NÃO CELEBRO O ANO. CELEBRO A VIDA.
Não dou importância nenhuma à passagem de um ano para o outro, não porque desvalorize o tempo, mas porque o respeito demasiado para o reduzir a um ritual arbitrário, decidido por convenção, iluminado por fogo-de-artifício e anestesiado por promessas que raramente sobrevivem ao inverno. A vida não muda porque um número muda; muda porque um dia acordámos cansados de fingir, porque o corpo disse “basta”, porque uma perda nos atravessou, porque uma verdade deixou de aceitar mais adiamentos. Eu não celebro datas, mas a presença. Celebro os dias em que acordo inteiro, os dias em que não traio o que sinto, os dias em que não preciso de provar nada a ninguém, nem a mim. A vida acontece todos os dias ou não acontece nunca. Não espera pela meia-noite. Não pede contagem decrescente. Não respeita brindes nem resoluções. Há dias em que sobrevivo. Há dias em que respiro fundo. Há dias em que amo o silêncio. Há dias em que a dor passa por mim sem se instalar. E isso, para mim, já é celebração suficiente. Comemorar a vida uma vez por ano parece-me pouco. Prefiro honrá-la nos gestos pequenos, nos limites que mantenho, nas escolhas que não faço, na coragem de não repetir histórias que já não me pertencem. Não faço votos para o ano novo. Faço compromissos diários comigo. E isso é muito mais exigente. Se há algo que celebro, é estar vivo agora, sem precisar que o calendário me autorize a sentir, a mudar, a parar ou a recomeçar. A vida não começa em janeiro. A vida começa sempre que estamos verdadeiramente aqui. E isso, eu celebro todos os dias.
José Micard Teixeira
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