segunda-feira, 21 de janeiro de 2019







O problema não é ficar velho, mas obsoleto.



 

            a falta que nos faz

Queria ver o mundo como tu o vês.
Sentir o que sentes,
A textura dos teus sonhos.
Entender o que se passa no teu íntimo,
Decifrar tua alma.
Que para mim permanece uma incógnita.

Vê, nosso amor tem raízes fundas
Feitas de beleza e sofrimento.
Se a nossa volta tudo desmorona,
Aquilo que foi grande e deslumbrante
Nunca morre.
Talvez ainda não te dês conta disso
E essa certeza já não tenhas.
Terás que descobrir sozinha,
Na gélida calma da ausência do amor,
A falta que tudo aquilo nos faz.
O quão incomensurável foi nossa perda.



sábado, 19 de janeiro de 2019


o bandido mais otário da face da terra



O sujeito trabalha, trabalha, 
trabalhou a vida inteira, 
mal ganha para o sustento.
Está sempre pendurado, devendo,
contando os trocados,
para dar conta do recado.
Nem assim é valorizado, nem assim é respeitado.
Pois tudo que faz é visto como obrigação.
Anos a fio labutando, 
faça frio, calor, sol ou chuva,
gripado, quebrado, abandonado, 
desestimulado, 
a mulher fria, o amor nem sombra do que
foi um dia. 
E eis que um belo dia, ela se diz cansada de tudo.
Que anseia por outra vida.
E o trouxa, que sempre correu atrás, arcou com tudo, 
acaba no olho da rua.
Retratado como marido ausente, pai relapso, mau caráter,
um bandido. 
Possivelmente, o bandido mais otário da face da terra.




  

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019




                       PENSATAS




Todos tem qualidades e defeitos. Virtudes e fraquezas. O problema é que a maioria não assume os podres.

O rico que tem apego demais ao dinheiro e não pratica a benemerência pode ser respeitado, mas nunca será amado.

O pedinte que faz da pobreza um pretexto para se fazer de coitadinho, não é pobre à toa.

O mundo deixou de ser confiável quando honestidade passou de obrigação à virtude.

A mulher que finge amar para manter as aparências e regalias não é melhor do que uma meretriz, que também é paga para fingir. Com a diferença de que a gente sabe.




                             musas




A musa só veste roupa de grife,

está sempre arrumada, pintada, 
as unhas impecáveis,
cabelos de todos os tipos, de todas as cores.
A musa está sempre com o Iphone
à tira-colo, para uma selfie
uma olhadela nas redes sociais.

São lindas, as musas, com suas caras e bocas.
Celebridades que fascinam, ocas de tudo.
Ganhar a vida não é problema para elas,
sempre há um patrocinador,
um otário para bancar as despesas.

E eu que sou do tempo 
em que as musas não eram apenas belas,
mas envoltas em apelos e mistérios,
inspirando canções e versos imortais, 
me pergunto, 
se ainda há algo que não tenha se convertido
à vulgaridade dos tempos atuais. 







quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

                     

                    fere a alma o grito-punhal




Num átimo percebi o que o Corvo quis dizer,
quando disse - nunca mais, nunca mais !
No negrume da noite vazia, no limiar da perda irreparável,
cujo propósito desponta apenas ao cumprir-se,
a visão insólita - anjo ou demônio em forma de ave preta. 
Das trevas emerge o juízo essencial e exato  : siga em frente, 
tarde se faz.
O bordão da desesperança não carece mais entoar.

Nada faz sentido, e tudo faz sentido.
Até o pássaro negro e agourento de Poe, expressão 
legítima de pesar.
Morte de toda uma vida, que era a vida que se tinha.
Bem-vivida e desperdiçada, cujo santuário diviso 
sobre o promontório dos dias ocos que se sucedem.
Horas plúmbeas que precedem o torvelinho do naufrágio.
O coro perpétuo do teu altruísmo, renúncia de si mesmo.

Adiante, em meus umbrais ninguém bate,
ninguém sussurra - nunca mais, nunca mais...
Hipóteses e conjecturas já não cabem, esgotado 
o tempo de libações.
Teu veredicto é fatal. Morte. Morte em vida.
Lancem-se à fogueira inquisitória todos os resquícios 
dos prazeres e pecados.
A alma liberta assim o exige. Culpa e expiação.
Para teu bem-estar, declaro-me culpado.
Aqui, passado e futuro se separaram. O presente 
é a terra prometida.
A mercê de forças desconhecidas, nós, ctônicos, livraremos 
a vida do jugo do tempo desperdiçado .
Fere a alma o grito-punhal :
- nunca mais, nunca mais !

Que o nostálgico pesar nos faça companhia.
Dias alciônicos serão o marco-zero de um novo rumo.
Não poderemos pensar "o passado passou", alheios
ao iracundo amor gestado 
como um grito de júbilo sobre a morte.
Quiçá ungido dessa impermanência que ultrapassa o tempo.
A súbita iluminação revivida, ao saber 
que os momentos de agonia acabaram.
Xô, Corvo, vá atazanar outro pobre diabo !
Ao sagrado fundamento que ora abjuramos, regressa.
A seu real proprietário -  a juventude perdida - bata à porta.
Enquanto apresto-me rumo à redenção, escavando 
as trilhas da penitência.
Ausente todo pesadume do passado
ao grasnar da ave estúpida :
- Nunca mais, nunca mais!


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