invisível
Ando por aí como se fosse invisível.
Como se não existisse.
Virei fantasma antes de ter morrido.
Rostos colados em telas sem fim
nem reparam em mim.
Nenhum olhar cruza com o meu,
sou só alguém que o mundo esqueceu.
Sou o figurante que o público não nota.
Eu e meu carisma de ator aposentado.
Até o espelho de me ver anda cansado,
me olha de lado, boceja, faz ar de enfado...
Postei até uma foto com filtro e um belo cenário.
Para saberem que ainda existo.
Mas o algoritmo, esse grande otário,
escondeu meu post para não comentarem.
Tudo bem, penso comigo, o anonimato não é tão ruim.
Ninguém me vê, ninguém me cancela.
A vida é mais leve fora da tela.
Outro dia sonhei que um bug bizarro me viralizou.
Apareci de pijama, comendo pastel,
e do nada ganhei milhões de seguidores.
Fiquei rico vendendo cursinho, virei escravo
da validação,
e de repente a fama virou um castigo.
Acordei aliviado, rindo do pesadelo,
saboreando minha doce insignificância.
Descobri que ser invisível tem lá sua relevância.
Não preciso fingir que a vida é perfeita,
nem viver de mentira.
A vida real é a única coisa que ninguém me tira.
