sábado, 14 de novembro de 2020


                                         o mar de Ulisses






Quem me dirá o que é certo ou errado ?

O que devo ou não devo fazer,

argumentos que me justifiquem perante os outros ?

A um só tempo, compreensivo e indulgente.

Sensatamente, em meio à selva de interesses 

e mistificações ?

Ora, ao amor defenestrado impõem-se às misérias 

de cada dia.

A sabedoria que há na falta de respostas 

me redime.

No mar de Ulisses me perdi.

Esse incessante mar que no diário exercício da vida

sabota os esforços, destrói os sonhos,

sulca a areia infinita. 

Alheio a nossa vontade.







                        tempestades





Depois que as tempestades passam,

a vida sempre se refaz.

Às vezes para melhor.

Às vezes precisa alguém te dar a mão,

te levantar do chão,

te chamar à razão.


Sozinho é sempre mais difícil,

deixar-se assim,

derivar a vida.

Esquecer as mágoas vãs.

As expectativas descabidas.

Deixar para trás o que não pode ser mudado.

Laços desfeitos,

tudo que amamos.

Amor que ao deixar de existir,

vê-se sem méritos, atrativos.

Como a flor e o fruto abruptamente

arrancados pela 

tempestade.

 

  




















 

sexta-feira, 13 de novembro de 2020


                                    a nova realidade



 


Viver não é mais preciso.

Séculos de História reduzido à fábulas.

Basta simular, projetar, fantasiar sob estímulos alheios.

Amamos, copulamos, matamos e morremos

sem sair de casa, 

no âmbito de uma telinha mágica. 

O próximo passo - a inteligência artificial -

recriará o Genesis. 

O homem como deveria ter sido.

Sem a tutela de Deus.

Cuja invenção nunca deu certo.

Nem do homem, nem de Deus.













     









quinta-feira, 12 de novembro de 2020




                                        polifonia





Tanta exuberância, tanta abundância, tanta

diversidade, 

e o planeta não existiria sem o labor

anônimo da minúscula abelha. 


Tanta prosápia, tanta bazófia, tanta jactância,

e o homem não é capaz de conviver

em paz e harmonia.


Tanto querer, tanto empenho, tanta devoção,

e nem assim o amor 

resiste as armadilhas do tempo.


 

terça-feira, 10 de novembro de 2020



                             vida bizarra





Sou apenas um homem só 

"que sonha que alguém o sonha".

Sei que para ti sou apenas um eco,

alguém que deixou de ter qualquer mérito ou

atenuante.

No entanto, folgo em constatar, 

nem todos pensam assim.

Ah, vida bizarra, em que são os estranhos 

que te dão mais valor.

Se essa é a lei da vida, não sei.

Só sei que aos olhos de quem mais amei,

um inimigo me tornei.  







 




 



 




 


 

segunda-feira, 9 de novembro de 2020



"Por que açoitas essa pobre rameira ?

Vira contra ti próprio essa chibata.

Estás ardendo de desejo de com ela

realizar o ato de que a castigas."


(Shakespeare/ rei Lear/ato IV/cena V) 





domingo, 8 de novembro de 2020

                           

                                           outros olhos





O que vês em mim, que tanto te espanta ?

O que vês agora, que já não vias antes ?

Talvez com outros olhos.


Não, não fui eu que mudei.

Sou o mesmo que conhecestes, de longa data.

Fraco, falho, promíscuo ( como dizes ).

Tu que mudaste.

Tu que abriste os olhos

para o que antes não vias.

Para aquilo que o amor escamoteava,

não te deixava ver.





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