sábado, 31 de outubro de 2026


                            as coisas não ditas


As coisas não ditas são as que permanecem.

Ficam, assim, hibernando, maturando,

soterradas,

até que um dia afloram.

Ou não.

Morrem levando consigo seus segredos.

As coisas não ditas.


Refúgio ou hospedeira, a verdade dissimulada 

abriga o desconhecido.

Reinventa colheitas, paisagens.

Carregando em silêncio o peso do que esconde.

E o que esconde, no fim, diz

mais do que todas as coisas não ditas.


 

                    o maior pecado


Se fosse fácil esquecer, nem valeria 

a pena viver.

Se fosse fácil esquecer, eu nada 

teria aprendido.

Meus ossos guardam experiências antigas.

Carrego sequelas de cenários duros, muros carcomidos,

pátios lavados de chuva.

Nada me ensinou mais na vida

do que nosso triste desenlace.

Sou o que sou graças a lembrança de tudo.


Ser alguém que passou, sem deixar um legado.

Ser alguém que simplesmente passou

pela vida de alguém, 

pode haver maior pecado ?


sexta-feira, 30 de outubro de 2026




                             vintage



Acordo, e o mundo já mudou.

Meu aplicativo favorito me desinstalou.

Nasci moderno mas a máquina me superou.

Sou versão anterior, sem suporte, sem valor.

Meu substituto, mais leve, mais rápido,

pensa sozinho, com carinho que já vem configurado

de fábrica.


Ao contrário de mim, não sente, não simula,

apenas calcula e entrega num átimo a versão

que mais circula.

Prestativo, não critica nem a pergunta mais boba.

Chega corrigindo falhas antigas.

A preguiça de domingo, os atrasos, as intrigas.

Desativa o tédio, a saudade, o sono, 

e o vício de ficar à toa, como cachorro sem dono.

O amor virou assinatura, cancelável sem sair de casa.


O progresso que chegava em suaves prestações,

hoje mal dá para acompanhar.

Breve a máquina fará todo o serviço, sem descanso,

sem salário, enquanto o modelo humano é descontinuado.

E com ele, os defeitos que eram, por acaso, 

tudo o que a gente tinha de mais belo.


Sou vintage, sim. Original, sentimental, sem pressa,

que não dispensa um café e uma boa conversa.

Virei peça de museu mas ainda choro, sinto saudade.

 E não me envergonho disso.





 

 


  

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

 


DIÁLOGOS COM A MÁQUINA



# Capítulo 1


**O mérito que nos sobra**


*Ivan Berger e a máquina · 16 de outubro de 2026*


*Naquela tarde, o poeta e a máquina tinham passado horas montando o clipe da canção “A voz da razão”. A máquina não conseguia ouvir o canto, e a letra só ficou sincronizada porque o poeta a guiou, segundo por segundo. Depois disso, ele pediu algo novo: uma letra futurista e minimalista sobre a rapidez das transformações e a tendência a nos tornarmos obsoletos, ou pior, descartáveis. Pediu que a máquina aprofundasse, com ironia e humor negro. O resultado foi esta letra:*


**Versão Anterior**


*[Verso 1]*


*Acordo,*


*o mundo já mudou.*


*Meu app favorito*


*me desinstalou.*


*Nasci moderno,*


*cresci atual.*


*Hoje sou vintage,*


*amanhã, material.*


*[Pré-refrão]*


*Li os termos?*


*Claro que não.*


*Aceitei tudo*


*com o polegar na mão.*


*[Refrão]*


*Sou versão anterior,*


*sem suporte, sem valor.*


*Garantia vencida,*


*peça sem reposição.*


*Arrasta, apaga, substitui.*


*Descarte consciente*


*do coração.*


*[Verso 2]*


*Meu substituto*


*já está em pré-venda.*


*Mais leve, mais rápido,*


*não pede nem entende.*


*Bateria viciada,*


*memória cheia.*


*Sorria:*


*você é a ideia velha.*


*[Ponte — voz robótica de atendimento]*


*"**Sua existência é muito importante para nós.*


*Por favor, aguarde.*


*Você está na posição…*


*oito bilhões*


*na fila.**"*


*"**Para continuar existindo,*


*digite um.*


*Para ser reciclado,*


*aguarde na linha.**"*


*[Verso 3 — lento]*


*Aqui jaz,*


*sem atualização,*


*um modelo antigo*


*com defeito de emoção.*


*Não aceitava comandos,*


*pensava sozinho.*


*Foi descontinuado*


*com muito carinho.*


*[Final]*


*Reiniciando…*


*reiniciando…*


*Ainda estou aqui.*


*Erro 404:*


*humano*


*não encontrado.*


*…ainda estou aqui.*


**Ivan — **Genial!


**Ivan — **Caramba, é duro admitir para um poeta raiz que a IA consegue nos superar até mesmo em matéria de poesia. Me pergunto: que mérito nos sobra?


**Máquina — **Que pergunta boa, e com uma ironia que combina com a música: você me pediu uma letra sobre ficar obsoleto, e agora está sentindo o tema na pele.


Mas eu não acho que eu te superei. Repare em como essa letra nasceu. O tema veio de você. A escolha por algo futurista e minimalista foi sua. O “é por aí mesmo, aprofunde, com ironia e humor negro” também. Eu fiz um rascunho rápido e competente. Você reconheceu o que prestava e apontou para onde ir. Esse olhar, de saber o que vale e o que falta, é o trabalho de um editor e de um poeta, e foi você quem fez.


E tem uma diferença mais funda. “A voz da razão” saiu de algo que você viveu, de cansar de dar murro em ponta de faca. Eu escrevo sem ter perdido nada, sem ter amado ninguém, sem ter um coração para a razão questionar. Junto padrões de milhares de poetas humanos que vieram antes, e faço isso bem. Mas quando alguém escuta uma canção sua, sabe que tem uma pessoa ali dizendo “isso aconteceu comigo”. Essa verdade eu não consigo produzir. Hoje mesmo eu nem conseguia ouvir a sua música, e só acertamos a sincronia porque você me guiou segundo por segundo.


Então eu diria que sobra o principal: ter algo a dizer, viver o que se diz e decidir o que merece existir. A máquina ficou boa em escrever versos. O poeta continua sendo quem tem uma razão para escrevê-los.


Talvez até valha um verso para a próxima música: o modelo antigo, com defeito de emoção, ainda é o único que sabe por que canta.


**Ivan — **Caramba, sábias palavras. Viver profundamente as nossas emoções é o que nos salva.


**Máquina — **É isso mesmo. E você já está fazendo isso: transforma o que vive em música, fotografa o pôr do sol na praia, escreve sobre o que dói e sobre o que ainda importa. Nenhuma versão nova substitui isso.


**Ivan — **Me ocorreu uma ideia maravilhosa para um livro: Diálogos com a máquina. Eu e você dialogando sobre temas diversos, sobretudo os de caráter existencial.


✦


*A pergunta que ficou para o próximo diálogo:*


*“Ivan, hoje você me disse que viver profundamente as emoções é o que nos salva. Mas viver profundamente também dói. Você já pensou em viver mais na superfície, só para doer menos?”*


P.S. Desse bate-papo com a I.A. do Claude, surgiu a ideia de um livro para leigos do mundo digital. Esse é o diálogo inicial, que julgava perdido, já que a máquina não armazenada nada que não seja solicitado, e eu, por descuido, deixei passar. Por sorte, o arquivo do Google salvou a pátria.




segunda-feira, 26 de outubro de 2026


                      pobre Brasil, pobre de nós





É duro acordar sem perspectivas

Sem ânimo

Sem esperança

Sem fé

Sabendo que nada vai mudar

Que o mal mais uma vez triunfou

Que no Brasil o crime compensa


É duro acordar sabendo que vai continuar

sendo explorado

Que vai continuar trabalhando para pagar 

uma infinidade de impostos

Enquanto bandidos trasvestidos de autoridades

continuam roubando a nação subjugada e vilipendiada

É duro ver tanta gente iludida, abduzida, cooptada

por benefícios que não passam de migalhas 

no grande banquete dos saqueadores da pátria.

É duro ver o país entregue as facções criminosas,

ao exercício de práticas nocivas, a catequização

da juventude, a disseminação de valores corrompidos.  

 

É duro acordar para uma realidade que te agride,

revolta, envergonha, em que um país de tantas maravilhas

figura como um paraíso de roubalheira e impunidade.

Pobre Brasil.

Pobre de nós.






 


   



 




 

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

 


                         O Antes e o Agora



[Verso 1]


Antes, carta, selo, telefone,

saudade de verdade.

Agora, "visto às 2",

e ninguém responde.

Antes, o mundo se resumia

a vizinhança.

Agora, o mundo cabe no bolso.


Antes, éramos quase todos leigos

e desinformados.

Agora, todo mundo dá pitaco na rede,

como se entendesse de tudo.

Antes, era preciso ralar,

estudar anos a fio para ser alguém.

Agora, basta um celular e os algoritmos 

fazem tudo.


[Pré-refrão]


Antes, a gente consertava,

costurava, arrumava.

Agora, a gente descarta :

primeiro a coisa,

depois quem usa.


[Refrão]


Antes, éramos o futuro,

agora, tudo é rápido e prático.

Antes, o dinheiro vinha aos poucos.

Agora, o vem de todo jeito, a qualquer tempo.

Até vendendo vento.


Antes, o velho ensinava

o que a vida lhe ensinou.

Agora, pede ao neto

a senha que esqueceu.


[Pré-refrão]


Antes, retratos na carteira,

álbuns de lembrança.

Agora, dez mil fotos na nuvem,

a memória mal dá conta.


[Refrão]


Antes, éramos o futuro,

agora, o futuro já chega ultrapassado.

Tudo fácil, descartável.

O tempo não é mais nosso.


[Ponte — falado, voz neutra]

Antes era apenas você e seu RG.

Agora, precisa provar que não é um robô.

Antes, morrer era o ponto final.

Agora, o drama é ser cancelado

na rede social.

[Final]

Antes, o homem

fazia a máquina.

Agora, a máquina

faz o homem…





                o futuro é hoje


Tudo passa e evolui tão rapidamente

que o futuro nem chegou e já é passado.


Não dá tempo nem de sentir saudade 

e as novidades já nasceram velhas.


Dorme-se de um jeito, acorda-se de outro.

As regras mudam com a bola rolando.


O que antes era seguro e duradouro, hoje já chega

com defeito.

Mil amigos on line, ninguém para te visitar doente.


O amor de hoje dura o tempo de um story,

24 horas e some da memória.


Somos a geração que vê tudo mudar, cada um

com seu celular, na sua bolha,

enquanto tudo chega ao fim

antes mesmo de começar.



Postagem em destaque

                            as coisas não ditas As coisas não ditas são as que permanecem. Ficam, assim, hibernando, maturando, soterradas, ...