sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

 


               o amor que me mudou



Mudei por amor. E não falo da mudança bonita, publicável, que fica bem em frases curtas. Falo da mudança que dói, da que desmonta, da que tira o chão antes de me dar outro qualquer, da que não pede licença e não pergunta se é conveniente. Mudei porque amar alguém de verdade não cabia em quem eu era, não cabia nos meus automatismos, nas minhas defesas, nos meus atalhos. A verdade é que o amor não negociou com as minhas desculpas, não se acomodou às minhas feridas, não se moldou às minhas fugas. Ficou. E ao ficar, expôs tudo o que em mim não era inteiro. 

Efetivamente, mudei porque percebi que não podia amar e continuar a proteger-me da mesma forma, que não dava para tocar em alguém e manter intactas as minhas muralhas, que não podia prometer presença e continuar a desaparecer por dentro. O amor não me pediu para ser melhor. Obrigou-me a ser verdadeiro. E isso é muito mais exigente, porque houve partes de mim que resistiram, partes que queriam ficar como estavam, partes que gritavam que eu estava a perder a minha identidade. 

Mas eu não estava a perder, mas a largar versões minhas que já não serviam, que só existiam para sobreviver e não para amar. Mudei porque amar alguém de verdade desloca as prioridades, muda o eixo, reorganiza o centro, deixa de ser sobre ganhar, provar, controlar, e passa a ser sobre não ferir, não fugir, não mentir. E isso mexe em tudo. No corpo. No ritmo. Na forma como se responde. Na forma como se fica. 

Com efeito, o amor não me transformou num herói. Tornou-me vulnerável. E esta foi provavelmente a maior mudança, porque tudo em mim tinha sido treinado para aguentar, não para proteger. Para sustentar, não para pedir. Para estar forte, não para estar aberto. Amar ensinou-me a falhar sem desaparecer, a tremer sem fugir, a ficar mesmo quando sentia uma enorme vontade de partir. 

Mudei porque o amor não aceita versões parciais, não aceita nenhuma presença pela metade, não aceita uma alma em fuga. O amor exige inteireza, e a inteireza cobra caro. Cobra escolhas. Cobra cortes. Cobra silêncios. Cobra a coragem de deixar cair quem se é para dar espaço a quem se pode ser. 

Não mudei para merecer amor. Mudei porque o amor mostrou-me que eu podia ser ainda mais verdadeiro do que tinha sido até ali. E eu aceitei. Simples assim.


José Micard Teixeira


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