quinta-feira, 30 de julho de 2026


                            a corrida da vida





Sem olhos.

Sem pernas.

Sem nome.

Sem ajuda.

E mesmo assim você venceu

a corrida da sua vida.

Contra milhões de concorrentes.

Sem regras.

Sem luz.

Sem mapa.

Apenas o instinto a guia-lo.

Você.

Você.

Você.

Um campeão antes mesmo de nascer...


E agora quer entregar os pontos?

Deixar de lutar ?

Desistir ?

Só porque tem apanhado da vida ?

E quem disse que seria fácil ?

Você, que venceu sem olhos, vai perder

agora que pode ver ?

Você, que venceu sem pernas, vai parar

agora que pode correr ?

Você, que venceu sem ajuda, vai desistir

agora que tem um mundo de possibilidades

para conquistar ?

A vida te bateu, bata de volta.

Engula o choro, irmão.

Transforma essa dor no peito em armadura,

com a mesma força e obstinação que te fez vencer

quando você ainda não era nada.


Acredite, ainda és o mesmo.

O mesmo instinto, a mesma fome,

o mesmo coração.

Campeão não é quem nunca cai.

É quem se recusa a ficar no chão.






                             comodato

* versão musicada



Não queira ser o que não é.

Não inveje sequer a formosura alheia.

Pois o que importa é a essência.

Nenhuma beleza se sustenta além do tempo.

Mas o que vai por dentro, sim.

Não queira ser como a rosa,

que impera bela em formosa no jardim,

mas quando posta num vaso,

logo murcha e morre.

E como tudo na vida, é jogada fora.


Não queira ser o que não é.

Pois as aparências enganam.

Nada é o que parece.

Muito menos as pessoas.

Vaga e falha é a ideia que fazemos do mundo.

Nada é realmente nosso.

Tudo é emprestado.

A vida nada mais é do que um comodato.

Com prazo indeterminado.



sábado, 25 de julho de 2026


                                 dias felizes


Há dias que vale a pena viver.

Outros nem tanto. 

Mas há que vivê-los.

Há que suportá-los.

Por mais pesado que seja o fardo.


Há dias de ouro, para serem valorizados.

Entre tantos que apenas passam.

Sem deixar saudades.

Há dias perfeitos, que de tão tranquilos e simples,

nem nos damos conta.

Não reparamos quão calmos e belos

em sua mansidão,

em seu escoar tranquilo,

feito essa chuva que cai mansamente.


Amo a calmaria desses dias perfeitos.

A preguiça que me assalta.

O alarido de meu filho, brincando no quarto.

Amo o perfume que exalas, mulher amada,

ao sair do banho em traje sumário.

Amo o teu jeito de menina-mulher.

Teu olhar de quem nada quer, tudo querendo.


Olho em volta e vejo que não preciso

de mais nada para ser feliz.

Apenas dias assim, tranquilos.

Ao lado de quem amo.

Ao lado de quem

faz a vida valer a pena.


(16/08/2014)


                         o começo e o fim


O fim de uma coisa é o começo de outra.

Nada realmente termina. 

É como capinar, arrumar a casa.

Um trabalho que nunca acaba.


Em todo presente o passado habita.

O fim é o começo de um novo plano.

Nada de fato acaba, apenas se transforma.

E de alguma forma retorna.

Lembranças, sequelas, feridas.

É a lida.

É a vida bandida.

O começo e o fim entrelaçados.

O bom e o ruim mudando de lado.

E uma agonia que nunca finda.




sexta-feira, 24 de julho de 2026


                                        o verdadeiro amor


Não tente entender.

O amor não obedece à razão. 

Tampouco é ligado em virtudes e posses materiais.

Ninguém ama uma pessoa por ser educada, honesta,

ou até mesmo rica.

O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo,

conjunção astral.

Ama-se pelo cheiro, pelo toque, pela paz ou pelo tormento

que provoca.


Você ama aquele cafajeste. Ele não leva nada à sério,

está sempre duro e é extremamente volúvel.

É um legítimo sem futuro, e ainda assim,

você não consegue esquecê-lo.

Quando ele toca seu corpo, você derrete feito manteiga.

Nem você sabe porque ama esse cara.

Você tem inúmeros pretendentes, já ficou com vários

deles, alguns bem generosos, bem de vida,

mas nenhum consegue ser do jeito como o amor

da sua vida.

Ah, quem dera o amor fosse como uma equação

matemática, tipo assim : você linda + ele inteligente =

dois apaixonados...



* baseado em crônica de Arnaldo Jabour




  





                                filhos

                                         


Filhos, enquanto pequenos, carentes,

são a expressão do mais belo ideal.

Mimos e zelos cercam seus passos,

multiplicando o amor a cifras inimagináveis.

Além das estrelas...


Pequeninos, enquanto inocentes, submissos,

trazem felicidade ao lar mais carente.

Aquecem o coração da alma mais fria.


Filhos, seu sorriso é como um bálsamo,

uma centelha de luz na escuridão do mundo.

Pequenos, são a alegria e a dor,

a esperança e o desespero.

Crescem entre o amor e medo.


Há o que crescem livres e belos,

na certeza de um amanhã venturoso.

Ali na esquina, porém, maltrapilhos e desamparos,

outros pequeninos parecem chorar

a desgraça de terem nascido.


* escrito em 12/1988

quinta-feira, 23 de julho de 2026


                            conflito


Não espero que Deus tenha piedade de mim.

Pois teria que fazer por merecer. 

Inventar uma maneira diferente de ser.

Que fosse o avesso de mim.

Alguém que não se exponha tanto.

Que seja mais centrado, cauteloso, mais cético.

Ou seja, fazer o contrário do que tenho feito.


Mas não sei ser de outro jeito.

Tudo o que faço, dá errado.

Meu Deus, porque sou tão atrapalhado ?

Não quero o mal de ninguém.

Nem de meus desafetos, que tanto me ensinaram.

De tudo que vivi, só me arrependo do que não fiz. 


Não espero que Deus tenha piedade de mim.

Pois de tanto crer, já não sei em quem creio.

Nem quem sou.




                            a roleta do amor


Se é para perder,

se o previsível desfecho são favas contadas,

para quê arriscar ? 

Por que se envolver, sonhar, se iludir ?

Em certas fases da vida, tudo bem,

há que tentar, apostar tudo na viciante

e viciada roleta do amor.

Mas depois de tantas mãos jogadas,

tantas bolas fora,

trapaceando e sendo trapaceado,

manda o bom senso dar um basta.

Antes que o prejuízo seja irreparável,

e tudo se perca, dignidade, amor-próprio,

sem falar no prejuízo financeiro.

Nada mais deprimente do que rastejar

por quem não lhe quer mais.


Lembre-se, 

a única chance de ganhar, ou minimizar

as perdas nesse jogo de cartas marcadas,

é saber a hora de parar.

O diabo é que a abstinência equivale a renunciar

ao que a vida tem de melhor.

Enquanto dura(o).




                        quando a ficha demora à cair



É assim mesmo.

Às vezes a ficha demora à cair.

Quando a namorada diz que não pode te ver

porque precisa fazer o cabelo, as unhas. 

Quando ela diz não ser interesseira mas condiciona

tudo ao dinheiro.

Quando diz que é ninfomaníaca mas com você,

só na base da barganha.

Quando ela te bloqueia nas redes sociais, alegando

que você é ciumento.

Quando te evita na cama, mas continua

tomando anti-concepcional.

Quando ela não larga do celular mas põe senha

e passa horas sem te responder.

E quando responde, diz que a bateria acabou...

Quando os apelidos carinhosos são deixados de lado,

os sorrisos escasseiam, qualquer coisa é motivo

para discussões ou longos silêncios,

provavelmente a ficha já caiu

e você nem se deu conta.


                                os grandes momentos

* versão atualizada


Cuidado,

não se iluda com os grandes momentos. 

Porque eles não passam disso, breve pausa

no pega-pra-capar da vida.

Não se engane, não se empolgue.

Apenas viva, aproveite, sem pensar muito

no que representam, ou que possam durar.

Porque amanhã é outro dia.

Dia de ir à luta. Dar a cara à tapa. 

Matar um leão por dia.

Fazer o trabalho sujo.


Ah, os grandes momentos ! 

Nada mais ilusório.

Nem o amor é garantia de nada.

Pois os que amam são os mesmos 

que se maltratam.

E os grandes momentos viram cinzas.

E há quem faça questão de varrê-los

para debaixo do tapete.

Como se nunca tivessem existido.



 

                                       todos passam pela cruz


* versão musicada (gospel)





A vida só faz sentido no olho do furacão.

No turbilhão das tragédias.

Quando tudo desmorona, as mãos despetalam e

os mais belos sentimentos afloram.

De repente, no vislumbre do que foi o existir cinzento,

voltamos a crer como criança.

E ao redor deste espanto, os anseios mais antigos entretecem

um novo itinerário.


Mas a via crucis é inevitável.

Todos passam pela cruz.

Em nome de Jesus.

Todos passam pela cruz.

Em nome de Jesus.


Crescemos na dor que humaniza.

Na tristeza previsível ou no bojo de fatalidades

incompreensíveis.

Reconciliados nas cercanias da morte, enfim 

nos livramos dos truques e disfarces.

E assim, purgados,

voltamos a ser o anjo que em outra dimensão

fomos.

Todos passam pela cruz.

Em nome de Jesus.

Todos passam pela cruz.

Em nome de Jesus.


Quando a noite pesa

tua graça me sustenta.

E quando me perco

Tua mão de encontra.


Todos passam pela cruz

Em nome de Jesus.

Amém, amém.

Todos passam pela cruz

Em nome de Jesus.

Amém, amém


Crescemos na dor que humaniza.

Reconciliados nas cercanias da morte.

Em nome de Jesus,

amém, amém



quarta-feira, 22 de julho de 2026


                       a diferença 

* versão musicada


Quis muito conhecer alguém

que me fizesse esquecer

o amor que não consigo esquecer.

Mas tudo o que consegui, foi conhecer 

quem me fez valorizar ainda mais

o amor que não consigo esquecer.

O amor que não era comprado,

era dado.


Eis a diferença que faz toda diferença.

Enquanto outras me medem e me querem 

pelo que tenho a oferecer,

você só queria o que eu era.

Num mundo que põe preço até no amor,

a única coisa que não se pode comprar,

é essa saudade que nem o tempo

consegue apagar.




                         descartáveis

     


Ah, se você soubesse, o quão rapidamente

será esquecido, substituído, 

proscrito,

não alimentaria nenhum remordimento

pelo que fez ou deixou de fazer.

Pois no fim das contas, nada fará diferença.

Depois que você se for, tanto faz se fez pouco ou muito.

Já não importam os planos, as datas, os perrengues, 

as versões escapistas.

O esquecimento começa naquele instante que antecede

o fim, quando você se depara com o nada que restou,

do fundo de seus dias.

Preterido por uma realidade decadente qualquer,

debaixo de um sol que continuará a nascer 

e a se por, 

independentemente ao que representou sua

descartável existência.

Porque você nunca  passou disto, irmão.

Descartável ! Esquecido tão logo se despeça

ou lhe fechem o caixão.




terça-feira, 21 de julho de 2026



                  o olhar derradeiro


Fui semeando pela vida

as utopias de meus sonhos

Como era de esperar,

salvo raras exceções,

só colhi decepções.


Não sei o que sobrou

Não sei o que me tornei

Não sei o que esperar

Só sei que nada mais quero ter

que não seja verdadeiro

como o olhar derradeiro

de um moribundo

cansado do mundo.



                        

                          perdas e ganhos


Por que te lamentas ?

Do que reclamas ?

Tens a vida que mereces.

A mocidade se foi, os sonhos se perderam,

mas a vida continua.

Nem tudo se perdeu.

Tens saúde, disposição, recursos.

Entre perdas e ganhos, estás no lucro.


Tudo somado, as coisas que te incomodam

valem menos do que as boas lembranças.

Palavras duras, decepções, ingratidões, só servem

para envenenar o espírito.

E estes retratos da família, que ainda carregas,

atestam o que a memória amarga teima

em negar. 

Que tiveste uma vida boa, momentos mágicos,



Tempos de alegrias, tempos de despedida, dia virá

em que no mesmo esquecimento,

tudo se fundirá.

Conquistas, Fracassos, paz de espírito : 

cumpriste bem o teu papel.

Se mais não fizeste, é porque nunca fazemos

o suficiente.

Se não durou, é porque o eterno amor

une e depois separa.




                             a vida é uma festa



A vida é uma festa.

A vida não presta.

Vivendo sem viver,

sem razão de ser.


Tudo é rápido e fluído.

Gosta-se e desgosta-se.

Ama-se e desama-se por mixaria.

Curtir sem culpa é a ordem do dia.


A telinha é quem manda.

A transitoriedade dos sentimentos embute farsas,

inocência, ignorância.

Repetitiva e cansativa, a vida se abriga

no mundo virtual.

Na banalização de tudo, tudo é normal.

As aparências não enganam.

Ninguém mais se envergonha de nada.

Não basta ser, é preciso ostentar.

Ladrões, putas, pederastas, vivem o auge. 

Prevaricação virou espetáculo público

e gratuito.

Até o amor deixou de ser bonito.


A vida é uma festa.

A vida não presta.

Fora da rede, a realidade nua e crua

é tudo o que resta.

 



                      a vida no bagaço


Sim, claro, o que há de melhor a fazer

do que curtir a vida ?

A vida calma e pacata nos incomoda.

Ah, que tédio ! Que chatice !, estamos 

sempre reclamando.

Ah, os outros é que sabem viver.

O gramado do vizinho é sempre mais verde.

Felicidade fingida, cartão estourado, mas o status

no topo.

Seguindo sem rumo, dançando no caos 

de um mundo falido.

Quando a luz apaga e a festa termina,

tudo o que sobra é o cansaço.

A vida no bagaço.



 

segunda-feira, 20 de julho de 2026



                    

                   razões

* versão musicada



Amor é uma palavra usada 

com muita facilidade.

Na maioria das vezes, em vão.

Vivemos em busca do par ideal,

mesmo sabendo que o ideal não existe.

Só muito raramente se encontra

alguém que te completa.

E quase sempre, nem repara.


Na modernidade líquida, a vida desidrata.

O que se ganha, se perde com a mesma facilidade.

Os relacionamentos se diluem no mundo virtual.

Assim como começam, acabam.

Às vezes, com um simples

bloqueio no wats ap.

Bem prático.

Bem moderno.

Sem drama.

Amor com prazo de validade,

cancele quando quiser.

Todo mundo livre mas ninguém disponível.

Todo mundo se vendo, mas ninguém se enxergando.





 


                              insônia



A madrugada se arrasta.

Na distraída escuridão noturna,

vaga memória de pios e arrepios.

Corujas, galos, patas de cavalo ecoando

no paralelepípedo. 


Na antiga noite em que me afundo,

estrelas e pássaros ainda dormem.

Alguns sortudos acasalam.

Insone, não durmo, nem acasalo.

Na imensa noite de abandono,

o amor sucumbe. 


Na madrugada que se arrasta

Na vida que se engasta

Nas coisas que não desenroscam

No sono que não chega

Sonhados todos os sonhos

No meu abismo despenquei.

Da minha antiga vida, despertei.

 

 

                         (des)caminhos


Muitos caminhos

levam a lugar algum.

Atalhos, encruzilhadas, bifurcações

levam a todos os lugares.

Mas não onde queremos chegar.


Lugares em que o fim do caminho

é onde não deveríamos estar.

Posto que longe do caminho do qual

desviamos.

Privados do que tínhamos de melhor.

Tarde demais para voltar.



                                 a espera

* versão musicada

                            

Minhas mãos, desaprendidas de tocar,

já não tocam, já não oram. 

Meu coração, cansado de sentir,

já não sente,

menos mal que já não mente.


Nos dias que transcorrem, sem sentido,

sem tocar, sem sentir,

já nada espero, apenas sobrevivo.

A vida estagnada, o terno embolorado,

a espera do enterro.


Nada mais importa.

Bocas, sorrisos, palavras ao vento,

apenas gasto o tempo.

Os vermes já me comem por dentro.

domingo, 19 de julho de 2026


                       invisível


Ando por aí como se fosse invisível. 

Como se não existisse.

Virei fantasma antes de ter morrido.

Rostos colados em telas sem fim 

nem reparam em mim.

Nenhum olhar cruza com o meu,

sou só alguém que o mundo esqueceu.

Sou o figurante que o público não nota.

Eu e meu carisma de ator aposentado.

Até o espelho de me ver anda cansado,

me olha de lado, boceja, faz ar de enfado...


Postei até uma foto com filtro e um belo cenário.

Para saberem que ainda existo.

Mas o algoritmo, esse grande otário,

escondeu meu post para não comentarem.

Tudo bem, penso comigo, o anonimato não é tão ruim.

Ninguém me vê, ninguém me cancela.

A vida é mais leve fora da tela.


Outro dia sonhei que um bug bizarro me viralizou.

Apareci de pijama, comendo pastel,

e do nada ganhei milhões de seguidores.

Fiquei rico vendendo cursinho, virei escravo

da validação, 

e de repente a fama virou um castigo.

Acordei aliviado, rindo do pesadelo, 

saboreando minha doce insignificância. 

Descobri que ser invisível tem lá sua relevância.

Não preciso fingir que a vida é perfeita, 

nem viver de mentira.

A vida real é a única coisa que ninguém me tira.






  





                           

                      o silêncio também é remédio



Há coisas que duram.

Há coisas que passam. 

Há coisas que são.

E outras que vão.


Há coisas que idealizamos,

e outras que nem chegam a ser.

Há coisas lindas e raras,

e outras que é preferível esquecer.


Há escolhas que pesam.

Há verdades que abalam.

Há bocas que rezam.

E outras que amaldiçoam.


Gritamos para o mundo,

querendo respostas.

Contudo, o silêncio também é remédio.

Já não sinto o peso do que se perdeu.

Do que deixou de ser original.

Eu sou o começo, 

o meio

e o final.









sábado, 18 de julho de 2026


                       nódoa

* versão musicada



Uma cantiga antiga atravessa o tempo,

chega com a linguagem do vento,

limpando-se do limo dos crepúsculos esquecidos.

Tão paciente como um navio solitário,

transpondo horizontes e nuvens como se tivesse

a vida presa na garganta.


É uma cantiga antiga há muito esquecida,

carente de gestos e roteiros,

ferindo e conferindo a beleza adormecida.

Ainda assim, despertando as coisas mais ternas,

face a face com seu disfarce de fera.


Nos acordes dessa cantiga antiga,

suja de terra, coberta de cinzas e saudades,

o que passou já não conta.

A antiga mágoa hoje não passa

de uma simples nódoa.


 

quinta-feira, 16 de julho de 2026


                                        nada permanece



Tudo vai de mal a pior.

O mundo reinventa o seu inferno

a cada dia.

A vida se revela recriando o drama da convivência.

O incerto e o duvidoso se atraem e se traem.

Tudo sempre fica aquém das expectativas.

Já fomos esquecidos antes de termos nascido.

Nada permanece.

Não há vitória nem derrota.

Não há guerra nem paz.

Não há conquistas nem fracassos.

Não há dor nem prazer.

Nada que dure para sempre.


  

quarta-feira, 15 de julho de 2026


                               novos e antigos dias


 



Sou um sonhador que sonha

com a apoteose dos momentos perfeitos.

Como se fosse possível ser mais feliz 

do que eu fui.

Pelos amores que tive.

Pelos filhos que tenho.

Pelo coração humanamente compungido

que a tudo e a todos subsiste.


Passeio pelo tempo sem reparos e remorsos.

O que fiz e o que deixei de fazer

se dissipam sem amargura ou rancor.

Não me resguardo nem me esquivo diante

do que a vida me ensinou.

Aprendi a valorizar as coisas que me fizeram diverso

do que um dia fui,

e que tão longe me levaram.

Longe e predestinado a ser feliz.


Assim, digo adeus ao que fui

sem deixar de ser o que sou.

O que fiz está feito, não há como remediar.

Das batalhas vencidas e perdidas, só ficaram as feridas.

Agora que os novos e antigos dias se misturam,

trato de desfrutar o que ainda vale a pena

ser vivido.

Contra tudo o que a existência deu e levou,

ainda guardo a louca ideia de ser feliz.



domingo, 12 de julho de 2026



                            chegou, chegando

 *versão musicada


Hoje a saudade bateu forte.

Chegou sem avisar, sem pedir licença,

me fazendo lembrar de tudo aquilo que finjo

ter esquecido.

Chegou chegando, remexendo as feridas que eu jurava 

terem cicatrizado.

Veio mostrar que há lembranças que jamais serão

esquecidas. 

Que há ausências que jamais serão supridas.


Hoje a saudade bateu forte, talvez por ainda 

alimentar esperanças.

Ao ver que, apesar de tudo, você ainda vigia 

meus passos. 

Posta indiretas. Finge indiferença, mas sopra as cinzas, 

não deixa apagar o fogo.

Porque o que tivemos foi forte demais para fingir

que nunca existiu.

Para caber numa simples despedida.


Hoje a saudade pegou pesado.

Talvez porque eu ainda te ame.

E não me conforme por ter te perdido

de bobeira.

De tanto fazer besteira.







 

sexta-feira, 10 de julho de 2026


                         

           abençoado ou amaldiçoado



Abençoado ou amaldiçoado, 

o amor cumpre sua tarefa com louvor. 

Aventura-se por becos e vielas, consumindo-se

entre o prazer e o desencanto.


O amor não bate a porta, arromba.

Não pede licença, invade.

Vai se achegando, sem alarde.

Confunde afeto com paixão.

Não distingue o santo do ladrão.

Chega, senta, e fica.

Às vezes por pouco tempo.

Às vezes por uma vida.


Esgotadas as tentativas,

sai como entrou.

Sem despedida.

Quem fica é quem inventa justificativas.

Porque o amor não se explica.

Abençoado ou amaldiçoado,

não devolve o tempo tomado.

Entra e sai de cena, cedo ou tarde demais.

Deixando cada um com seus ais.





                                 o teatro da vida



Nas cidades de aço e concreto,

em que ruas e praças são palco de atores itinerantes,

os dias passam crivados

de dúvidas e súplicas.

No teatro da vida encena-se de tudo.

Todos fantoches sem rosto nem identidade.

Puxados por fios invisíveis que cortejam o inexistente.


Cortinas abrem e fecham em sessão permanente.

Atores e tramas se sucedem para que o show

possa continuar.

Decorando falas, seguindo roteiros sem ensaio.

Cada um com seu figurino, inventando um destino.

Todo mundo conectado e ninguém dá a mão.

Na cidade de aço e concreto, tem wi-fi em cada esquina,

mas falta conexão.

Cinco mil amigos online e ninguém para carregar o caixão. 



 

quarta-feira, 8 de julho de 2026


                            a vida se repete

                            (versão musicada)


Hoje está tudo bem.

Amanhã já não sei.

Hoje está tudo bem, 

amanhã já não sei.


A vida se repete até chegar

ao impasse,

ou a um ponto sem volta.

Que é quando as pedras rolam

e até as flores choram.


Disseram que triste seria meu fim.

Houve até quem risse de mim.

Mas se a vida é um circo sem lona

nem dono,

eu sou o palhaço que riu por último.


Se meu mundo desabou e virei motivo de chacota, 

de tanto erro crasso, 

oooooh-lá-lá...oooooh-lá-lá

virei coach e monetizei meu fracasso.


Hoje está tudo bem,

amanhã já não sei. 

Hoje está tudo bem,

amanhã já não sei.

Mas já nada me assusta.

Cada tropeço me trouxe até aqui.

Quem não teme a queda aprende

a ir além.

E eu só levo comigo,

aquilo que me faz bem.


Hoje está tudo bem, 

amanhã já não sei.

Hoje está tudo bem, 

amanhã já não sei.








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