sexta-feira, 16 de outubro de 2026

 


Antes / Agora

[Verso 1]

Antes, carta e selo,

saudade de um mês.

Agora, "visto às duas",

e ninguém me respondeu.

Antes, o vizinho

sabia meu nome.

Agora, o aplicativo

sabe até minha fome.

[Pré-refrão]

Antes, a gente consertava,

colava, costurava.

Agora, a gente troca:

primeiro a coisa,

depois quem usava.

[Refrão]

Antes, éramos o futuro,

agora, o histórico.

Apaga quando quiser,

é rápido, é lógico.

Antes, tempo era dinheiro,

agora, o dinheiro sou eu.

O tempo

nunca foi meu.

[Verso 2]

Antes, a carreira,

agora, a corrida,

sem linha de chegada,

com taxa de inscrição na vida.

Antes, o velho ensinava

o que a vida ensinou.

Agora, pede ao neto

a senha que esqueceu.

[Pré-refrão]

Antes, foto na carteira,

um rosto, uma lembrança.

Agora, dez mil na nuvem,

nenhuma na memória,

nenhuma que alcança.

[Refrão]

Antes, éramos o futuro,

agora, o histórico.

Apaga quando quiser,

é rápido, é lógico.

Antes, tempo era dinheiro,

agora, o dinheiro sou eu.

O tempo

nunca foi meu.

[Ponte — falado, voz neutra]

"Antes: quem é você?

Agora: confirme que não é um robô.

Selecione todos os quadrados

com semáforos.

Tente novamente."

[Verso 3 — lento]

Antes, morrer

era ponto final.

Agora, o perfil

segue postando normal.

"Feliz aniversário!",

dizem pra quem já foi.

O algoritmo não sabe

que doeu.

[Final]

Antes, o homem

fez a máquina.

Agora, a máquina

faz o homem…

esperar.

esperar.

(Limpar histórico?)

Sim.

Não.

…Ainda não.

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