sábado, 25 de fevereiro de 2023


                                        

                    carapaça luminosa




                                                                             

Estou aqui e não estou.

O que fiz da minha vida constela-me de estrelas

e naufrágios.

Meu coração cabotino foi um mau conselheiro.

Vereda aberta em que a frágil beleza do amor se emporcalhou.

Não obstante os infatigáveis sonhos, colheitas e frutos

o austero mundo consumiu, 

concomitantemente aos espaços corrompidos, enfim e no fim, 

de alguma forma redimidos.

Sigo sem saber para quê e para onde vou,

raspando a memória da realidade oca, refugo da minha história.

Desço aos arrabaldes da existência beirando os detritos

que me mantém vivo. 

O amor consignado ao vil preço das barganhas sexuais,

recusa a capitulação nada honrosa. Padeço mas já não sofro.

A luta perdida partilha o pão dos desejos gregários.

Dessa vez sem receios e remorsos vãos.

Estou só. A ninguém devo satisfações.

Apesar da erosão do tempo e da fadiga, a carapaça luminosa

de meu ser

ainda faz a vida valer a pena. 












 



 



                      passantes



Escrevo o que me vem à cabeça.

Daí tanta bobagem

Longe de mim ser original.


                     Não receio te perder.

               Ninguém perde o que não tem.

               

Sem prosperidade a vida emperra.


              Sem Deus, a vida não faz sentido.

              Exista ele ou não.


Ninguém é feliz 

não tendo o que perder.

Eis o paradoxo. 


              A morte é uma libertação.

              No mais das vezes, indesejada.


Todo estrago 

deveria ser compensado

com afago.


             A vida passa

             sem ligar

             para os passantes.


Essas garotas de verão,

exibindo seus corpões,

no inverno

para quem se exibirão ?


             Se você caiu na lábia de algum vigarista,

             não se chateie.

             És apenas mais um para o clube.



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023



Encontrei-a, afinal.

Mas reluto em admitir.

"Confessar um amor 

pode significar perdê-lo". ( Cah Morandi) 






                   anacrônico ou cômico ?


Passou um vento rasante,

levantando a saia da mocinha.

Para alegria dos passantes.


                    Tua boca me diz uma coisa.

                     Os olhos dizem outra.

              E o coração, que é bom,

              não diz nada.



Quando penso que tudo o que eu queria

era ter você só para mim,

me dou conta de quanto sou anacrônico. 

            Ou cômico.


             Bandas já não passam.

             Mas bundas é o que não faltam.






 




              amor que vela e abandona



Desolados, nos despedimos.

Eu querendo que ela ficasse.

Ela querendo ficar.

Dentro de nós, o amor que vela e abandona

se faz de desentendido.







Assim são os segredos.

Repletos de medos.


                     Se vivo, ninguém me ouve.

              Se morto, ninguém se importa.

              Vão se ferrar !


Que importa

abrir ou não a porta

se não há ninguém 

para entrar ?








 




 

Postagem em destaque

                                            da calmaria ao tormento Cedo ou tarde, os dias de tormento chegam. E não há nada que se possa fa...