quinta-feira, 7 de maio de 2026

 




[Introdução instrumental]








Desejaria ser pacífico, amável, sem mistificações.

Ser presciente e maduro.

Prestimoso como a terra podre e fecundada.

Desejaria ser íntegro, digno, perdurável na arte de amar
e de ser amado.

Ser aquele que ainda se importa e não se corrompe.

Ser o galho partido que se refaz no caule.

Ter olhos e ouvidos capazes de ver e ouvir.

Ser a poça que reflete a lua, o brejo dissoluto, o barco
que regressa cheio de peixes.

Desejaria ser capaz de olhar para a vida como saído
de um coma.

Ser capaz de sentir alegria e saudades por coisas que
já não importam. Coisas que já foram tudo.

Queria ser capaz de me limpar das infâmias, dos males que
causei, e ainda causo.

Queria deixar de ser estúpido, ignorante, presunçoso.

Estar disponível para ouvir. Ter a humildade de aprender,
pedir desculpas, voltar atrás.

Quisera me reconciliar comigo mesmo, antes que seja tarde.

Quisera aprender a amar direito, antes tarde do que nunca.

Descobrir que não me falta nada, me sentir de bem com a vida.

E seguir em frente sem olhar para trás.

Forte e frágil como uma criança

terça-feira, 5 de maio de 2026

                       

                   da calmaria ao tormento



Cedo ou tarde, os dias de tormento chegam.

E não há nada que se possa fazer para evitar.

A vida engana a própria vida, assim como nos enganamos

com as pessoas.

No dilema sujo que nos consome,  tudo em que 

é possível acreditar morre ao fim de cada dia.


Te dei o meu melhor, mas não foi suficiente.

E da calmaria ao tormento, foi só uma questão de tempo.

Na maldição de amar, a beleza fecunda as dores,

para viver num mundo em que 

os próprios desenganos

são um engano.


Por tudo que me foi caro e inesquecível, sigo grato.

Os velhos ressentimentos, carcomidos de tolices,

não me afetam mais.

Quero a memória bem viva 

para lembrar que na minha vida

a beleza e a doçura 

venceram a amargura.




segunda-feira, 4 de maio de 2026


                           chega mais


Chega mais, irmão.

Hoje é dia de pagode e de cerveja.

Só sofre sozinho quem quer.

Se a tristeza aparecer,

a gente canta e bebe até esquecer.


Se a vida tá complicada,

nada dá certo, 

e o amor deu ruim,

chega mais, irmão, 

vem curar tua solidão.

O coração machucado,

cansado de ser enganado,

abraça os amigos,

esquece o cansaço.

Só quer brincar.

Hoje é dia de sorrir e brindar. 


No cavaco e na palma da mão,

o tamborim marca o compasso,

o pandeiro dá o tom.

Samba é festa, alegria.

Faz bem ao coração.

Mostra o caminho.

Da amizade, do amor, da paixão.


* letra de samba/pagode







 




 




  



sábado, 25 de abril de 2026

 

           "O amor, entre duas pessoas inteligentes,                     não dá certo"



A frase atribuída a Fyodor Dostoevsky é provocativa — mas não deve ser lida ao pé da letra. Ele não está dizendo que o amor verdadeiro exige alguém “burro”, e sim questionando o excesso de racionalidade nas relações.


Para Fyodor Dostoevsky, o amor envolve entrega, vulnerabilidade e até uma certa perda de controle. Duas pessoas “inteligentes” no sentido frio — calculistas, orgulhosas, sempre protegendo o próprio ego — podem ter dificuldade de amar porque estão sempre analisando, desconfiando, medindo riscos. O “idiota”, aqui, é aquele que ousa sentir sem garantias, que se permite amar mesmo correndo o risco de sofrer.


Isso aparece muito nos personagens dele, como em O Idiota, onde o protagonista, o príncipe Míchkin, é visto como “idiota” justamente por sua pureza, empatia e capacidade de amar sem malícia — algo raro em um mundo cínico.


No fundo, a frase critica a ideia de que podemos controlar tudo, inclusive o amor. Amar exige um tipo de “loucura consciente”: abrir mão da segurança absoluta para viver algo real.


Então talvez a pergunta não seja se é preciso ser “idiota” para amar, mas: até que ponto a inteligência — quando vira defesa — impede alguém de se entregar de verdade? 


#Filosofia #Dostoiévski #Amor #Reflexão

sexta-feira, 24 de abril de 2026

                             

                          apoteoses de ilusões


             

Eu sempre soube que você não é confiável.

Abandonei a razão para viver

a mais precária mentira.

Profundo e imundo, meu coração

acostumou-se a ódios e insultos.


Somos opostos que sarabandam apoteoses

de ilusões.

Tudo entre nós remonta a alucinações

cruciantes.

Minhas culpas e teus desatinos se entretecem 

em desentendimentos crônicos.

Findo o encanto, o que sobra são os defeitos.

Quando se ama, dorme-se como um rei,

e acorda-se como mendigo.





                    o fim do amor


O fim do amor é sempre triste.

Mas também pode ser uma libertação.

Quando o coração já não aguenta

tanto desgosto e provação.


Te amei loucamente, mas você nunca

retribuiu.

Mesmo assim, me sujeitei a tuas regras.

Aceitei o inaceitável.

Me sentindo culpado por sentir em excesso.

Como se o afeto precisasse ser dosado.

Mas como tudo que não dura é farsa,

o que ficou para trás finalmente

encontrou seu lugar.

Quando percebi que não valia a pena

tanto esforço para caber no teu mundinho.

Quase me desculpando por te amar.

Estou indo. 

Reconciliado comigo mesmo.

Precisei te perder para me encontrar.






















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