quinta-feira, 7 de março de 2019


                       ana lua  




 
ana
misteriosa
daí
talvez
lua.
    lua dos namorado
    lua das marés
    de idas e vinda
    fluxo e refluxo
    ora brilha
    ora se esconde
    no lago
    e no charco 
    bruxuleia
    sem saber
    o que fazer da vida.

Ana 
solitária
daí
talvez
lua
sem luz própria
daí
talvez
Triste

    misteriosa
    solitária
    fria 

Ana
deixa de ser lua
deixa o sol
entrar na tua vida.










quarta-feira, 6 de março de 2019


                SOBRE COBRANÇAS



Quem mais cobra normalmente é quem mais tem à pagar.

Quem gosta cobra e retribui. Quem não gosta, só cobra.

É chato ser cobrado. Mas pior é não ser cobrado.

Cobrar, todo mundo cobra. Dar o exemplo é que são elas.

Cobranças são normais, enquanto razoáveis. Cobranças descabidas acabam com qualquer clima.

Quem empresta é a melhor pessoa do mundo. Até o dia em que for cobrar.

Cobrar dívidas é um direito. Cobrar favores é no mínimo uma indelicadeza. Para não dizer uma torpeza.

Amor sem cobranças não é amor. Não importa se explícitas ou implícitas. 

O maior sintoma de que amor acabou é quando as cobranças se transformam em acusações.



















terça-feira, 5 de março de 2019




ela era tão especial que, quando deixou de ser, 

(meu) mundo ficou irremediavelmente vazio.






                  SOBRE  INTELIGÊNCIA




O grande problema das pessoas que se acham muito inteligentes é que, geralmente, só elas acham.

As pessoas verdadeiramente inteligentes não carecem de vangloriar-se. São, e pronto. 

A inteligência é um dom aprimorado pela capacitação, e referendado pelo discernimento.

Ser inteligente não nos faz superior a ninguém. Às vezes até nos diminui, quando subestimamos os outros.

Mantenha distância de quem alardeia a própria inteligência. Quase sempre é uma fraude.

Não confunda inteligência com erudição. Uma ganha-se. A outra, adquire-se.

Inteligência, assim como a beleza, é um negócio tão relativo que às vezes não traz benefício nenhum ao portador.  


Ninguém é tão inteligente que não cometa erros. Admiti-los, isto sim, é sinal de inteligência.


    



                   O fim do amor


não, não é o fim do amor que mais dói.
o fim do amor nem se sente.
Pois morre aos poucos.
Quando se vê, já era.

chega aos poucos, sorrateiro,
o fim do amor.
de inanição, decepção, murcha.
quando se vê,
não se sente mais nada.

não, o fim do amor não dói.
definha, por falta de cuidado,
falhas de caráter.
como uma planta boa
que em terra ruim não vinga.

sofrido, dolorido, 
é descobrir que se amava
alguém que não existia.
que se vivia uma farsa.
que um dia, abruptamente,
se descortina.
sem poesia,
sem magia, 
sem fantasia.
             











                                     coerência

 





Não me cobrem coerência.
Não me peçam comedimento, equilíbrio.
Não esperem de mim o que não posso dar.
Sou o que sou. 
Incoerente, instável, impulsivo, e outros bichos mais.
Só não finjo. Não disfarço. 
Não finjo que não é dor 
a dor que deverasmente sinto.

Não me arvoro em dono da verdade.
Sequer dono da minha verdade sou.
Que muda ao sabor dos sentimentos.
Das mágoas, remorsos, desilusões.
Não choro a mocidade perdida, posto que bem vivida,
mas os sonhos abortados,
os amores fracassados. 
Feridas que não cicatrizam.
O tempo fluiu sem dor, 
até a evasão de tudo que fazia 
a vida valer a pena.

Não, não me cobrem coerência,
comedimento, 
agora que tudo é apenas um eco,
e o próprio amor se desconhece e maltrata.
Aspirando o fel e a indiferença daquela que tão bem soube
disfarçar o seu desamor.
A rosa do amor despetalou-se, na memória todavia permanece
o que os olhos não viam.
Em meus versos engastados na desrazão 
dos sentidos mutilados,
as angústias sofreadas ardem no estridor de coisas novas.

Bem sei que o findar do meu tempo se aproxima.
Maduramente, repenso meus atos,
e um desejo de ser mais do que sou emerge 
em meio ao sofrimento seco,
já sem lágrimas e lamentos.
Esgotada a vontade de amar, esgotou-se tudo. 

Ironicamente, 
nunca estive tão lúcido.
Porque não são mais os sonhos que me guiam.
Soam vãos meus versos epicuristas. 
Giram, a tangenciar a razão.
Compreender deixou de importar. 
Pois tudo é enganoso nesse mundo confuso.
Da imperfeição da vida, 
nasce o ideal de um viver doce e fluído,
em que só o que faz sentido
é o desconhecimento das coisas e de si próprio.


  















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