hoje está tudo bem, 

amanhã já não sei.

Hoje está tudo bem, 

amanhã já não sei.








segunda-feira, 29 de junho de 2026


                               quando as pedras rolam



Hoje está tudo bem.

Amanhã já não sei.

A vida se repete até chegar ao impasse.

Ou a um ponto sem volta.

Que é quando as pedras rolam.


Tenha isso sempre em mente.

Não somos nada se não tivermos serventia.

Ninguém respeita quem não tem nada a oferecer.

Somos meras peças de uma engrenagem

fria e calculista.

Os prazeres da vida passam, as dores 

e os dissabores ficam.

O amor esconde os defeitos, enquanto 

nos põe algemas.

Na vida há vários caminhos.

De luzes e cruzes.

De rosas e espinhos.


Hoje está tudo bem.

Amanhã, já não sei.

A vida se repete até ao impasse.

Ou a um ponto sem volta.

Que é quando as pedras rolam.



domingo, 28 de junho de 2026



                     tudo de bom




                       

Há um tempo na vida, com a página em branco,

em que ansiamos por atenção, companhia.

Quase imploramos por um amor.

Correspondido ou não.

Mas vem o tempo em que a ausência disso tudo,

é tudo de bom.

Em que o coração finalmente sossega.

Já não grita.

Já não sangra.

Só quer paz.

A paz de quem se conhece melhor.

Que não perdeu o gosto pela vida,

apenas se aquietou.

Que aprendeu a se dar valor.







                          moinhos de vento


A vida se desfaz em brevidades.

Nuvens cansadas vagam o céu indeciso.

Pedaços de lucidez galopam com destinos opostos,

forjando a vida itinerante.

Despojos de mim inventam o mundo

de moinhos de vento.

Não há um dia sem dores e deslumbramentos.

Envelhece o tempo renascido de si mesmo.

O mundo é grande mas nem tanto.

Uma dor antiga sobrevive em meio

a imundície e miséria.

À margem dos dias, rompe-se o invólucro 

das façanhas retroativas.

E assim, extinto o encantamento,

a própria beleza torna-se inútil.

A  vida, quando não é festa, é guerra.


 

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