quarta-feira, 16 de janeiro de 2019



o que só tua vias


em ti 
eu via
o que eu não sou
o que eu tinha de melhor
o que estava além de mim
e que só tu sentias


um dia
quem diria ?
coube a ti
a despedida tardia

vai ver
porque o que eu sou
e só tu vias
não existia
era uma fria.










           AQUILO

( à moda Paulo Leminski )

Isso de querer ser aquilo que não é,
está aquém do que é. 


aforismos revistos :


quem espera, sempre dança.









terça-feira, 15 de janeiro de 2019




                              volteios





A vigília é permanente. Nada escapa ao escrutínio,  a bisbilhotice alheia. Ninguém está a salvo de nada. Indiferente a tudo - bom senso, escrúpulos, comedimento - a histeria consumista impera. Há sempre algum bostinha famoso dizendo o que se deve ou não deve comprar, consumir. Com a autoridade de qualquer prostituta que dá para qualquer um por dinheiro.
A enganação é a ordem do dia. Enganar, mentir, trapacear, 
o esporte mundial por excelência. O slogan do século sequer é original : me engana que eu gosto. O vigarista te engana. O amigo te engana. Os colegas, o chefe, a namorada, a mulher...

A mídia te faz de otário o tempo todo. O banco fica com teu dinheiro, repassa a peso de ouro, e de quebra te presta um serviço de merda, com suas agências cada vez mais cheias e funcionários de menos. "O que a gente pode fazer por você hoje", tem a coragem de indagar um deles, e eu digo sem titubear : por mim, ir a PQP e parar de explorar a gente.Nesta ordem mesmo.

Ia falar do governo mas deixa pra lá. Voto de confiança aos novos governantes. O derradeiro. Se esta turma não consertar o país, o último que apague a luz.

Vivemos tempos estranhos. Todo mundo se conhece e se desconhece. O que se é por dentro é um assombro. Melhor ninguém saber. Mas como resistir aos apelos da era digital ? De exposição explícita e despudorada. O mundo se desnuda na maior cara dura. A Inquisição faria a festa ! Cadê o anjo exterminador de Sodoma e Gomorra ? Deus desistiu de nós. Também pudera, depois da barbárie medieval, o horror das duas grandes guerras mundiais, o holocausto, como perdoar ? 
Quantos Cristos teriam que morrer para perdoar tanta atrocidade ? 
Quantos Cristos não morrem todos os dias, para salvar inocentes, cordeiros do mundo ? 

Só loucos para ver poesia nesse mundo louco. Lunáticos metidos a entender a alma humana, a decifrar a beleza, o significado oculto das coisas. Poetas eruditos, herméticos, presunçosos, magnificamente ilegíveis. Uns chatos.  
Por que calcinar, ao invés de queimar ?
Por que olvidar, e não simplesmente esquecer ?
Fado, fulva, sovegna, ajaezados versos, o real e o fantástico mesclados com os imperativos de "ser e parecer". 
Ah, a pena de existir e a papoula dos sonhos. 
Ah, malditos metidos a nos humilhar com sua esmagadora cultura e erudição pernóstica. Escrever com a Encyclopaedia Britannica no colo.Volteios pela História, castelos no ar, enredos mirabolantes, que loucos ... Os deuses do Olimpo sequer existiram. Heroísmo, estoicismo, grandeza, tudo ficção. Na vida real, o buraco é mais embaixo. Sempre foi. Não há deuses, crenças que nos salvem. Salvação do quê ? Do fogo dos infernos, se o inferno é aqui ? 





    



  

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019


                                              revelação   


     


Em cada um de nós há segredos
os quais a ninguém é dado conhecer,
que nem no delírio da paixão se revelam,
ainda que juras de amor eterno sejam proclamadas.

O tempo passa
e quando a aventura idílica se desfaz,
e diante de nossos olhos, cegos até então,
o preterido e o pressentido enfim se revelam
a gélida face do amor consumido dirá :
    "Sou eu, a tua antiga consciência.
Sou quem encontrou a porta escancarada
e, no beiral da janela,
na casa que de tantos foi,
a coloquei  
- e depois me afastei na ponta dos pés". (adapt.A.A.)

domingo, 13 de janeiro de 2019

                   

                   escapulário




Sei muito bem o que está em jogo.
Não é hora de arrependimentos vãos.
Meti-me em um grande buraco e dele hei de sair. 
Coragem não há de me faltar.
Este livro hei de escrever até a última página.
Sem direito a final feliz mas tudo bem.
Trago em mim lembranças abençoadas 
- é o que me basta.

De nossa última noite de amor, que não houve,
me olvidei.
Talvez eu já houvera morrido e não sabia.
Afinal, tu me inventaste,
e tu me destruíste.

Eu estava murcho por dentro e agora és tu 
que carece de salvação.
Que Deus ilumine teus passos
e o mistério desse desenlace se reverta em triunfo.
Que possas reencontrar a alegria perdida.
Com os resquícios desse amor imortal
que levaremos no peito, feito escapulário.
Amor que amassamos, moemos, trituramos,
até virar o pó que nos permitirá 
um dia
reescrever essa história.  
Que mereça ser lembrada.








que a dor de quem de seu amor 
hoje se despede,
em resignação e força se transforme...



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