cão sem dono
Um cão magro na rua
passa sem olhar o semáforo.
Talvez já cansado de viver.
Assim como eu, anda
pra lá e pra cá,
sem que ninguém ligue.
Eu ali, esperando o ônibus
na fria garoa, me senti como
aquele cão sem dono.
a luta
A mudez do tempo, monumento de sonhos desfeitos,
cinzela olvidos e ledos enganos.
Acorrentado à vida, o corpo pastoreia
incontornáveis esperanças e lutas desesperadas.
Entre a luz e a treva, entre a cruz e a espada,
o acaso algema e liberta, para converter a animalidade
em humanas façanhas.
Fatigante é o exercício de viver.
Oscilando entre ferir ou ser ferido,
quase sempre algoz de si mesmo, o tormento
não tem fim.
Frente à frente com o carrasco, sem entender
a sentença, sem perceber
os limites do permitido, o homem
luta para não destruir-se à toa.
o amor possível
É possível que tu me ames.
É possível que eu te ame.
Ambos, lutando contra esse querer
que nos prende
na jaula que nos une.
Sim, é possível que nos amemos.
Mesmo sabendo que não há futuro
para esse amor feito de carência e desespero.
Que nos faz tão diferentes e tão iguais.
Sem ninguém senão nós mesmos
para cuidar um do outro.
Não é lindo e sequer tranquilo
esse amor libertino,
mas é o único possível.
A um só tempo acre e doce.
Enfermo e sem rumo.
Que vive de tudo que foi
sem nunca ter sido.
da calmaria ao tormento Mais cedo ou mais tarde, os dias de tormento chegam. E não há nada que s...