domingo, 5 de maio de 2019

                               

                                         rabiscos






risco, rabisco
escrevo, reescrevo
faço, desfaço, refaço
crio, destruo, recrio
nego, renego, perdoo
amo, desamo
me envolvo, me esgueiro, 
me escondo.
te quero, te afasto
me entrego, me recolho
credo !
onde vou parar desse jeito ?
ela lá, eu aqui
o que nos separa ?
nada ? 
tudo ?
peixe abissal
no escuro tateio
meus medos escamoteio
de forte me faço
em ninguém confio
pois se creio, quebro a cara
a cruz que carrego não é sequer uma cruz.
é o afeto sonegado
a vida que passa
em dias iguais
de remorsos, amores passageiros
amores traiçoeiros
o começo e o fim entrelaçados
ora, meu amor, no que me concerne
não passas de um pedaço 
atraente de carne.



                        


     porque não fomos escolhidos






Porque não fomos escolhidos, 
vivendo entre poucas luzes.
Presos à antigos medos, limitações.
Nada podendo aspirar, 
senão aos infortúnios driblar.

Porque não fomos escolhidos,
vivemos à perguntar.
Sem obter respostas.
Nascidos sem talentos, 
em busca do que não somos.
Vendendo a alma ao Diabo.
Porque não fomos escolhidos.






                      previsão do tempo


A previsão do tempo disse que ia fazer sol,
porém o sol não apareceu.
O céu ficou cinza, e meu dia escureceu.
Pois é, ela não apareceu.
Mais uma vez me deu um chapéu,
de mim escarneceu. 
Tem prazer em me fazer sofrer.
Deu a desculpa de que lá choveu.

Por estas e outras, 
na previsão do tempo 
não confio mais...


   






                        JUÍZO FINAL


Ontem : sol, festa, alegria.
Hoje : chuva, lodo, depressão.
Ontem : fé, sonhos, esperança.
Hoje : total e irredimível descrença
no ser humano.

Mentirosos, trapaceiros, trambiqueiros,
degenerados de toda espécie,
de todos as etnias, credos, sexos.
Há que exaltá-los. 
Eu vos saúdo. 
Vocês venceram. 
Sois o substrato da humanidade.
O húmus, o sumos, a essência
de tudo que aí está. 

Sois a raça dominante. 
Nada mais importa.
Os fracos, os crentes, os honestos,
subjugados estão. 
Ludibriados, manietados, confrangidos,
humilhados, espezinhados, 
derrotados em todas as frentes.

No trabalho, na família, no amor. 
Nas relações deterioradas. 
Nos pactos rompidos.
Explorados, enganados, injustiçados,
Cordeiros de Deus que pagam pelos
pecados do mundo. 
À espera do Juízo Final que não chega.



  


  



sábado, 4 de maio de 2019


                 

                    de volta à realidade



Luminosa e límpida manhã,
convite irresistível para sair da toca,
esticar as pernas,
respirar, 
reconciliar-se com a vida,
com os prazeres simples e belos
que a Natureza proporciona.

Como essa luminosa e límpida manhã outonal
em que caminho pela inigualável orla santista,
quando ainda há pouco movimento,
mais pássaros do que gente,
bentivis, joões de barro, rolinhas,
uma infinidade de pombos voando pra lá e pra cá.
Na areia da praia alguns urubus se banqueteiam 
com o rescaldo da maré,
enquanto as máquinas não chegam 
para retirar o entulho que todo santo dia
se acumula na mesma areia 
em que nossas crianças brincam. Foda, né ?

Montanhas de lixo que o ser humano é pródigo
em produzir
e nem se dá ao trabalho de coletar.
Menos mal que a merda dos cachorros a maioria junta,
recolhendo em plásticos que depois
jogam nas lixeiras, e daí aos lixões, 
e dos lixões ao lençol freático, 
aos rios, aos mananciais de água,
melhor nem pensar mais nisso
para não estragar meu passeio, 
para não pensar em outros absurdos,
na incúria humana. 
Na mortandade dos peixes pela poluição do mar,
por exemplo. 
Esse mar que tudo de bom nos proporciona,
aos poucos envenenado, espécies ameaçadas de extinção,
sem falar na pesca predatória, abusiva, 
outro dia 
uma tartaruga rara apareceu morta aqui na praia,
com uma linha de pesca enrolada no pescoço. 
Sacanagem.
Nem os temíveis tubarões escapam da mortandade,
e com requintes de crueldade, 
capturados pela chinesada 
apenas por causa das barbatanas. 
Deviam cortar os colhões dessa gente e jogar aos porcos.
Aliás, os colhões e os próprios. 
Pronto, 
Fodeu, foi só deixar o pensamento voar
e azedou o dia.
De volta pra casa,
De volta à realidade.






   

            melhor não saber


A triste, dura realidade :
somos enganados o tempo inteiro.
O tempo inteiro.
Por todo mundo.
Nas mínimas coisas.
Exceto pelas crianças.

Passamos a vida acreditando, 
confiando, fazendo vistas grossas,
relevamos um monte de coisas.
Afinal, ninguém é perfeito.
Há enganos e enganos.
Mentiras e mentiras.
Que cada um enxerga de um jeito.
Lida de um jeito.
Levar à ferro e fogo é complicado.
Pode-se acabar sozinho.
E o que é pior : como vilão.
Porque as pessoas dificilmente assumem
seus erros.
Que erram.
Mea culpa é para os otários.
Altruísmo, só de fachada.
Num mundo de fachada.

Faz sentido : nesse pérfido contexto,
há coisas que nem é bom saber.
Muitas coisas.
Para não se machucar à toa.
Ficar ainda mais descrente de tudo e de todos.
Descobrir que foi traído.
Que mentiram pra você.
Que omitiram, esconderam coisas por anos.
Enxovalhando toda uma história.

Não, melhor não saber.
Dói menos. 
Só não seja ingênuo
ou idiota de ainda por cima
assumir culpas indevidas.
De chorar por quem não merece.
De passar por tudo de novo.





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