sábado, 25 de julho de 2026


                                 dias felizes


Há dias que vale a pena viver.

Outros nem tanto. 

Mas há que vivê-los.

Há que suportá-los.

Por mais pesado que seja o fardo.


Há dias de ouro, para serem valorizados.

Entre tantos que apenas passam.

Sem deixar saudades.

Há dias perfeitos, que de tão tranquilos e simples,

nem nos damos conta.

Não reparamos quão calmos e belos

em sua mansidão,

em seu escoar tranquilo,

feito essa chuva que cai mansamente.


Amo a chuva que cai languidamente,

enquanto espio da janela

o vaivém das pessoas, dos carros que transitam

pela avenida luzidia.

Amo a calmaria desses dias perfeitos.

A preguiça que me assalta.

O alarido de meu filho, brincando no quarto

ao lado.

Amo o perfume que exala de ti, mulher amada,

ao sair do banho em traje sumário.

Amo o teu jeito de menina-mulher.

Teu olhar de quem nada quer, tudo querendo.


Olho em volta e vejo que não preciso

de mais nada para ser feliz.

Apenas dias assim, tranquilos.

Ao lado de quem amo.

Ao lado de quem

faz a vida valer a pena.


(16/08/2014)


                         o começo e o fim


O fim de uma coisa é o começo de outra.

Nada realmente termina. 

É como capinar, arrumar a casa.

Um trabalho que nunca acaba.


Em todo presente o passado habita.

O fim é o começo de um novo plano.

Nada de fato acaba, apenas se transforma.

E de alguma forma retorna.

Lembranças, sequelas, feridas.

É a lida.

É a vida bandida.

O começo e o fim entrelaçados.

O bom e o ruim mudando de lado.

E uma agonia que nunca acaba.




sexta-feira, 24 de julho de 2026


                                        o verdadeiro amor


Não tente entender.

O amor não obedece à razão. 

Tampouco é ligado em virtudes e posses materiais.

Ninguém ama uma pessoa por ser educada, honesta,

ou até mesmo rica.

O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo,

conjunção astral.

Ama-se pelo cheiro, pelo toque, pela paz ou pelo tormento

que provoca.


Você ama aquele cafajeste. Ele não leva nada à sério,

está sempre duro e é extremamente galinha.

É um legítimo sem futuro, e ainda assim

você não consegue esquecê-lo.

Quando ele toca seu corpo, você derrete feito manteiga.

Nem você sabe porque ama esse cara.

Você tem inúmeros pretendentes, já ficou com vários

deles, alguns bem generosos, bem de vida,

mas nenhum consegue ser do jeito como o amor

da sua vida é.

Ah, quem dera o amor fosse como uma equação

matemática, tipo assim : você linda + ele inteligente =

dois apaixonados...



* baseado em crônica de Arnaldo Jabour




  





                                filhos

                                         


Filhos, enquanto pequenos, carentes,

são a expressão do mais belo ideal.

Mimos e zelos cercam seus passos,

multiplicando o amor a cifras inimagináveis.

Além das estrelas...


Pequeninos, enquanto inocentes, submissos,

trazem felicidade ao lar mais carente.

Aquecem o coração da alma mais fria.


Filhos, seu sorriso é como um bálsamo,

uma centelha de luz na escuridão do mundo.

Pequenos, são a alegria e a dor,

a esperança e o desespero.

Crescem entre o amor e medo.


Há o que crescem livres e belos,

na certeza de um amanhã venturoso.

Ali na esquina, porém, maltrapilhos e desamparos,

outros pequeninos parecem chorar

a desgraça de terem nascido.


* escrito em 12/1988

quinta-feira, 23 de julho de 2026


                            conflito


Não espero que Deus tenha piedade de mim.

Pois teria que fazer por merecer. 

Inventar uma maneira diferente de ser.

Que fosse o avesso de mim.

Alguém que não se exponha tanto.

Que seja mais centrado, cauteloso, mais cético.

Ou seja, fazer o contrário do que tenho feito.


Mas não sei ser de outro jeito.

Mesmo querendo, sempre dá errado.

Meu Deus, porque sou tão atrapalhado ?

Não quero o mal de ninguém.

Nem de meus desafetos, que tanto me ensinaram.

Talvez eu não me dê conta do conflito entre a ideia

que de mim faço, e o que realmente sou.


Não há razão para esperar mais nada.

Ser o que não sou.

Não vou renegar o que sou.

Não espero que Deus tenha piedade de mim.

Pois de tanto crer, já não sei em quem creio.

Nem quem sou.




                            a roleta do amor


Se é para perder,

se o previsível desfecho são favas contadas,

para quê arriscar ? 

Por que se envolver, sonhar, se iludir ?

Em certas fases da vida, tudo bem,

há que tentar, apostar tudo na viciante

e viciada roleta do amor.

Mas depois de tantas mãos jogadas,

tantas bolas fora,

trapaceando e sendo trapaceado,

manda o bom senso dar um basta.

Antes que o prejuízo seja irreparável,

e tudo se perca, dignidade, amor-próprio,

sem falar no prejuízo financeiro.

Nada mais deprimente do que rastejar

por quem não lhe quer mais.


Lembre-se, 

a única chance de ganhar, ou minimizar

as perdas nesse jogo de cartas marcadas,

é saber a hora de parar.

O diabo é que a abstinência equivale a renunciar

ao que a vida tem de melhor.

Enquanto dura.




                        quando a ficha demora à cair



É assim mesmo.

Às vezes a ficha demora à cair.

Quando a namorada diz que não pode te ver

porque precisa fazer o cabelo, as unhas. 

Quando ela diz não ser interesseira mas condiciona

tudo ao dinheiro.

Quando diz que é ninfomaníaca mas com você,

só na base da barganha.

Quando ela te bloqueia nas redes sociais, alegando

que você é ciumento.

Quando te evita na cama, mas continua

tomando anti-concepcional.

Quando ela não larga do celular mas põe senha

e passa horas sem te responder.

E quando responde, diz que a bateria acabou...

Quando os apelidos carinhosos são deixados de lado,

os sorrisos escasseiam, qualquer coisa é motivo

para discussões ou longos silêncios,

provavelmente a ficha já caiu

e você nem se deu conta.

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