sábado, 4 de maio de 2019
melhor não saber
A triste, dura realidade :
somos enganados o tempo inteiro.
O tempo inteiro.
Por todo mundo.
Nas mínimas coisas.
Exceto pelas crianças.
Passamos a vida acreditando,
confiando, fazendo vistas grossas,
relevamos um monte de coisas.
Afinal, ninguém é perfeito.
Há enganos e enganos.
Mentiras e mentiras.
Que cada um enxerga de um jeito.
Lida de um jeito.
Levar à ferro e fogo é complicado.
Pode-se acabar sozinho.
E o que é pior : como vilão.
Porque as pessoas dificilmente assumem
seus erros.
Que erram.
Mea culpa é para os otários.
Altruísmo, só de fachada.
Num mundo de fachada.
Faz sentido : nesse pérfido contexto,
há coisas que nem é bom saber.
Muitas coisas.
Para não se machucar à toa.
Ficar ainda mais descrente de tudo e de todos.
Descobrir que foi traído.
Que mentiram pra você.
Que omitiram, esconderam coisas por anos.
Enxovalhando toda uma história.
Não, melhor não saber.
Dói menos.
Só não seja ingênuo
ou idiota de ainda por cima
assumir culpas indevidas.
De chorar por quem não merece.
De passar por tudo de novo.
quinta-feira, 2 de maio de 2019
o mundo não tem segredo
para os ignorantes
Onde se tornam erráticos os símbolos
que afetam tempo e espaço,
nascem os mitos.
Personagens migram para outros contextos,
outras paisagens.
Rompem o sistema,
as expectativas normais.
Um significado único para o que tem
vários significados, eis a sabedoria.
No emaranhado de símbolos em que vivemos,
novas figuras de retórica
articulam semioses naturais.
Capazes de "ver" o mal chegar.
O flagelo, por sinédoque. Por metonímia.
Delírios da razão.
Assim agem os personagens que conhecemos.
O paralinguístico, o supra-segmentar, o tonêmico,
Inflexões que nos distraem e mentem.
Na publicidade que ludibria.
No uso e abuso de artifícios,
Representações pictóricas, encenações.
Do qual não escapam nem as Sagradas Escrituras,
Irremediavelmente mutiladas após tantas
Transcrições e traduções,
Como aponta Santo Agostinho,
Em sua Doctrina Christiana.
Não obstante, o grande mundo pequeno se tornou.
Mais rico, mais desigual, com as mesmas dúvidas.
Nunca tão pobre em personagens, referências.
As mentes privilegiadas preocupadas apenas em enriquecer.
Montanhas de dinheiro que jamais serão
capazes de gastar,
enquanto milhões passam fome, perdem tudo,
na Síria, no Sudão, na Venezuela.
Sob o jugo de cruéis ditadores.
Nas periferias dos grandes centros urbanos,
o horror da violência em suas várias facetas.
Arremessam uma pedra em alguém suspeito
e a multidão investe, bestificada.
Rompe-se o frágil sistema de expectativas normais
e ninguém vê mais nada.
Onde se tornam erráticos os símbolos
que afetam tempo e espaço,
nascem os mitos.
Personagens migram para outros contextos,
outras paisagens.
Rompem o sistema,
as expectativas normais.
Um significado único para o que tem
vários significados, eis a sabedoria.
No emaranhado de símbolos em que vivemos,
novas figuras de retórica
articulam semioses naturais.
Capazes de "ver" o mal chegar.
O flagelo, por sinédoque. Por metonímia.
Delírios da razão.
Assim agem os personagens que conhecemos.
O paralinguístico, o supra-segmentar, o tonêmico,
Inflexões que nos distraem e mentem.
Na publicidade que ludibria.
No uso e abuso de artifícios,
Representações pictóricas, encenações.
Do qual não escapam nem as Sagradas Escrituras,
Irremediavelmente mutiladas após tantas
Transcrições e traduções,
Como aponta Santo Agostinho,
Em sua Doctrina Christiana.
Não obstante, o grande mundo pequeno se tornou.
Mais rico, mais desigual, com as mesmas dúvidas.
Nunca tão pobre em personagens, referências.
As mentes privilegiadas preocupadas apenas em enriquecer.
Montanhas de dinheiro que jamais serão
capazes de gastar,
enquanto milhões passam fome, perdem tudo,
na Síria, no Sudão, na Venezuela.
Sob o jugo de cruéis ditadores.
Nas periferias dos grandes centros urbanos,
o horror da violência em suas várias facetas.
Arremessam uma pedra em alguém suspeito
e a multidão investe, bestificada.
Rompe-se o frágil sistema de expectativas normais
e ninguém vê mais nada.
Foi assim com o Nazismo,
com o chavismo, o lulo-petismo.
E assim sempre será.
O mundo não tem segredos para os ignorantes.
com o chavismo, o lulo-petismo.
E assim sempre será.
O mundo não tem segredos para os ignorantes.
quarta-feira, 1 de maio de 2019
versões
"Naquela época", proseava o senhorzinho de ar
compungido,
curvado no balcão tradicionalmente ocupado
pelos pinguços da padaria,
"eu tinha pouco menos de 30 anos
e passava meu tempo mais trabalhando do que em casa.
Animava-me o afeto de minha mulher e de meus filhos.
Quando à noite, voltava cansado, fumava
um cachimbo de terracota,
que tratava de esconder para que os meninos não o pegassem.
Certa noite,
procuro pelo cachimbo no lugar de sempre
e não acho.
Chamo meu filho mais velho e pergunto : foi você
que pegou meu cachimbo ?"
"Não, pai, foi Ludovico que o pegou
E o escondeu debaixo da cama."
"Ludovico era o mais novo de meus filhos. Procuro
debaixo da cama e não encontro nada.
Volto a meu filho mais velho e vejo que remexe no bolso,
onde encontro o cachimbo em cacos.
Dei-lhe uns tabefes, e desde então
ele abandonou nossa casa,
e nunca mais voltou.
Nunca mais soube dele.
Nunca me conformei, nem pude entender
porque abandonou nossa casa por tão pouco.
Daria tudo para revê-lo antes de morrer."
O velho termina o relato com a voz embargada,
e enquanto sorve mais um gole,
um senhor louro oxigenado lhe dirige a palavra :
"Desculpe-me perguntar, não pude deixar
de ouvir sua história.
Seu filho por acaso era um rapazola maciço,
robusto, de tez morena ?"
'Nada disso. Era magro, esguio, quase pálido."
"Perdoe minha insistência, depois o senhor
há de compreender.
Tinha, quem sabe, cabelos negros, crespos,
puxados para trás ?"
"Não, tinha os cabelos lisos, ruivos, e os repartia no meio".
"Então, meu pai, já nem lembras direito de como eu era ?
Sou o teu filho, não me reconheces?", exclamou o louro de cabelos tingidos,
em meio a comoção geral no recinto.
"Meu filho ?
"Sim, seu filho.
Porém - acrescentou, se recompondo,
"não é totalmente exata a história que acabas de contar.
Em primeiro lugar, o que contaste
não aconteceu comigo
e sim com o mais novo.
Bateste nele, por supor que havia quebrado teu cachimbo.
Depois, quando intercedi, defendendo-o,
me bateste também, ignorando que o senhor próprio
havia quebrado o cachimbo na noite anterior,
numa de suas bebedeiras. Tinha-o no bolso
porque tentei consertá-lo, mas não consegui.
Meu pai, a verdade é que nunca fostes um bom pai.
Trabalhavas muito, é verdade,
mas bebia muito e batia em nós, e em nossa mãe.
Por isso fui embora, todos foram embora,
e acabaste sozinho.
Enfim, espanta-me ouvi-lo espalhar uma versão
que em nada condiz com o que aconteceu.
Mas se isso o consola, fique em paz, meu pai."
* Adaptado do ensaio "Entre a Mentira e a Ironia",
de Umberto Eco.
terça-feira, 30 de abril de 2019
o fim dos tempos
1.
Numa simples telinha, o real e o virtual se misturam
em alentada algaravia.
O mundo moderno não distingue o certo do errado.
Sob crenças disseminadas por vis mentores,
canalhas beatificados, cabras da peste,
bestas empanzinadas.
O juízo final a cada dia, no noticiário da noite.
O Criador à mercê da criatura.
bestas empanzinadas.
O juízo final a cada dia, no noticiário da noite.
O Criador à mercê da criatura.
2.
O mundo imperfeito soçobra em bytes e gigas.
Os bons em minoria, passando por idiotas.
Crenças aviltadas em prazeres materiais,
na prevaricação on line, nos tribunais populares e oficiais.
O Diabo nunca foi tão poderoso.
À tiracolo, a um deslizar dos dedos,
o inferno à la carte.
O mundo imperfeito soçobra em bytes e gigas.
Os bons em minoria, passando por idiotas.
Crenças aviltadas em prazeres materiais,
na prevaricação on line, nos tribunais populares e oficiais.
O Diabo nunca foi tão poderoso.
À tiracolo, a um deslizar dos dedos,
o inferno à la carte.
3.
Gente proliferando feito baratas,
incapazes de pensar, em manadas virtuais se transformam.
A droga da vida imersa nas drogas.
Ah, sim, Deus a tudo perdoa.
Desde que não esqueçam do dízimo.
Que pode ser pago no débito ou no boleto.
A indústria da autoajuda de vento em popa.
Atacando em todas as frentes. Espertalhões engajados
na doce vida de enganar os outros.
Trouxas é o que não faltam.
Mais fácil do que roubar doce de criança.
Gente proliferando feito baratas,
incapazes de pensar, em manadas virtuais se transformam.
A droga da vida imersa nas drogas.
Ah, sim, Deus a tudo perdoa.
Desde que não esqueçam do dízimo.
Que pode ser pago no débito ou no boleto.
A indústria da autoajuda de vento em popa.
Atacando em todas as frentes. Espertalhões engajados
na doce vida de enganar os outros.
Trouxas é o que não faltam.
Mais fácil do que roubar doce de criança.
O ridículo, a vergonha, banidos do dicionário.
4.
Difícil dizer o que é normal
num mundo em que tudo é normal.
Mundo decrépito, ancião de 4,5 bilhões de anos,
lapso de tempo na cronologia espacial,
em que ainda se questiona se Deus existe ou não.
Quero acreditar que sim, mas tudo indica que não.
Por via das dúvidas, rezo feito um condenado.
Nada tenho a perder, perdido como já estou,
em meio a esbórnia reinante.
Difícil dizer o que é normal
num mundo em que tudo é normal.
Mundo decrépito, ancião de 4,5 bilhões de anos,
lapso de tempo na cronologia espacial,
em que ainda se questiona se Deus existe ou não.
Quero acreditar que sim, mas tudo indica que não.
Por via das dúvidas, rezo feito um condenado.
Nada tenho a perder, perdido como já estou,
em meio a esbórnia reinante.
Do tempo de cal e desprezo me despeço.
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