AQUILO ( à moda Paulo Leminski ) Isso de querer ser aquilo que não é,
está aquém do que é.
aforismos revistos : quem espera, sempre dança.
terça-feira, 15 de janeiro de 2019
volteios
A vigília é permanente. Nada escapa ao escrutínio, a bisbilhotice alheia. Ninguém está a salvo de nada. Indiferente a tudo - bom senso, escrúpulos, comedimento - a histeria consumista impera. Há sempre algum bostinha famoso dizendo o que se deve ou não deve comprar, consumir. Com a autoridade de qualquer prostituta que dá para qualquer um por dinheiro. A enganação é a ordem do dia. Enganar, mentir, trapacear, o esporte mundial por excelência. O slogan do século sequer é original : me engana que eu gosto. O vigarista te engana. O amigo te engana. Os colegas, o chefe, a namorada, a mulher... A mídia te faz de otário o tempo todo. O banco fica com teu dinheiro, repassa a peso de ouro, e de quebra te presta um serviço de merda, com suas agências cada vez mais cheias e funcionários de menos. "O que a gente pode fazer por você hoje", tem a coragem de indagar um deles, e eu digo sem titubear : por mim, ir a PQP e parar de explorar a gente.Nesta ordem mesmo. Ia falar do governo mas deixa pra lá. Voto de confiança aos novos governantes. O derradeiro. Se esta turma não consertar o país, o último que apague a luz. Vivemos tempos estranhos. Todo mundo se conhece e se desconhece. O que se é por dentro é um assombro. Melhor ninguém saber. Mas como resistir aos apelos da era digital ? De exposição explícita e despudorada. O mundo se desnuda na maior cara dura. A Inquisição faria a festa ! Cadê o anjo exterminador de Sodoma e Gomorra ? Deus desistiu de nós. Também pudera, depois da barbárie medieval, o horror das duas grandes guerras mundiais, o holocausto, como perdoar ? Quantos Cristos teriam que morrer para perdoar tanta atrocidade ? Quantos Cristos não morrem todos os dias, para salvar inocentes, cordeiros do mundo ? Só loucos para ver poesia nesse mundo louco. Lunáticos metidos a entender a alma humana, a decifrar a beleza, o significado oculto das coisas. Poetas eruditos, herméticos, presunçosos, magnificamente ilegíveis. Uns chatos. Por que calcinar, ao invés de queimar ? Por que olvidar, e não simplesmente esquecer ? Fado, fulva, sovegna, ajaezados versos, o real e o fantástico mesclados com os imperativos de "ser e parecer". Ah, a pena de existir e a papoula dos sonhos. Ah, malditos metidos a nos humilhar com sua esmagadora cultura e erudição pernóstica. Escrever com a Encyclopaedia Britannica no colo.Volteios pela História, castelos no ar, enredos mirabolantes, que loucos ... Os deuses do Olimpo sequer existiram. Heroísmo, estoicismo, grandeza, tudo ficção. Na vida real, o buraco é mais embaixo. Sempre foi. Não há deuses, crenças que nos salvem. Salvação do quê ? Do fogo dos infernos, se o inferno é aqui ?
segunda-feira, 14 de janeiro de 2019
revelação
Em cada um de nós há segredos os quais a ninguém é dado conhecer, que nem no delírio da paixão se revelam, ainda que em meio a juras de amor eterno. O tempo passa e quando a aventura idílica se desfaz, e diante de nossos olhos, cegos até então, o preterido e o ignorado enfim se revelam a gélida face do amor consumido dirá : "Sou eu, a tua antiga consciência. Sou quem encontrou a porta escancarada e, no beiral da janela, na casa que de tantos foi, a coloquei - e depois me afastei na ponta dos pés". (adapt.A.A.)
domingo, 13 de janeiro de 2019
escapulário
Sei muito bem o que está em jogo. Não é hora de arrependimentos vãos. Meti-me em um grande buraco e dele hei de sair. Coragem não há de me faltar. Este livro hei de escrever até a última página. Sem direito a final feliz mas tudo bem. Trago em mim lembranças abençoadas - é o que me basta. De nossa última noite de amor, que não houve, me olvidei. Talvez eu já houvera morrido e não sabia. Afinal, tu me inventaste, e tu me destruíste. Eu estava murcho por dentro e agora és tu que carece de salvação. Que Deus ilumine teus passos e o mistério desse desenlace se reverta em triunfo. Que possas reencontrar a alegria perdida. Com os resquícios desse amor imortal que levaremos no peito, feito escapulário. Amor que amassamos, moemos, trituramos, até virar o pó que nos permitirá um dia reescrever essa história. Que mereça ser lembrada.
que a dor de quem de seu amor
hoje se despede, em resignação e força se transforme...
sábado, 12 de janeiro de 2019
REENCONTRO
Lento, flui o Guaíba dos meus sonhos, da infância longínqua que me sorri, zombeteira, como se o tempo não houvera passado. Breve miragem que logo se desfaz. Seis décadas me chamam de volta para casa. Minha alma pétrea não conseguiu matar a memória. Sou teu filho, no fundo continuo o mesmo. A ameaça da morte próxima já não me assusta, agora que aqui me reencontrei. Ao meu lado, os olhos de meu filho brilham. O abraço de meu irmão me conforta. Ainda quero colher as rosas deste jardim único. Rio Grande do Sul amado...