lutas
Há lutas que não se ganha.
E há lutas que se ganha sem se lutar.
Contra sentimentos não correspondidos.
Contra a rejeição que te mata aos poucos.
Lutas que não vale a pena lutar.
ingênuo enleio
As coisas que passam, não passam,
quando não se bastam.
O pesar do que o coração quis e não teve.
Ingênuo enleio que freme e agoniza.
Tu, que já não estás comigo e sequer conheci o íntimo.
No pensamento, ainda te vejo, nua e bela, nos meus braços.
Dói-me saber que nunca mais a terei.
Lembranças que passam mas não passam,
vergastam o meu viver.
despojos
Nada me prende a nada.
No entanto, a tudo me obrigo.
Em solene reverência às graças recebidas.
Ao pão nosso de cada dia.
Ao teto que nunca me faltou.
Aos afetos, e até desafetos, que tanto me ensinaram.
Sou grato mesmo a ti, ó, musa infiel,
dona de meus pensamentos e desencantos.
Meu mundo é feito de lápides.
Tudo o que valeu a pena ficou para trás.
Já não pertenço a este plano sombrio.
O tempo que engendra a vida
é o mesmo que engendra a morte.
Cumpre, apenas, aceitar.
Entretido em recolher os despojos.
Em meio aos quais ainda vicejam
desejos que desfruto,
à míngua do amor que me foi denegado.
a miséria de viver
Alegrias e tristezas. Verdades e mentiras.
Certezas e dúvidas.
Temos ideias e razões, mas nunca
chegamos ao âmago das coisas.
Que tudo na vida
tem um lado bom e outro mau.
E as leis universais são fruto do mais trágico.
Nunca conhecemos a vida que a vida oculta.
Vivemos na deslembrança do que perdemos,
do pesar de não ser o que poderia ter sido.
O espírito acorrentado a um infinito remorso, adoece.
A vida adoece.
A miséria de viver é a única certeza que permanece.
urgência de viver
Meu amor é assim,
alucinado, destrambelhado.
Não tente entender.
Tenho urgência de viver.
Não tenho mais nada a perder.
Há quem diga que a magia do amor
acaba logo,
tão logo a paixão arrefece,
mas o improvável também acontece.
Quando algo maior prevalece.
Há que acreditar,
se empenhar, não desanimar.
O amor alucinado, destrambelhado,
pode até não vingar,
como o meu não vingou.
Mas nada foi melhor, mais gratificante,
enquanto durou.
a quem interessar possa
Poucos de nós somos capazes de reconhecer
os próprios erros. Assumir culpas e responsabilidades
por atos que não só prejudicam
mas inviabilizam as relações arduamente costuradas
ao longo dessa grande colcha de retalhos
que é a vida.
Poucos são os que conseguem olhar para além
do próprio umbigo, deixar o egoísmo
e as mesquinharias de lado, e sobretudo,
colocar-se no lugar dos outros, para melhor
entendê-las, ampará-las, partilhar de suas dores e
problemas.
Em suma, pouquíssimos de nós correspondem ao
elevado conceito que fazemos
de nós mesmos. Conceitos estes naturalmente
moldados por ideais e premissas deformadas
pelo próprio meio ambiente em que estamos
inseridos. Ou seja, pelo que nos é incutido
em casa e na rua.
Nesse contexto distópico, o conflito entre o que
temos, o que somos, e poderíamos ter sido,
permanece como uma abstração
que nos sonega a percepção de que a felicidade
está nas coisas mais simples.
De que estar de bem consigo próprio e com a vida,
é a maior das conquistas.
(agosto/2016)
romance sem filtro Não é sobre ser educada e culta. Não é ser carinhosa, compreensiva. Tem a ver com coisas ...