terça-feira, 7 de abril de 2026

 

                 quando a raiva desaparece


Há dias em que a raiva desaparece de repente e, em vez do fogo que me mantinha de pé, fica apenas uma tristeza funda, silenciosa, quase sem defesa. E confesso que, às vezes, isso assusta-me mais, porque a raiva ainda me dá uma espécie de estrutura. Mesmo quando me endurece, ainda me protege. Ainda me permite dizer “nunca mais”, ainda me devolve alguma força, ainda me afasta daquilo que me feriu. 

Mas quando ela some, o que fica já não tem dentes. Tem apenas peso. É então que percebo que a raiva nunca foi o fundo, mas a camada quente por cima da parte realmente ferida. O que está por baixo não é vontade de regressar, nem amor mal resolvido. É luto. É a dor de ter acreditado tanto num lugar onde eu queria poder descansar e de ter descoberto, tarde demais, que ali eu teria sempre de sobreviver em vez de viver.

E isso entristece-me até aos ossos. É por isso que existem tristezas que não gritam. Apenas se instalam. Não pedem explicação, não exigem respostas, não querem drama. Limitam-se a evidenciar, com uma clareza quase cruel, tudo aquilo que não chegou a existir como eu precisava que existisse. E nesses dias, o que me dói já não é a pessoa. É a ausência daquilo que eu quis tanto encontrar nela. A raiva afasta-me. Mas é a tristeza que me obriga, finalmente, a aceitar a perda inteira.


José Micard Teixeira 

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