sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

 

                         abuso reativo


Quando alguém te pressiona repetidamente até que você finalmente reaja, essa pessoa não está confusa sobre o que aconteceu. Ela está construindo um caso.


Ela provoca de propósito. Ultrapassa limites, desconsidera seus sentimentos, distorce suas palavras e invalida a sua realidade — aplicando pressão até que o seu sistema nervoso não aguente mais. Então, no momento em que você finalmente explode, ela congela esse único instante e o apresenta como se explicasse toda a história.


Isso é abuso reativo.


É um padrão em que alguém te maltrata de forma repetida, mas destaca apenas a sua reação emocional para nunca ter que assumir responsabilidade pelo que causou tudo isso. A manipulação psicológica desaparece da narrativa. A manipulação direta é apagada. O desrespeito é minimizado. De repente, a única coisa em análise é como você reagiu.


Eles não mencionam os meses de crueldade sutil.

Ignoram o esgotamento emocional, as provocações constantes, a pressão psicológica, os gatilhos intencionais.

Focam no único momento em que você quebrou — porque é esse momento que faz você parecer o problema.


E isso não é por acaso.


Eles queriam essa reação. Essa mensagem. Esse tom. Esse descontrole. Não porque tenham se machucado, mas porque isso lhes deu algo para usar como arma. Algo para mostrar aos outros. Algo para justificar o próprio comportamento e proteger a própria imagem.


Pessoas seguras não agem assim.


Pessoas seguras percebem quando você está sobrecarregado. Diminuem o ritmo quando você está ferido. Respeitam seus limites. Não ficam pressionando só para ver até onde você aguenta.


Pessoas manipuladoras fazem o oposto. Escalam quando você está vulnerável. Apertam ainda mais quando você está emocional. Provocam até você explodir — e então agem como se estivessem chocadas, ofendidas e inocentes quando isso finalmente acontece.


É uma armadilha.


Porque, quando você reage, o foco muda. A conversa deixa de ser sobre o que fizeram com você e passa a ser exclusivamente sobre como você reagiu. Sua dor é invalidada. Seus limites são reformulados como agressão. O comportamento deles desaparece silenciosamente em segundo plano.


É assim que evitam a responsabilidade.

É assim que reescrevem a realidade.

É assim que mantêm o controle.


Portanto, se alguém continua te provocando, ignora o seu sofrimento e depois usa a sua reação como prova de que você é o problema — você não está lidando com um conflito.


Você está lidando com uma tática.


E a sua reação nunca foi o problema.

Ela foi a consequência.




 

                    o futuro da sociedade


É cada vez mais crescente o numero de pessoas que ficam sozinhas durante toda a vida. Muitos por escolha e outros porque de fato não conseguem encontrar alguém. Ocorre, contudo, que a grande maioria de nós não tem mais paciência para relações. É sobre isso que comenta Luiz Felipe Pondé.


Recentemente, durante uma entrevista com uma jornalista da Dote e Velha, ela estava chocada com o fato de que algumas pessoas na Alemanha estão buscando do estado o direito de “casar consigo mesmas”. Isso me lembrou uma conversa que tive com uma aluna, que brincando, disse: “se eu pudesse, eu casava comigo mesma”. O direito de casar consigo mesmo, no sentido de que o estado reconheça o voto de amor próprio, é algo interessante de se pensar. Um tempo atrás, um homem tentou casar com seu cachorro, o que gerou um grande escândalo. Mas, pelo menos no caso do cachorro, é outro ser, outra espécie – embora radical, é outra forma de relação. No caso de casar consigo mesmo, isso representa um completo fracasso de lidar com o contraditório, e é um sinal da tentativa de reconfigurar as relações humanas e sociais.

 

A jornalista, de 31 anos, ficou impressionada com a ideia de que muitos europeus, principalmente os alemães, que estão chegando aos 30 anos, permanecem sozinhos e não conseguem encontrar parceiros. Eles até decidem procurar alguém, mas não conseguem, e a razão é simples: não conseguem aguentar estar com outra pessoa. Eles até buscam parceiros, mas a convivência com outros se tornou insuportável. O sexo, por outro lado, se tornou muito mais fácil. Hoje em dia, é possível fazer sexo sem precisar tolerar nada – em alguns casos, até de graça. Isso mostra que, para satisfazer os desejos mais imediatos, não é necessário estabelecer instituições ou criar compromissos de longo prazo.

 

Essa reportagem demonstra que, para muitos jovens, encontrar alguém com quem valha a pena se relacionar é difícil. Isso está relacionado com uma sociedade que cada vez mais valoriza a individualidade e a satisfação imediata. O desafio de encontrar alguém compatível não é só sobre a falta de pessoas, mas também sobre as expectativas irreais que são colocadas sobre os relacionamentos. A vida moderna leva a um isolamento crescente, onde as pessoas, altamente exigentes, acabam buscando apenas satisfação pontual e não se comprometem com o outro.

 

O futuro da sociedade, como vejo, não será uma ruptura radical em relação à produção material, mas sim uma marcha em direção a indivíduos isolados e cada vez mais exigentes, que buscam serviços, inclusive afetivos e sexuais, quando necessário. Esses indivíduos terão vidas centradas em si mesmos e viverão com famílias fragmentadas. A sociedade verá uma diminuição progressiva de jovens, que agora custam muito para educar, pois os pais exigem muito deles. Como resultado, esses jovens acabam se tornando cada vez mais ansiosos – nunca houve uma geração que tenha tomado tantos ansiolíticos. Isso ocorre porque as expectativas impostas pelos pais são tão altas que os filhos têm que lidar com pressões insuportáveis. E é muito difícil ser perfeito; essa busca pela perfeição pode, literalmente, matar uma pessoa.

 

Essa reflexão traz à tona a natureza complexa e muitas vezes contraditória da sociedade contemporânea, onde o individualismo e as expectativas irreais geram um ciclo de solidão, ansiedade e frustração.

 

Transcrição feita e adaptada pelo Provocações Filosóficas da fala de Luiz Felipe Pondé em: Evento INNITI DAY – Conference for Tomorrow, sobre o Futuro da Ética e da Sociedade realizado na FAAP no dia 23/08/2017

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026



                      conclave de lembranças



Andei, andei, até a lonjura brincar

de ausência. 

Tudo o que perdi paira como um amoroso

conclave de lembranças.

Onde vivi a paisagem depura-se tão casta

e docemente

que atravessa os limites do tempo.


Muito tempo se passou 

desde que me perdi

pela primeira vez.

Ainda hoje, tento me encontrar.

D onde estou, não posso mais voltar.

Nem quero.

Como sobrevivi a tantos desenganos ?

Ora, bolas, renomeando-os...


 

domingo, 25 de janeiro de 2026

 

                   o tempo dirá



Se ninguém cruza nosso caminho por acaso,

como dizem, 

por que tantos desencontros ? 

Por que tantas frustrações ?

A verdade é que a maioria de nós vive assim, 

batendo cabeça,

sofrendo e fazendo sofrer.

Com raras e honrosas exceções, somos todos 

incompatíveis.

Se ninguém cruza nosso caminho por acaso, 

a única justificativa para que isso aconteça,

é encarar tudo como um aprendizado.

Um aprendizado sem fim.


Ai de mim, é tudo o que tenho feito na vida.

De desamor em desamor.

Em constante litígio.

Sem nada aprender.

Minha melhor parte ninguém conhece.

Talvez ela nem exista.

Se nem o meu melhor te satisfez, mulher,

talvez você esteja certa.

Mais uma vez saio de cena como vilão.

Se merecidamente ou não, o tempo dirá.





                      o amor é traiçoeiro



Um minuto e já não é amor.

Esquecemos de tudo, nos machucando mutuamente.

Destruindo o que aprendemos.

O coração devotado clama por ser enganado.

Ninguém sabe quem é quem.

Você me chama de ignorante,

ignora o quanto tenho sido paciente,

abusa por eu ser tão carente.

Qual o futuro desse amor tão dependente

do afeto que você nem sente ?


No fim das contas, tornei-me aquilo

que nunca quis ser.

Não muito diferente de você.

Egoísta, mentiroso, um farsante.

Que finge ser o que não é,

para não ficar em desvantagem.

O amor é traiçoeiro, só é fiel ao dinheiro.




quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

 


                             carência não é amor


Há uma confusão silenciosa, porém devastadora, que atravessa a experiência afetiva humana, a tendência a chamar de amor aquilo que, em essência, é apenas necessidade. Amar e precisar não são sinônimos, embora frequentemente se apresentem com a mesma linguagem, os mesmos gestos e até as mesmas lágrimas. O problema é que a carência sabe imitar o amor com perfeição suficiente para enganar até os mais atentos.


A carência nasce de uma falta interna não elaborada. Ela não busca o outro como alteridade, mas como remendo. Não deseja o encontro, deseja o alívio. Quando alguém ama por carência, não se dirige ao outro, dirige-se ao próprio vazio, esperando que o outro o preencha. O amado torna-se função, instrumento, suporte emocional, quase um objeto terapêutico improvisado. Não é visto como é, mas como aquilo que pode oferecer.


O amor, ao contrário, pressupõe inteireza relativa. Não perfeição, mas consciência da própria incompletude. Quem ama não exige que o outro salve, cure ou complete, aceita que o outro acompanhe. O amor verdadeiro nasce quando o eu já não está em estado de desespero, quando a presença do outro é desejada, não necessária para sobreviver. Amar é escolher, precisar é agarrar-se.


Psicologicamente, a carência é ansiosa e possessiva. Ela teme a ausência porque não sabe sustentar o silêncio interior. Por isso confunde intensidade com profundidade, dependência com vínculo, controle com cuidado. Quanto mais frágil o eu, mais absolutiza o outro. E quanto mais absolutiza, mais sufoca. O amor, por sua vez, tolera a distância, respeita a autonomia e não transforma o afeto em contrato de sobrevivência.


Há também um traço ético nessa distinção. Amar alguém implica reconhecê-lo como fim em si mesmo. Precisar de alguém, quando não elaborado, tende a reduzi-lo a meio. A carência não pergunta “quem você é?”, pergunta “o que você pode fazer por mim?”. Por isso tantas relações adoecem, não por falta de sentimento, mas por excesso de expectativa.


Confundir carência com amor é perigoso porque produz vínculos frágeis, embora intensos. São relações inflamadas, mas pouco luminosas. Quando o outro falha, se afasta ou simplesmente se mostra humano, a estrutura desmorona, pois não era amor que sustentava o laço, era a urgência.


Filtrar o humano, aqui, é aprender a suportar a própria solidão sem transformá-la em chantagem afetiva. É compreender que o amor não nasce da escassez desesperada, mas da capacidade de estar consigo sem horror. Só quem não precisa desesperadamente pode amar de fato. O resto é pedido de socorro disfarçado de paixão.


Oliver Harden

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026


                      amor bandido



Mudei para poder te amar.

Não foi algo que se possa romantizar.

Ao contrário, foi tudo o oposto do que eu imaginava.

Custei a entender que te amar não cabia em quem eu era.

Te amar não respeitou minhas feridas, meus traumas.

Me obrigou a te aceitar do jeito que és. 

Mesmo com parte de mim gritando

que eu estava sacrificando minha identidade.

Precisei me reinventar, ficar vulnerável

a teus caprichos e desatinos.

Pensei mil vezes em desistir,

mas algo dentro de mim me obrigava a ficar.

Mudei, não para merecer o teu amor bandido,

mas para abandonar as versões em que amei

só pela metade.

Mesmo comendo o pão que o diabo amassou.

Mudei para poder te amar por inteiro.

Ambos com defeitos, mas mais honestos,

verdadeiros.















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