sábado, 22 de abril de 2023



                    a mulher que passa





Como Vinicius, eu quero a mulher que passa.


Como todo poeta, faço versos para a mulher

que não é minha.


Como um louco, quero amar todas as mulheres do mundo.


Como um simples mortal, de tanto querer a todas,

acabo sem nenhuma.



sexta-feira, 21 de abril de 2023




                 a luta



A mudez do tempo, monumento de sonhos desfeitos, 

cinzela olvidos e ledos enganos.

Acorrentado à vida, o corpo pastoreia

incontornáveis esperanças e lutas desesperadas.

Entre a luz e a treva, entre a cruz e a espada, 

o acaso algema e liberta, para converter a animalidade

em humanas façanhas.


Fatigante é o exercício de viver.

Oscilando entre ferir ou ser ferido,

quase sempre algoz de si mesmo, o tormento 

não tem fim.

Frente à frente com o carrasco, sem entender

a sentença, sem perceber 

os limites do permitido, o homem

luta para não destruir-se à toa.


 

 











 



                  o amor possível





É possível que tu me ames.

É possível que eu te ame.

Ambos, lutando contra esse querer

que nos prende

na jaula que nos une.


Sim, é possível que nos amemos.

Mesmo sabendo que não há futuro

para esse amor feito de carência e desespero.

Que nos faz tão diferentes e tão iguais.

Sem ninguém senão nós mesmos

para cuidar um do outro.


Não é lindo e sequer tranquilo

esse amor libertino,

mas é o único possível.

A um só tempo acre e doce.

Enfermo e sem rumo.

Que vive de tudo que foi

sem nunca ter sido.









  










segunda-feira, 17 de abril de 2023



                  gato escaldado





Já não canto as dores que me viraram do avesso.

Já não temo ficar sozinho, porque foi sozinho 

que me encontrei.

Já não espero mais nada que não seja factível.

Se não descrente do amor,

mais arisco do que gato escaldado.



 



Há sempre respostas.

Sendo o silêncio, o vazio,

e o nada

a resposta para tudo.


 




Está à vista de todos, mas poucos repararão

nas brancas nuvens que se desprendem do céu

e deitam-se nas encostas das montanhas,

como grandes almofadas,

enchendo de beleza a manhã radiosa

da vida contemplativa. 



sexta-feira, 14 de abril de 2023



                  o Cristo crucificado





Sou um cego em Malta.

Um refugiado num campo de concentração da Malásia.

Um clandestino num cargueiro panamenho.

Um  mercenário à serviço da Rússia na guerra da Ucrânia.

Sou um latino-americano arriscando tudo para entrar nos EUA.

Sou um negro trucidado pela polícia norte-americana.

Sou um homossexual no Islã.

Sou um doente mental,

cigano, indígena, viciado, analfabeto,

sem teto, pária, ralé.

Sou faxineiro, lixeiro, serviçal,

mão de obra escrava.

Sou bandido, venal, vendido,

traidor da pátria, infiel, mau caráter.

Sou traficante, meliante, trombadinha, MC,

magistrado, ministro da suprema corte,

político profissional, presidente...


Eu sou tudo e nada.

Sou tudo que presta e não presta.

Sou bom e mau.

Sou o sal da terra.

O pão que o diabo amassou.

Sou seu irmão.

Sou filho de Deus e discípulo do demo.

Sou o certo e o errado.

Sou o que deu certo e o que deu errado.

O cristal intocado, o muro mijado, 

a ponte, o pouso, o porto de chegada e de partida.

Sou o morto esquecido, o suicida que mataram.

Sou o sangue espesso da castidade, 

o braço da discórdia. A incessante covardia.

Sou o Cristo crucificado.





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