sexta-feira, 2 de outubro de 2026


                                                      nenhum de nós



                             


Acordo.

Eu e você.

E nenhum de nós sabe por quê.

Existimos, e só.

Sem respostas, sem convicção.

É tudo suposição.


Os dias se parecem.

Nasci sem pedir, e vou morrer 

do mesmo jeito.

Carrego num nome que não escolhi.

Num corpo que envelhece sem parar.

Cada escolha que faço,

fecha mil portas que nunca vou abrir.


E ainda assim sigo.

Não porque quero, mas porque sou obrigado.

Toda manhã é um recomeço que eu 

não pedi para ter.

Lembro dos que já se foram e penso :

é isso que sobra, de tanto querer sem alguém.

Um nome numa lápide.

Ou nem isso. 


Esse é o peso de ser.

Viver sem saber por quê.

Falamos de Deus quanto temos medo.

Esquecemos dele quando está tudo bem.

Cair, levantar, recomeçar : e se no fim 

não houver nada,

que valha a pena ter sido ?


Acordo.

Eu e você.

E nenhum de nós sabe por quê...






                             de crachá e tudo mais



Podem me chamar de otário.

Vai ver, sou mesmo.

Por acreditar nas pessoas.

Por ter bom coração.

Acreditar em promessa de palanque.

Votar em ladrão. 

Por dar a mão a quem me voltou as costas.


Podem me chamar de otário que não ligo.

Vai ver, sou mesmo.

Por ser sempre o último a saber.

E o primeiro a pagar a conta.

Aprontam comigo e ainda sou capaz

de sorrir no fim do dia.

Podem me chamar de otário.

Com direito a crachá e tudo mais.

Eu confio, perco, e dou risada.

E amanhã volto disposto a tentar de novo.


Já me chamaram de ingênuo, bobo, sonhador,

mas é curioso, continuo de pé.

Já quem me enganou, passou a perna, 

carrega o peso do que fez.

Dorme de olho aberto, com medo de levar o troco.

E eu, que fiz papel de bobo, posso olhar no espelho

sem desviar.


Se isso é ser otário, então fica combinado.

Sigo assim, de crachá e meio torto, mas honrado.

E a vocês, espertalhões, meu muito obrigado.

Pelo tanto que me ensinaram.












 

terça-feira, 29 de setembro de 2026


                                  o básico


Não sei você, mas para mim o básico 

bem feito é perfeito. 

A gente cai e se levanta, alguma vez 

na sua vida foi diferente ?

Não é besteira, se para você é importante.

Se você tentou e falhou, parabéns !

Tem gente que nem tenta.

Não sei você, mas detesto conselhos,

sigo o meu coração e arco com as consequências.

Eu sou o  barco, o farol

e a praia da minha vida.

Foi difícil desistir de você, 

me fez promessas bonitas mas faltou lealdade.

Ninguém com amor no coração

erra tantas vezes.

Não me peça para queimar devagar,

baby, porque senão apago.

Como já disse alguém, eu não quero

o que é caro. Eu quero o que não tem preço.

Prefiro seguir meu caminho a implorar 

por carinho.

A solidão ao menos é honesta :

não promete, não finge, não cobra.

Manter distância é a melhor maneira 

de lidar com o que não presta.








                            aprenda

* versão musical


Afinal, do que tens medo ?

Morrer um dia todos vamos. 

Se perder, pode conquistar tudo de novo.

Passar vergonha é o de menos, acontece com todo mundo

Ser descartado pode ser um livramento.

Fracassar faz parte do caminho.

Medo de ser julgado é bobagem, geralmente

quem julga está longe de ser exemplo.

E errar, todo mundo erra.

O arrependimento dói mais para quem teme

correr riscos.

De tudo o que a vida ensina, aprenda,

ou você muda, ou tudo se repete.

Faça o bem que a vida faz o resto.

Bora, por em prática !

 






domingo, 27 de setembro de 2026


                         a pachorra da vida


A que ponto chegamos.

Todo mundo procurando algo real no mundinho virtual.

Buscando parceiros em relações superficiais.

Trocando de pretendentes como num cardápio surreal. 

Acreditando que exista alguém ali, sem filtro, 

scrollando rostos como quem compra e vai comparando.

Gente vaidosa, carente, alguns desesperados,

doentes, opções não faltam nessa grande latrina.

O mundo digital virou vitrine,

onde tudo se expõe e vergonha é coisa

de outrora.

Influenciadores proliferam, com roteiro

decorado e áudio editado.

Vale tudo para vender produtos e cursos

com conteúdo copiado.

Todo mundo é expert, todo mundo tem opinião.

Comentário raso vira debate, ninguém entende

nada de nada mas crucifica os outros 

como se fosse o dono da verdade.

O que não falta é gente feliz, em paz, viajando,

casais perfeitos, 

enquanto a vida real é a bagunça de sempre.

Um caos organizado e mal disfarçado

de uma vida em que ninguém sabe direito 

o que está fazendo, é tudo improviso

e a gente vai vivendo.


Fingir que está tudo bem é o lema.

Tiro por mim.

Acordo, já pego o celular antes mesmo

de abrir o olho,

checo quantos curtiram meu jantar de ontem,

a foto do por do sol, quando eu, na real,

estava ali sozinho, tentando mostrar para todo mundo

que estou vivendo mesmo, ah, coitado de mim.

Vendo vídeo de um conhecido passeando em Dubai,

outro tomando vinho na Toscana,

enquanto tomo suco de caixinha na cama.


Mas tudo bem, aqui vai meu brinde, 

sem pose, sem holofote, à pachorra da vida normal.

Rir de mim mesmo é o único remédio real.

Sou só mais um pixel na tela tela do circo digital.





domingo, 20 de setembro de 2026

 


                      lembranças


Um dia não seremos mais do que uma 

vaga lembrança.

Talvez uma saudade silenciosa.

O fim não chega com trombetas e glória.

Chega de mansinho, apagando a memória.

E está tudo bem, porque tudo tem o seu tempo e tamanho.

As coisas são belas exatamente porque passam

e não voltam.

Não fazemos falta ao mundo, e isso tem seu

lado bonito.


Ser lembrado é apenas um modo de olhar

para onde já não há mais nada para ver.

Estivemos com o sol, amamos, 

rimos com os amigos, e o que sobra

são lembranças que o tempo apaga. 

A vida não se resume a urgência e ao vil metal.

Há que buscar no comum o que é extraordinário

e vital. 

A morte, no fundo, é uma tremenda falta

de etiqueta.

Deixa os outros com a sua bagunça,

e nem pede desculpas pelo transtorno. 





sexta-feira, 18 de setembro de 2026

 

                          quase bonito

* versão musical


Chega uma tempo em que tudo desanda. 

Aos poucos ou de repente, as coisas se transformam.

Entre perdas, términos e recomeços, novos caminhos

se moldam,

exigindo forças que às vezes nem temos.

A vida é muito doida, não cansa de mudar.

Nem bem ajustamos a rota e voltamos a derrapar.

Perde-se o emprego, o amor e o juízo, nada sai

como o desejado.

Mas é quase bonito ver tudo mudar.

De cada tombo levantar.

Se a vida perfeita era pura ilusão,

o azar vira a melhor lição.

Ah, se o mundo gira e tira tudo do lugar,

é quase bonito ver tudo mudar.






 




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