domingo, 24 de março de 2019



                        REFÚGIO




Vivemos, envelhecemos, adoecemos
a qualquer tempo, 
a qualquer momento tudo muda.
Nada temos, a não ser a ilusão de termos.
O amor nada mais é do que a inconsciência 
de que nada nos pertence.
O amor no desamor se esgota. 
Resiste o tempo de ao outro conhecermos, 
de nos mostrarmos tal qual somos. 
Dizer "eu te amo" e não demonstrar com ações, 
honestidade de propósitos, 
o amor corrói, o fim apressa. 
A imaginação nos trai.
Os pensamentos conspiram. Nada nos satisfaz.
Até perdemos aquilo que não nos bastava : tudo.
Como Fausto, 
vendemos a alma ao diabo para saber.

Vendi a minha à troco de nada.
Onde me encontro é onde não queria estar.
Vida vulgar, vida sem nexo, 
sem ter para onde ir, para onde fugir.
Quero voltar mas não tenho para onde voltar.
Todas as portas se fecharam.
A impossibilidade de um novo existir me subjuga.
Não me concebo mais amando. 
Ferido, acuado, vejo o tempo passar 
como o caçador espera a caça - a morte.
A morte, o caçador.
Eu, a caça.
Haverá refúgio para mim ?











                      VERDADES







O que escrevo, sinto-o de verdade.
O que não significa 
que o que escrevo é verdade.
Pode ser como pode não ser.
Depende do momento.
Depende de como me sinto.
Cada dia com suas verdades,
cada dia com pensamentos diferentes.

O que eu sinto é muito conflitante,
um querer e não querer que não se sustenta,
baseado na certeza de nada.
Baseado em falsas premissas,
em coisas enganosas, em mentiras, trapaças
inimagináveis.
Como ter certeza de alguma coisa, sem poder 
acreditar em ninguém, em nada ?

O que escrevo, sinto-o de verdade, são as
minhas verdades.
Infelizmente precárias, 
sujeitas a reparos, às vezes ferinas, 
quase sempre recalcitrantes. 
De qualquer forma, cumprem sua função.
Escrevo para mim mesmo, 
ainda que inspirado em outras pessoas, 
evocando coisas mal-resolvidas
que me infernizam a vida.

São desabafos e libelos sinceros, mas
que não servem para nada.
Pois não mudam nada.
Ao contrário, incomodam, ferem.
Mais prejudicam do que me ajudam.
na medida em que me exponho, 
especulo, tateio no escuro.
Deixam entrever o que há de pior em mim.
Quem precisa de inimigos quando seu maior
inimigo é você próprio ?

Alguém que se auto-sabota.
Queima pontes.
Põe fogo nas vestes.
Se imola, se isola, 
um caso perdido.
Não obstante, 
escrever é só o que me faz sentido.
O que me mantém vivo.












sábado, 23 de março de 2019









 



O AMOR QUEBRA








Matar o amor é muito fácil.
Tão simples que nem sentimos.
Eis o problema.

Matamos o amor todos os dias
Falando, fazendo, deixando de fazer.
Tudo ajuda a matar o amor.

O erro está em negligenciar o amor.
Achar que tudo aguenta, tudo suporta.
Sim, até aguenta, suporta,
mas só por um determinado tempo. 
Sem manutenção, sem cuidado, 
como um carro, quebra. 
Te deixa na mão.
Vê se aprende a lição.





sexta-feira, 22 de março de 2019





                        O ESPELHO





O espelho reflete o que teimamos em não ver.
O que não queremos aceitar.
Tentamos inutilmente negar.
Marcas do tempo, rugas, imperfeições que
nos incomodam, 
que fazemos de tudo para disfarçar.
O tempo é implacável, o espelho é cruel.
Um jogo perdido.
Melhor com ele fazer as pazes.
  
                      
                             FERIDAS





Não sofra, não se martirize 
com o que não pode resolver.
Com pessoas que não valem a pena.
Que não te querem por perto.

Não se sinta responsável por tudo. 
Não é justo assumir culpas reais 
e de quebra, as que lhe imputam.
Ninguém erra sozinho, ninguém tem 
o monopólio da verdade.

O que está feito, está feito, não tem jeito. 
Curar as feridas, dar tempo ao tempo.
Eis o que deve ser feito. 




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