quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

 


                             carência não é amor


Há uma confusão silenciosa, porém devastadora, que atravessa a experiência afetiva humana, a tendência a chamar de amor aquilo que, em essência, é apenas necessidade. Amar e precisar não são sinônimos, embora frequentemente se apresentem com a mesma linguagem, os mesmos gestos e até as mesmas lágrimas. O problema é que a carência sabe imitar o amor com perfeição suficiente para enganar até os mais atentos.


A carência nasce de uma falta interna não elaborada. Ela não busca o outro como alteridade, mas como remendo. Não deseja o encontro, deseja o alívio. Quando alguém ama por carência, não se dirige ao outro, dirige-se ao próprio vazio, esperando que o outro o preencha. O amado torna-se função, instrumento, suporte emocional, quase um objeto terapêutico improvisado. Não é visto como é, mas como aquilo que pode oferecer.


O amor, ao contrário, pressupõe inteireza relativa. Não perfeição, mas consciência da própria incompletude. Quem ama não exige que o outro salve, cure ou complete, aceita que o outro acompanhe. O amor verdadeiro nasce quando o eu já não está em estado de desespero, quando a presença do outro é desejada, não necessária para sobreviver. Amar é escolher, precisar é agarrar-se.


Psicologicamente, a carência é ansiosa e possessiva. Ela teme a ausência porque não sabe sustentar o silêncio interior. Por isso confunde intensidade com profundidade, dependência com vínculo, controle com cuidado. Quanto mais frágil o eu, mais absolutiza o outro. E quanto mais absolutiza, mais sufoca. O amor, por sua vez, tolera a distância, respeita a autonomia e não transforma o afeto em contrato de sobrevivência.


Há também um traço ético nessa distinção. Amar alguém implica reconhecê-lo como fim em si mesmo. Precisar de alguém, quando não elaborado, tende a reduzi-lo a meio. A carência não pergunta “quem você é?”, pergunta “o que você pode fazer por mim?”. Por isso tantas relações adoecem, não por falta de sentimento, mas por excesso de expectativa.


Confundir carência com amor é perigoso porque produz vínculos frágeis, embora intensos. São relações inflamadas, mas pouco luminosas. Quando o outro falha, se afasta ou simplesmente se mostra humano, a estrutura desmorona, pois não era amor que sustentava o laço, era a urgência.


Filtrar o humano, aqui, é aprender a suportar a própria solidão sem transformá-la em chantagem afetiva. É compreender que o amor não nasce da escassez desesperada, mas da capacidade de estar consigo sem horror. Só quem não precisa desesperadamente pode amar de fato. O resto é pedido de socorro disfarçado de paixão.


Oliver Harden

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

              a mulher séria Enquanto você estiver namorando com ela, sempre haverá homens por perto. Bajulação, tentativas, mensagens, olha...