domingo, 22 de setembro de 2019
bukowski & quintana
O gorjeio do melro de minha noite
Depois que é o corpo arremessado sobre o cais
do sono
Quem poderá dizer o que é feito de sua alma milenária ?
Por entre respiração de pechblenda
Acaso
Ajunta-se às demais no primitivo abandono do mundo.
E que os condados aumentem seus impostos
Acossada em grutas, em profundas florestas
E o lenhador sinta coceiras em seu sono
Onde se desenrolam imensamente as serpentes
Gorjeio do merlo de minha noite
Arde em silenciosa brasa o olhar fixo das feras
E que os exércitos se vistam para dançar
Nas ruas, e garotinhas
Beijem as frutas que enchem suas barrigas
Ou prostam-se ante os deuses bárbaros
Com seus látegos de raios
Gorjeios do merlo da minha noite
A seus pés de pedra imóveis e pesados como montanhas
Esgote os seus verões em grunhidos e gemidos
Belisque os caules dos lírios quando
O coração do câncer queimar o amor
Ah, leva então muitos e muitos séculos até que a madrugada
Feita do cricrilar dos derradeiros grilos
O gorjeio do merlo na minha noite
Gorjeio na nota
Das cabeleiras úmidas e pendidas dos salsos
Meu país é alto para cair
A ferrugem dos dias
De Moscou a Nova York
Até que a mão da madrugada afague
Acrescenta um terror de horas
Mas não reclamo
Suavemente as feições do adormecido
à deriva
Os dez mil beijos
Ou os paus e as pedras
Ou Roma quebrada
Sim ! À noite, as almas deste mundo
Vagam em alcateias como lobos
Mas espero a sua nota
O medo as traz unidas e ferozes
E só uma ou outra - a minha ? - as vezes solitária, fica...
Meus dedos arranham
A mesa iluminada do sol
- Olha ! Aquele negro, aquele enorme cão
Uivando para a lua.
Pense em dois estilos antagônicos, duas visões distintas de realidades díspares, um cru e lacônico, o outro lírico e contemplativo, aparentemente tão diferentes e incompatíveis quanto água e azeite.
Pois assim é a poesia de Charles Bukowski e Mario Quintana, o primeiro como se escrevesse com uma pedra na mão, e o outro, com uma flor. Mas em se tratando de poetas de primeira grandeza, e entre os meus favoritos, só de brincadeira intercalei os versos de dois de seus poemas mais conhecidos - Gorjeio No e Alma Perdida - e não é, ambos meio que se locupletam ?
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