sexta-feira, 18 de janeiro de 2019




                       PENSATAS




Todos tem qualidades e defeitos. Virtudes e fraquezas. O problema é que a maioria não assume os podres.

O rico que tem apego demais ao dinheiro e não pratica a benemerência pode ser respeitado, mas nunca será amado.

O pedinte que faz da pobreza um pretexto para se fazer de coitadinho, não é pobre à toa.

O mundo deixou de ser confiável quando honestidade passou de obrigação à virtude.

A mulher que finge amar para manter as aparências e regalias não é melhor do que uma meretriz, que também é paga para fingir. Com a diferença de que a gente sabe.




                             musas




A musa só veste roupa de grife,

está sempre arrumada, pintada, 
as unhas impecáveis,
cabelos de todos os tipos, de todas as cores.
A musa está sempre com o Iphone
à tira-colo, para uma selfie
uma olhadela nas redes sociais.

São lindas, as musas, com suas caras e bocas.
Celebridades que fascinam, ocas de tudo.
Ganhar a vida não é problema para elas,
sempre há um patrocinador,
um otário para bancar as despesas.

E eu que sou do tempo 
em que as musas não eram apenas belas,
mas envoltas em apelos e mistérios,
inspirando canções e versos imortais, 
me pergunto, 
se ainda há algo que não tenha se convertido
à vulgaridade dos tempos atuais. 







quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

                     

                    fere a alma o grito-punhal




Num átimo percebi o que o Corvo quis dizer,
quando disse - nunca mais, nunca mais !
No negrume da noite vazia, no limiar da perda irreparável,
cujo propósito desponta apenas ao cumprir-se,
a visão insólita - anjo ou demônio em forma de ave preta. 
Das trevas emerge o juízo essencial e exato  : siga em frente, 
tarde se faz.
O bordão da desesperança não carece mais entoar.

Nada faz sentido, e tudo faz sentido.
Até o pássaro negro e agourento de Poe, expressão 
legítima de pesar.
Morte de toda uma vida, que era a vida que se tinha.
Bem-vivida e desperdiçada, cujo santuário diviso 
sobre o promontório dos dias ocos que se sucedem.
Horas plúmbeas que precedem o torvelinho do naufrágio.
O coro perpétuo do teu altruísmo, renúncia de si mesmo.

Adiante, em meus umbrais ninguém bate,
ninguém sussurra - nunca mais, nunca mais...
Hipóteses e conjecturas já não cabem, esgotado 
o tempo de libações.
Teu veredicto é fatal. Morte. Morte em vida.
Lancem-se à fogueira inquisitória todos os resquícios 
dos prazeres e pecados.
A alma liberta assim o exige. Culpa e expiação.
Para teu bem-estar, declaro-me culpado.
Aqui, passado e futuro se separaram. O presente 
é a terra prometida.
A mercê de forças desconhecidas, nós, ctônicos, livraremos 
a vida do jugo do tempo desperdiçado .
Fere a alma o grito-punhal :
- nunca mais, nunca mais !

Que o nostálgico pesar nos faça companhia.
Dias alciônicos serão o marco-zero de um novo rumo.
Não poderemos pensar "o passado passou", alheios
ao iracundo amor gestado 
como um grito de júbilo sobre a morte.
Quiçá ungido dessa impermanência que ultrapassa o tempo.
A súbita iluminação revivida, ao saber 
que os momentos de agonia acabaram.
Xô, Corvo, vá atazanar outro pobre diabo !
Ao sagrado fundamento que ora abjuramos, regressa.
A seu real proprietário -  a juventude perdida - bata à porta.
Enquanto apresto-me rumo à redenção, escavando 
as trilhas da penitência.
Ausente todo pesadume do passado
ao grasnar da ave estúpida :
- Nunca mais, nunca mais!


quarta-feira, 16 de janeiro de 2019



o que só tua vias


em ti 
eu via
o que eu não sou
o que eu tinha de melhor
o que estava além de mim
e que só tu sentias


um dia
quem diria ?
coube a ti
a tardia despedida 

vai ver
porque o que eu sou
e só tu vias
não existia
era uma fria.










           AQUILO

( à moda Paulo Leminski )

Isso de querer ser aquilo que não é,
está aquém do que é. 


aforismos revistos :


quem espera, sempre dança.









terça-feira, 15 de janeiro de 2019




                              volteios





A vigília é permanente. Nada escapa ao escrutínio,  a bisbilhotice alheia. Ninguém está a salvo de nada. Indiferente a tudo - bom senso, escrúpulos, comedimento - a histeria consumista impera. Há sempre algum bostinha famoso dizendo o que se deve ou não deve comprar, consumir. Com a autoridade de qualquer prostituta que dá para qualquer um por dinheiro.
A enganação é a ordem do dia. Enganar, mentir, trapacear, 
o esporte mundial por excelência. O slogan do século sequer é original : me engana que eu gosto. O vigarista te engana. O amigo te engana. Os colegas, o chefe, a namorada, a mulher...

A mídia te faz de otário o tempo todo. O banco fica com teu dinheiro, repassa a peso de ouro, e de quebra te presta um serviço de merda, com suas agências cada vez mais cheias e funcionários de menos. "O que a gente pode fazer por você hoje", tem a coragem de indagar um deles, e eu digo sem titubear : por mim, ir a PQP e parar de explorar a gente.Nesta ordem mesmo.

Ia falar do governo mas deixa pra lá. Voto de confiança aos novos governantes. O derradeiro. Se esta turma não consertar o país, o último que apague a luz.

Vivemos tempos estranhos. Todo mundo se conhece e se desconhece. O que se é por dentro é um assombro. Melhor ninguém saber. Mas como resistir aos apelos da era digital ? De exposição explícita e despudorada. O mundo se desnuda na maior cara dura. A Inquisição faria a festa ! Cadê o anjo exterminador de Sodoma e Gomorra ? Deus desistiu de nós. Também pudera, depois da barbárie medieval, o horror das duas grandes guerras mundiais, o holocausto, como perdoar ? 
Quantos Cristos teriam que morrer para perdoar tanta atrocidade ? 
Quantos Cristos não morrem todos os dias, para salvar inocentes, cordeiros do mundo ? 

Só loucos para ver poesia nesse mundo louco. Lunáticos metidos a entender a alma humana, a decifrar a beleza, o significado oculto das coisas. Poetas eruditos, herméticos, presunçosos, magnificamente ilegíveis. Uns chatos.  
Por que calcinar, ao invés de queimar ?
Por que olvidar, e não simplesmente esquecer ?
Fado, fulva, sovegna, ajaezados versos, o real e o fantástico mesclados com os imperativos de "ser e parecer". 
Ah, a pena de existir e a papoula dos sonhos. 
Ah, malditos metidos a nos humilhar com sua esmagadora cultura e erudição pernóstica. Escrever com a Encyclopaedia Britannica no colo.Volteios pela História, castelos no ar, enredos mirabolantes, que loucos ... Os deuses do Olimpo sequer existiram. Heroísmo, estoicismo, grandeza, tudo ficção. Na vida real, o buraco é mais embaixo. Sempre foi. Não há deuses, crenças que nos salvem. Salvação do quê ? Do fogo dos infernos, se o inferno é aqui ? 





    



  

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