segunda-feira, 29 de junho de 2026


                               quando as pedras rolam



Hoje está tudo bem.

Amanhã já não sei.

A vida se repete até chegar ao impasse.

Ou a um ponto sem volta.

Que é quando as pedras rolam.


Tenha isso sempre em mente.

Não somos nada se não tivermos serventia.

Ninguém respeita quem não tem nada a oferecer.

Somos meras peças de uma engrenagem

fria e calculista.

Os prazeres da vida passam, as dores 

e os dissabores ficam.

O amor esconde os defeitos, enquanto 

nos põe algemas.

Na vida há vários caminhos.

De luzes e cruzes.

De rosas e espinhos.


Hoje está tudo bem.

Amanhã, já não sei.

A vida se repete até ao impasse.

Ou a um ponto sem volta.

Que é quando as pedras rolam.



domingo, 28 de junho de 2026



                     tudo de bom




                       

Há um tempo na vida, com a página em branco,

em que ansiamos por atenção, companhia.

Quase imploramos por um amor.

Correspondido ou não.

Mas vem o tempo em que a ausência disso tudo,

é tudo de bom.

Em que o coração finalmente sossega.

Já não grita.

Já não sangra.

Só quer paz.

A paz de quem se conhece melhor.

Que não perdeu o gosto pela vida,

apenas se aquietou.

Que aprendeu a se dar valor.







                          moinhos de vento


A vida se desfaz em brevidades.

Nuvens cansadas vagam o céu indeciso.

Pedaços de lucidez galopam com destinos opostos,

forjando a vida itinerante.

Despojos de mim inventam o mundo

de moinhos de vento.

Não há um dia sem dores e deslumbramentos.

Envelhece o tempo renascido de si mesmo.

O mundo é grande mas nem tanto.

Uma dor antiga sobrevive em meio

a imundície e miséria.

À margem dos dias, rompe-se o invólucro 

das façanhas retroativas.

E assim, extinto o encantamento,

a própria beleza torna-se inútil.

A  vida, quando não é festa, é guerra.


 

sábado, 27 de junho de 2026


                            na hora H


Você diz que não quer nada sério.

Mas me liga sempre que precisa.

Se faz de difícil, diz para o povo que sou 

só um esquema.

Mas na hora H, sou eu quem resolve 

seu problema.


Você abusa, sabe o poder que tem 

entre as pernas.

Briga por qualquer coisa, vive fazendo drama.

Perdi a conta das tantas vezes que terminamos.

Mas sempre acabamos voltando.

Dá uma de louca, mas sabe que o que faço,

nenhum outro ex seu fez.

Nossa história está toda errada, você me pisa 

mas na cama, 

se entrega como ninguém.

Como se me amasse também.




 


sexta-feira, 26 de junho de 2026


                             amar nunca é em vão



Enxugue as lágrimas.

Apazigua o coração.

Por mais difícil que seja,

amar nunca é em vão.


O tempo cura a ferida

Devolve a luz ao olhar

Dá um novo sentido a vida

Ensina a recomeçar.


Depois da tempestade, o sol

sempre volta a brilhar

Siga em frente, sem olhar para trás

O universo sempre escuta

o coração que distribui

amor e paz.


Sim, o amor, 

dourado de sol,

enrolado num cobertor,

recatado ou desaforado,

louco de paixão,

cultivado com zelo ou não,

calmo ou obsessivo,

mas cheio de más intenções,

a tudo se permite,

até tornar-se inviável.

Mas sempre, sempre e sempre, 

indispensável.


Enxugue as lágrimas.

Apazigua o coração.

Por mais difícil que seja,

amar nunca é em vão.








quinta-feira, 25 de junho de 2026


                            a derradeira condição                          


Viver o ocaso dos sonhos.

A dor dos vivos.

Em meio a consciência dos fracassos.

A transitoriedade de tudo.

Quando enfim todos os fingimentos caem.

Eis a derradeira condição.


O futuro emulado no engodo do passado

retém o que poderia ter sido e o que foi.

Nas esferas da existência, a mão do tempo

dá e falsifica.

Depois da abundância, vem a escassez.

E o amor em ódio se transforma.


As regras são arbitrárias.

Adaptar-se é a única escapatória.

Coabitar com as perdas, as doenças,

as condições extremas,

as condições herdadas,

as falsetas do destino,

aos erros crassos.

A falta de sorte.


Ao fim e ao cabo da excruciante jornada, 

vivos e mortos

passam da mesma forma.


   

 


                         um dia



Um dia você vai ver.

Um dia você vai saber.

Um dia você vai saber o que hoje não sabe.

Vai ver o que hoje não vê.

Um dia vai descobrir que quem

não sabe dar valor ao que tem,

corre o risco de ficar sem.


Você me tratou como peça fácil de substituir.

Alguém menor, cujo ausência não iria sentir.

Me subestimou, achando que eu era o elo fraco

de nossa relação.

Não hoje, talvez nem amanhã, mas um dia

a ficha vai cair.

Quando descobrir o vazio que plantou,

ao perder aquele que mais te amou.

Um dia...

Um dia...








 

 


                           a dor mais bonita



Vivendo e aprendendo.

As melhores coisas da vida são aquelas 

que não temos.

Porque depois que as temos,

deixam de ser.


Te quis mais do que tudo.

Lutei, me empenhei, me sacrifiquei.

Até conseguir.

Até descobrir que a realidade

sempre fica aquém das expectativas.

Você foi a melhor e a pior coisa

que me aconteceu.


Te quis mais do que tudo.

Até descobrir os teus podres.

Você foi meu céu e meu pedaço de inferno.

A pessoa que me fez mais feliz e infeliz.

Não sei se te odeio ou ainda tô te querendo. 

De tudo que vivi,

você é a dor mais bonita que já senti.












quarta-feira, 24 de junho de 2026


                                 mundo sem nexo


Tudo muda.

De repente, um a um,

os entes queridos se vão.

Num instante, tudo aquilo que se conhecia,

que se tinha, as coisas que fazia,

em que acreditava,

mudam para sempre.


É o drama recorrente da vida.

Perder tudo, à revelia do mundo sem nexo.

Ficando apenas traços imperfeitos no tempo.


Somos muitos e, no entanto, estamos sós.

Descartados, quando muito tolerados, 

já tendo cumprido seu papel.

Poucos têm a sorte de contar com o amor

incondicional.

Abandono, descaso,

a tudo estamos sujeitos,

quando os laços não são eternos.





                                                o vulcão


Houve, sim,

um tempo em que fui feliz. 

De repente, acordei velho.

Mas no espelho ainda vejo

um menino perdidão.

Que não só é feliz, como sabe.


O coração finalmente sossegou.

Já não berra.

Já não sangra.

Só quer paz.

A paz de quem se conhece melhor.

De quem não perdeu o gosto pela vida.

Apenas se aquietou.

Se feito um vulcão hibernando,

só o tempo dirá...



terça-feira, 23 de junho de 2026

 

                         um mundo

                   como

                   nunca houve


Nas diferentes eras,

das mais obscuros a atual revolução tecnológica,

impingir sofrimento e dor tem sido a sina

da humanidade.

Até aí, nada de novo.

Novidade seria o mundo ter mais paz, harmonia.

Que os povos se respeitassem e aprendessem a conviver

pacificamente.

Que os conflitos e discriminações cessassem,

que se depusessem as armas,

e as pessoas se irmanassem,

dividindo e somando,

para construir um mundo como nunca houve.





                                       

                                  conto do vigário



Na vida há vários caminhos.

De luzes e cruzes.

De rosas e espinhos.

Os prazeres passam, as dores 

e os dissabores ficam. 

O amor esconde os defeitos, enquanto 

nos põe algemas.

Quem nunca foi traído, não perde 

por esperar. Nem ganha.

O amor é um conto do vigário.

para o qual

nunca falta otário.



terça-feira, 16 de junho de 2026

 


                            meio sol, meio escuridão



Louve-se a perenidade das coisas sem nome.

O labor anônimo, o sacrifício velado às causas perdidas.

O bem que se faz apenas por fazer.

Bendito tudo que encanta, que alegra,

faz alguém sorrir.


Oxalá a vida fosse simples como repartir um pão,

para que cada um tivesse o seu quinhão,

e ao fim de cada dia, o aconchego de um lar

para apascentar o coração.


Mas não fomos feitos para viver

em paz e harmonia.

Expulso do Paraíso, perseguido por deuses 

desdenhosos,

nosso destino inglório é perseverar no erro.

Rodeados de desamparo, transmutando

como um camaleão. 

Meio sol, meio escuridão.



segunda-feira, 15 de junho de 2026


                        o avesso do amor



Dessa vez não nos abraçamos,

reconciliados,

como num melodrama barato.

Dessa vez não houve palavras de arrependimento,

nem o perdão perfeito.

Mas sim um silêncio honesto,

uma espécie de cansaço

do enredo de sempre.

Nenhum beijo na face, apenas 

o som da chave girando,

destrancando a porta que já estava

há muito aberta.


Aceitamos o fim sem o peso do drama

ou das promessas rasas.

Assumimos, enfim, que o amor também

cansa de tentar 

consertar o que já nasceu quebrado.

Dessa vez, sem o barulho de portas batendo,

nem mesmo tentativas de justificar o espaço

vazio que entre nós se formou.

Descobrimos, menos mal, que o avesso do amor

não é o ódio, 

apenas o silêncio eloquente

de quem não precisa mais justificar-se.

Nem tampouco explicar os motivos

de não ter dado certo.

O fim nem sempre precisa de culpas

e culpados.

É apenas o fim.








domingo, 14 de junho de 2026


                                       Tudo bem, faz parte




O trabalho cansa

O dinheiro nunca chega 

As relações pesam

As cobranças sufocam

As festas acabam

Os sonhos mudam

Tudo bem, faz parte.


A gente cai e se levanta

As certezas desabam

As feridas cicatrizam

A alma amadurece

O novo amanhece

O relógio não para.

Tudo bem, faz parte.


A vida se reinventa

O que realmente importa

Não são as conquistas e os fracassos

Mas o aprendizado que nos permite 

seguir em frente.

E a mão de quem caminha com a gente.







sábado, 13 de junho de 2026

                

               APAGA-TE DOS RADARES.


Explico-te...


Com a idade que tens, deves aprender a arte do desaparecimento estratégico.

Limpa o teu convés, muda de rumo e torna-te um fantasma para aqueles que não souberam valorizar a tua presença.

Eis a razão pela qual apagar-te dos radares é a jogada de mestre que vai salvar a tua vida.


1. A raridade cria o respeito, a omnipresença cria o desprezo.

Quando estás sempre lá, sempre disponível, sempre pronto a perdoar o pior em dois minutos, as pessoas habituam-se ao teu brilho.

Tornas-te como o ar que se respira:

Indispensável, mas totalmente invisível.

Já ninguém te agradece, pisam-te por hábito.

O leão não passa os dias a rugir para provar que existe. 

Ele isola-se.

É a sua reserva que cria o terror e o respeito.

Pára de alimentar a máquina. Desliga as notificações.

Não respondas mais às mensagens no segundo seguinte.

Recusa os convites de última hora. Retira o teu açúcar da vida deles.

Quando virem o vazio imenso que a tua ausência deixa, compreenderão finalmente o preço do teu valor.


2. Desaparecer sem discussões:  a obra-prima do silêncio.


A maioria das pessoas faz uma cena quando se vai embora.

Enviam um testamento de cinquenta linhas à meia-noite, bloqueiam, desbloqueiam, gritam a sua raiva.

Isso é criancice.

Ao fazeres isso, mostras à outra pessoa que ainda estás preso a ela, que a sua violência subtil conseguiu ferir-te.

Apaga-te sem estrondo, sem querelas. Não precisas de reunir um tribunal para justificar a tua partida.

Afasta-te na ponta dos pés. Num dia estás lá, no dia seguinte já não estás.

Sem ódio, sem censuras, apenas o vazio.

Esta é a punição mais destrutiva para o ego de um manipulador.


3. O jejum mediático: O teu corpo precisa de calma.


Porquê passar três horas por dia a olhar para a vida dos outros nos ecrãs?

Isto serve para fugir do silêncio.

Porque o silêncio obriga-te a olhar para as tuas próprias fissuras.

O teu corpo está a pagar as faturas que o teu espírito emitiu sem fundos.

Esse cansaço, esse estresse, esse nó no estômago... É a tua estrutura a gritar "basta".

Desaparece das redes durante um mês. 

Fecha as aplicações.

Utiliza esse tempo morto para te reconstruíres em segredo.

Lê, caminha, dorme, repara o teu navio longe dos olhares alheios.

Não se reconstrói um império sob os holofotes, edifica-se na sombra da noite.

Não confundas a retirada com a derrota. O pugilista recua um passo para melhor armar o soco.

Desaparecer não significa fugir, significa escolher as tuas batalhas.

É decretar que a tua energia é demasiado preciosa para ser atirada aos porcos.

Recupera as tuas chaves. 

Fecha a porta da tua intimidade.

Deixa-os procurar a tua sombra enquanto constróis a tua luz noutro lugar.

A grande limpeza da tua existência começa na escuridão do silêncio, e essa faxina começa hoje.


#storefront 

#Quentin 

#machado


sexta-feira, 12 de junho de 2026


                               a beleza da vida



De tudo e por tudo,

o esquecimento é uma benção.

Mesmo dos melhores dias, pouco ou quase nada

se retém.

Por melhor que tenha sido o passado,

o presente é o que há.

E em não sendo possível voltar no tempo,

só nos resta descobrir outros caminhos,

garimpar novos tesouros.

O sol sempre brilhará para quem tiver

olhos para ver.

Se tudo hoje parece vulgar e sem graça,

não culpe ninguém.

Para quem esqueceu de esquecer,

nada será satisfatório.

Muito menos o fato de que a beleza da vida

está justamente no imprevisto.

No provisório.











                         sentimentos


Maior é sempre a dor

de não saber

por que dói. 

Se não é por amor.

Se não é por desamor.

Afinal, por que dói ?


Nada é mais poderoso do que sentimentos

que procuram sentimentos.

Do sublime que consola e acalanta.

Do toque que inunda e remexe os sentidos.

Da compaixão que humaniza e aproxima as criaturas.

Da paixão que alucina e desencaminha.

Do amor gratuito e improvável.


Maior é sempre a dor

de não saber por que dói.

Se não é por amor

Senão é por desamor

Afinal, por que dói ?





quinta-feira, 4 de junho de 2026

 

                         a pasmaceira da vida


A pasmaceira da vida flui lenta e chata.

Acabando com sonhos e planos.

Expectativas sempre frustradas.

Acontecer algo de bom é um parto !


Os dias passam abrindo espaço para os inimigos.

A espera pelo que nos é devido é longa.

O que desejamos sempre nos escapa.

A beleza e a felicidade não passam de um acidente

de percurso.

As crenças são pedras de amolar facas cegas.

Libertar-se das crenças inúteis é o primeiro passo

para nos libertar

dos desejos inalcançáveis.


Os dias fluem lentos e chatos.

Agora que uma parede maior que o silêncio

entre nós se interpôs,

resignado,

despeço-me de todos os sonhos

de um tempo plural e ausente,

de quem desejou tantas coisas

sem saber

quanto custa

delas

se libertar.






                         amar é...


Convenhamos,

o amor é complicado,

doloroso,

assustador,

e às vezes, horrível.

Faz você se julgar,

duvidar de si mesmo.

Faz você mudar, te torna egoísta, obcecado,

estranho, diferente do que sempre foi.

Não é à toa que o amor precisa de um cúmplice.

É algo que todos queremos,  mas quando acontece, 

é como ir do céu ao inferno. 


Sempre acreditei que quando se cresce

cercado de amor,

é fácil encontrar alguém para compartilha-los. 

Mas não é bem assim.

Logo aprendemos que é preciso ser forte, 

ter sorte, para dar certo.

Amar não é para os fracos.

Porque o amor vai muito além da vontade,

da esperança.

Vai de desafiar a lógica, o bom senso.

Vai de acreditar que quando acontece,

nada pode ser mais lindo.

Enquanto dura.


É assim que me lembro dele.

Enquanto espero acontecer de novo.







 

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