segunda-feira, 20 de abril de 2026



                        não quero mais amar


Não quero mais amar

Mas posso muito bem fingir 

Garanto que vai ser até melhor

Sem cobranças, ciumeiras

Essas coisas que só atrapalham


Ando cheios de vazios

Sinto remorso, mas faria tudo de novo

De outro jeito

Tudo o que é demais, sobra


Eis meu coração

Deponho a respectiva chave

Nada mais tenho a dar

Além de uma esperança que já não tenho.





segunda-feira, 13 de abril de 2026


                               antagonismos



Em tempo se percebe que há tarefas

que jamais serão cumpridas. 

Que todo esforço se desfaz diante do austero

breviário de desilusões e desatinos.

Nunca se sabe o momento da mudança irreversível.

Quando o amor não mais compartilhado

se avilta

de tal forma

que nem o perdão se torna mais necessário.


O que parecia divino

dura o tempo que duram as fugazes magias.

Fazer durar em meio a tantos antagonismos

é como tatear às cegas.

Arriscando-se a tudo.

Sem certeza de nada.



quinta-feira, 9 de abril de 2026

 


                           profundo e imundo



Teus rompantes e silêncios dizem tudo

o que preciso saber.

Te entendo quando calas e te afastas.

Quando tua fúria se transforma em pedra, 

posso ver como és.

Uma parede, um muro, uma casa desabitada.


Lembrar de você me alegra e me entristece.

Na medida que não posso ter nada

além de tão pouco.

Promessas, expectativas, migalhas de afeto.

Profundo e imundo, meu coração se acostumou

a ódios e insultos.

Eu e tu.

Tu e eu.

Passamos tantas coisas juntos.

Até filho fizemos.

Me perdi em pleno gozo dos prazeres,

quando o louco amor

virou tumor. 














                      a sentença


Desejos nunca satisfeitos fecundam

o fruto proibido das paixões. 

Quando o ócio

O vício

O cio

Se recriam a fim de reciclar

o amor que se esfacela.


Você me tinha na mão

mas nunca deu valor.

Talvez por me achar fácil demais.

Confiante de que nunca te deixaria.

Mantendo em segredo sua vida dupla.

Viciada em redes sociais.

Sempre precisando ser vista e desejada.

Transferindo culpas e responsabilidades.

O teu ex era um sem futuro.

Todos te traíram.

E eu nunca estive a tua altura.

Nunca passei de um mero quebra-galho.

Ainda assim permaneci, passei pano, resignado

com as migalhas de afeto.

Até que o coração finalmente cansou.

E o fim do amor se desenhou. 

Quando a inquietação, a raiva, se transformaram 

em indiferença. 

Fria e inapelavelmente,

Como uma sentença.
















 

terça-feira, 7 de abril de 2026

 

                 quando a raiva desaparece


Há dias em que a raiva desaparece de repente e, em vez do fogo que me mantinha de pé, fica apenas uma tristeza funda, silenciosa, quase sem defesa. E confesso que, às vezes, isso assusta-me mais, porque a raiva ainda me dá uma espécie de estrutura. Mesmo quando me endurece, ainda me protege. Ainda me permite dizer “nunca mais”, ainda me devolve alguma força, ainda me afasta daquilo que me feriu. 

Mas quando ela some, o que fica já não tem dentes. Tem apenas peso. É então que percebo que a raiva nunca foi o fundo, mas a camada quente por cima da parte realmente ferida. O que está por baixo não é vontade de regressar, nem amor mal resolvido. É luto. É a dor de ter acreditado tanto num lugar onde eu queria poder descansar e de ter descoberto, tarde demais, que ali eu teria sempre de sobreviver em vez de viver.

E isso entristece-me até aos ossos. É por isso que existem tristezas que não gritam. Apenas se instalam. Não pedem explicação, não exigem respostas, não querem drama. Limitam-se a evidenciar, com uma clareza quase cruel, tudo aquilo que não chegou a existir como eu precisava que existisse. E nesses dias, o que me dói já não é a pessoa. É a ausência daquilo que eu quis tanto encontrar nela. A raiva afasta-me. Mas é a tristeza que me obriga, finalmente, a aceitar a perda inteira.


José Micard Teixeira 

segunda-feira, 6 de abril de 2026



                confuso querer



 
Esse confuso querer.

Ora querendo, ora não querendo.

Dúvidas consumindo a mente.

Matando um pouco mais o que a gente sente,

sempre que você mente.


Bela por fora,

podre por dentro,

não é sequer respeitável aquela a quem 

consagrei meus melhores esforços.


Ainda assim, é tão bom estar com ela,

tão glorioso fazer amor com ela,

que, naqueles momentos, diria, sublimes,

inevitável não sentir uma espécie de culpa,

diante da miséria da vida lá fora.


A vida é uma sucessão de erros.

E você é apenas mais um deles.

Estou ciente, já era para ter caído fora, 

mas a carne 

não esquece dos gozos e prazeres.









domingo, 5 de abril de 2026


                          a quem interessar possa





A quem interessar possa, estou muito bem, obrigado.

A quem se preocupa comigo, estou de boa.

A quem sente minha falta, gosta da minha companhia,

diz que me ama, estou como sempre estive.

Na minha. 

Acessível. 

Disponível.

Nem sempre calmo, tranquilo, mas finalmente

em paz comigo mesmo.


E devo isso a vocês, que tanta se preocupam,

que sentem minha falta, gostam da minha companhia.

Não faz mal que só da boca para fora.

Principalmente você, mulher amada, mais uma ex

na minha vida.

Demorei a entender e aceitar que é esse o meu papel.

O papel de prover, atender, dar conta do recado.

Lembrado enquanto tenho serventia.

Tolerado enquanto útil.


Fico feliz em vê-los bem.

Me contento em sabê-los seguros e saudáveis.

Sinal de que cumpri bem meu papel.

A quem interessar possa, estou muito bem, obrigado.

Mesmo bancando o idiota.

Mas em paz comigo mesmo.

É tudo o que importa.











 









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