a mulher que passa
Como Vinicius, eu quero a mulher que passa.
Como todo poeta, faço versos para a mulher
que não é minha.
Como um louco, quero amar todas as mulheres do mundo.
Como um simples mortal, de tanto querer a todas,
acabo sem nenhuma.
a luta
A mudez do tempo, monumento de sonhos desfeitos,
cinzela olvidos e ledos enganos.
Acorrentado à vida, o corpo pastoreia
incontornáveis esperanças e lutas desesperadas.
Entre a luz e a treva, entre a cruz e a espada,
o acaso algema e liberta, para converter a animalidade
em humanas façanhas.
Fatigante é o exercício de viver.
Oscilando entre ferir ou ser ferido,
quase sempre algoz de si mesmo, o tormento
não tem fim.
Frente à frente com o carrasco, sem entender
a sentença, sem perceber
os limites do permitido, o homem
luta para não destruir-se à toa.
o amor possível
É possível que tu me ames.
É possível que eu te ame.
Ambos, lutando contra esse querer
que nos prende
na jaula que nos une.
Sim, é possível que nos amemos.
Mesmo sabendo que não há futuro
para esse amor feito de carência e desespero.
Que nos faz tão diferentes e tão iguais.
Sem ninguém senão nós mesmos
para cuidar um do outro.
Não é lindo e sequer tranquilo
esse amor libertino,
mas é o único possível.
A um só tempo acre e doce.
Enfermo e sem rumo.
Que vive de tudo que foi
sem nunca ter sido.
o Cristo crucificado
Sou um cego em Malta.
Um refugiado num campo de concentração da Malásia.
Um clandestino num cargueiro panamenho.
Um mercenário à serviço da Rússia na guerra da Ucrânia.
Sou um latino-americano arriscando tudo para entrar nos EUA.
Sou um negro trucidado pela polícia norte-americana.
Sou um homossexual no Islã.
Sou um doente mental,
cigano, indígena, viciado, analfabeto,
sem teto, pária, ralé.
Sou faxineiro, lixeiro, serviçal,
mão de obra escrava.
Sou bandido, venal, vendido,
traidor da pátria, infiel, mau caráter.
Sou traficante, meliante, trombadinha, MC,
magistrado, ministro da suprema corte,
político profissional, presidente...
Eu sou tudo e nada.
Sou tudo que presta e não presta.
Sou bom e mau.
Sou o sal da terra.
O pão que o diabo amassou.
Sou seu irmão.
Sou filho de Deus e discípulo do demo.
Sou o certo e o errado.
Sou o que deu certo e o que deu errado.
O cristal intocado, o muro mijado,
a ponte, o pouso, o porto de chegada e de partida.
Sou o morto esquecido, o suicida que mataram.
Sou o sangue espesso da castidade,
o braço da discórdia. A incessante covardia.
Sou o Cristo crucificado.
da calmaria ao tormento Cedo ou tarde, os dias de tormento chegam. E não há nada que se possa fa...