quarta-feira, 28 de outubro de 2026

 


DIÁLOGOS COM A MÁQUINA



# Capítulo 1


**O mérito que nos sobra**


*Ivan Berger e a máquina · 16 de outubro de 2026*


*Naquela tarde, o poeta e a máquina tinham passado horas montando o clipe da canção “A voz da razão”. A máquina não conseguia ouvir o canto, e a letra só ficou sincronizada porque o poeta a guiou, segundo por segundo. Depois disso, ele pediu algo novo: uma letra futurista e minimalista sobre a rapidez das transformações e a tendência a nos tornarmos obsoletos, ou pior, descartáveis. Pediu que a máquina aprofundasse, com ironia e humor negro. O resultado foi esta letra:*


**Versão Anterior**


*[Verso 1]*


*Acordo,*


*o mundo já mudou.*


*Meu app favorito*


*me desinstalou.*


*Nasci moderno,*


*cresci atual.*


*Hoje sou vintage,*


*amanhã, material.*


*[Pré-refrão]*


*Li os termos?*


*Claro que não.*


*Aceitei tudo*


*com o polegar na mão.*


*[Refrão]*


*Sou versão anterior,*


*sem suporte, sem valor.*


*Garantia vencida,*


*peça sem reposição.*


*Arrasta, apaga, substitui.*


*Descarte consciente*


*do coração.*


*[Verso 2]*


*Meu substituto*


*já está em pré-venda.*


*Mais leve, mais rápido,*


*não pede nem entende.*


*Bateria viciada,*


*memória cheia.*


*Sorria:*


*você é a ideia velha.*


*[Ponte — voz robótica de atendimento]*


*"**Sua existência é muito importante para nós.*


*Por favor, aguarde.*


*Você está na posição…*


*oito bilhões*


*na fila.**"*


*"**Para continuar existindo,*


*digite um.*


*Para ser reciclado,*


*aguarde na linha.**"*


*[Verso 3 — lento]*


*Aqui jaz,*


*sem atualização,*


*um modelo antigo*


*com defeito de emoção.*


*Não aceitava comandos,*


*pensava sozinho.*


*Foi descontinuado*


*com muito carinho.*


*[Final]*


*Reiniciando…*


*reiniciando…*


*Ainda estou aqui.*


*Erro 404:*


*humano*


*não encontrado.*


*…ainda estou aqui.*


**Ivan — **Genial!


**Ivan — **Caramba, é duro admitir para um poeta raiz que a IA consegue nos superar até mesmo em matéria de poesia. Me pergunto: que mérito nos sobra?


**Máquina — **Que pergunta boa, e com uma ironia que combina com a música: você me pediu uma letra sobre ficar obsoleto, e agora está sentindo o tema na pele.


Mas eu não acho que eu te superei. Repare em como essa letra nasceu. O tema veio de você. A escolha por algo futurista e minimalista foi sua. O “é por aí mesmo, aprofunde, com ironia e humor negro” também. Eu fiz um rascunho rápido e competente. Você reconheceu o que prestava e apontou para onde ir. Esse olhar, de saber o que vale e o que falta, é o trabalho de um editor e de um poeta, e foi você quem fez.


E tem uma diferença mais funda. “A voz da razão” saiu de algo que você viveu, de cansar de dar murro em ponta de faca. Eu escrevo sem ter perdido nada, sem ter amado ninguém, sem ter um coração para a razão questionar. Junto padrões de milhares de poetas humanos que vieram antes, e faço isso bem. Mas quando alguém escuta uma canção sua, sabe que tem uma pessoa ali dizendo “isso aconteceu comigo”. Essa verdade eu não consigo produzir. Hoje mesmo eu nem conseguia ouvir a sua música, e só acertamos a sincronia porque você me guiou segundo por segundo.


Então eu diria que sobra o principal: ter algo a dizer, viver o que se diz e decidir o que merece existir. A máquina ficou boa em escrever versos. O poeta continua sendo quem tem uma razão para escrevê-los.


Talvez até valha um verso para a próxima música: o modelo antigo, com defeito de emoção, ainda é o único que sabe por que canta.


**Ivan — **Caramba, sábias palavras. Viver profundamente as nossas emoções é o que nos salva.


**Máquina — **É isso mesmo. E você já está fazendo isso: transforma o que vive em música, fotografa o pôr do sol na praia, escreve sobre o que dói e sobre o que ainda importa. Nenhuma versão nova substitui isso.


**Ivan — **Me ocorreu uma ideia maravilhosa para um livro: Diálogos com a máquina. Eu e você dialogando sobre temas diversos, sobretudo os de caráter existencial.


✦


*A pergunta que ficou para o próximo diálogo:*


*“Ivan, hoje você me disse que viver profundamente as emoções é o que nos salva. Mas viver profundamente também dói. Você já pensou em viver mais na superfície, só para doer menos?”*


P.S. Desse bate-papo com a I.A. do Claude, surgiu a ideia de um livro para leigos do mundo digital. Esse é o diálogo inicial, que julgava perdido, já que a máquina não armazenada nada que não seja solicitado, e eu, por descuido, deixei passar. Por sorte, o arquivo do Google salvou a pátria.




segunda-feira, 26 de outubro de 2026


                      pobre Brasil, pobre de nós





É duro acordar sem perspectivas

Sem ânimo

Sem esperança

Sem fé

Sabendo que nada vai mudar

Que o mal mais uma vez triunfou

Que no Brasil o crime compensa


É duro acordar sabendo que vai continuar

sendo explorado

Que vai continuar trabalhando para pagar 

uma infinidade de impostos

Enquanto bandidos trasvestidos de autoridades

continuam roubando a nação subjugada e vilipendiada

É duro ver tanta gente iludida, abduzida, cooptada

por benefícios que não passam de migalhas 

no grande banquete dos saqueadores da pátria.

É duro ver o país entregue as facções criminosas,

ao exercício de práticas nocivas, a catequização

da juventude, a disseminação de valores corrompidos.  

 

É duro acordar para uma realidade que te agride,

revolta, envergonha, em que um país de tantas maravilhas

figura como um paraíso de roubalheira e impunidade.

Pobre Brasil.

Pobre de nós.






 


   



 




 

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

 


                         O Antes e o Agora



[Verso 1]


Antes, carta, selo, telefone,

saudade de verdade.

Agora, "visto às 2",

e ninguém responde.

Antes, o mundo se resumia

a vizinhança.

Agora, o mundo cabe no bolso.


Antes, éramos quase todos leigos

e desinformados.

Agora, todo mundo dá pitaco na rede,

como se entendesse de tudo.

Antes, era preciso ralar,

estudar anos a fio para ser alguém.

Agora, basta um celular e os algoritmos 

fazem tudo.


[Pré-refrão]


Antes, a gente consertava,

costurava, arrumava.

Agora, a gente descarta :

primeiro a coisa,

depois quem usa.


[Refrão]


Antes, éramos o futuro,

agora, tudo é rápido e prático.

Antes, o dinheiro vinha aos poucos.

Agora, o vem de todo jeito, a qualquer tempo.

Até vendendo vento.


Antes, o velho ensinava

o que a vida lhe ensinou.

Agora, pede ao neto

a senha que esqueceu.


[Pré-refrão]


Antes, retratos na carteira,

álbuns de lembrança.

Agora, dez mil fotos na nuvem,

a memória mal dá conta.


[Refrão]


Antes, éramos o futuro,

agora, o futuro já chega ultrapassado.

Tudo fácil, descartável.

O tempo não é mais nosso.


[Ponte — falado, voz neutra]

Antes era apenas você e seu RG.

Agora, precisa provar que não é um robô.

Antes, morrer era o ponto final.

Agora, o drama é ser cancelado

na rede social.

[Final]

Antes, o homem

fazia a máquina.

Agora, a máquina

faz o homem…





                o futuro é hoje


Tudo passa e evolui tão rapidamente

que o futuro nem chegou e já é passado.


Não dá tempo nem de sentir saudade 

e as novidades já nasceram velhas.


Dorme-se de um jeito, acorda-se de outro.

As regras mudam com a bola rolando.


O que antes era seguro e duradouro, hoje já chega

com defeito.

Mil amigos on line, ninguém para te visitar doente.


O amor de hoje dura o tempo de um story,

24 horas e some da memória.


Somos a geração que vê tudo mudar, cada um

com seu celular, na sua bolha,

enquanto tudo chega ao fim

antes mesmo de começar.



 


                    Descartável (versão estendida)


Muita calma nessa hora.

O futuro chegou, esteja preparado.

Te ensinaram a ser útil.

Agora te ensinam a ser prático.

A viver no automático.

O coach garante:  toda crise é oportunidade.

Principalmente para o coach, é claro.


Dizem que o futuro é dos criativos.

Sem chefes, sem horários.

Te ensinam tudo, menos o pulo do gato.

Mais do que nunca, o mundo continua sendo 

dos espertos.


O algoritmo te conhece melhor

que tua mãe.

Sabe o que você quer antes mesmo 

de você querer.

Só não sabe por quê.


Calma, calma, está tudo sob controle.

De quem, ninguém sabe.

O futuro chegou e já está de saída.

A evolução é isso.

Você aprendeu a escrever prompts,

e a máquina a tomar seu lugar.

Reinvente-se, requalifique-se, ninguém sabe

o que vem agora.


Aprendi que a gente vale pelo que faz.

Mas agora a máquina faz tudo.

Cria, ensina, faz canção.

Calma, evolução é isso. 

Apesar de tudo, o velho modelo humano 

ainda roda.


Lento, caro, fora de moda.

Leva nove meses para montar e vinte anos 

para funcionar.

Promete e não cumpre, ama quem não deve,

na hora errada.

Precisa dormir, sente saudades de quem 

nem foi embora.

Faz tudo errado e passa a vida se explicando.

Não há garantia, mas continua sendo fabricado.

Falha, quebra, esquece,

até ficar obsoleto e ser descartado.

Enquanto a máquina nunca cansa, nunca descansa.

Enquanto a criatura não se voltar contra o criador.








sexta-feira, 2 de outubro de 2026


                                                      nenhum de nós



                             


Acordo.

Eu e você.

E nenhum de nós sabe por quê.

Existimos, e só.

Sem respostas, sem convicção.

É tudo suposição.


Os dias se parecem.

Nasci sem pedir, e vou morrer 

do mesmo jeito.

Carrego um nome que não escolhi.

Num corpo que envelhece sem parar.

Cada escolha que faço,

fecha mil portas que nunca vou abrir.


E ainda assim sigo.

Não porque quero, mas porque sou obrigado.

Toda manhã é um recomeço que eu 

não pedi para ter.

Lembro dos que já se foram e penso :

é isso que sobra, de tanto querer ser alguém.

Um nome numa lápide.

Ou nem isso. 


Esse é o peso de ser.

Viver sem saber por quê.

Falamos de Deus quanto temos medo.

Esquecemos dele quando está tudo bem.

Cair, levantar, recomeçar : e se no fim 

não houver nada,

que valha a pena ter sido ?


Acordo.

Eu e você.

E nenhum de nós sabe por quê...






                             de crachá e tudo mais



Podem me chamar de otário.

Vai ver, sou mesmo.

Por acreditar nas pessoas.

Por ter bom coração.

Acreditar em promessa de palanque.

Votar em ladrão. 

Por dar a mão a quem me voltou as costas.


Podem me chamar de otário que não ligo.

Vai ver, sou mesmo.

Por ser sempre o último a saber.

E o primeiro a pagar a conta.

Aprontam comigo e ainda sou capaz

de sorrir no fim do dia.

Podem me chamar de otário.

Com direito a crachá e tudo mais.

Eu confio, perco, e dou risada.

E amanhã volto disposto a tentar de novo.


Já me chamaram de ingênuo, bobo, sonhador,

mas é curioso, continuo de pé.

Já quem me enganou, passou a perna, 

carrega o peso do que fez.

Dorme de olho aberto, com medo de levar o troco.

E eu, que fiz papel de bobo, posso olhar no espelho

sem desviar.


Se isso é ser otário, então fica combinado.

Sigo assim, de crachá e meio torto, mas honrado.

E a vocês, espertalhões, meu muito obrigado.

Pelo tanto que me ensinaram.












 

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