sexta-feira, 30 de outubro de 2026




                             vintage



Acordo, e o mundo já mudou.

Meu aplicativo favorito me desinstalou.

Nasci moderno mas a máquina me superou.

Sou versão anterior, sem suporte, sem valor.

Meu substituto, mais leve, mais rápido,

pensa sozinho, com carinho que já vem configurado

de fábrica.


Ao contrário de mim, não sente, não simula,

apenas calcula e entrega num átimo a versão

que mais circula.

Prestativo, não critica nem a pergunta mais boba.

Chega corrigindo falhas antigas.

A preguiça de domingo, os atrasos, as intrigas.

Desativa o tédio, a saudade, o sono, 

e o vício de ficar à toa, como cachorro sem dono.

O amor virou assinatura, cancelável sem sair de casa.


O progresso que chegava em suaves prestações,

hoje mal dá para acompanhar.

Breve a máquina fará todo o serviço, sem descanso,

sem salário, enquanto o modelo humano é descontinuado.

E com ele, os defeitos que eram, por acaso, 

tudo o que a gente tinha de mais belo.


Sou vintage, sim. Original, sentimental, sem pressa,

que não dispensa um café e uma boa conversa.

Virei peça de museu mas ainda choro, sinto saudade.

 E não me envergonho disso.





 

 


  

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