domingo, 15 de agosto de 2021




                      o timoneiro





Ensaio hoje o meu schwanengesang.

Áugure da efemeridade das coisas.

Na plenitude e esgar dos sonhos. 

Paradoxalmente, nunca tão só.

No epílogo da rematada jornada.

Porém, com largas compensações.

Nunca tão lúcido.

Nunca tão despojado dos entulhos que acumulamos

 ao longo da vida. 


Acima de tudo, o coração alto e doce impera.

Uma resignação madura bate a terra dura

com o casco das coisas humildes.

Fiquei muito aquém do que podia, 

mas não naufraguei.

Tendo Deus como timoneiro, "não sou eu quem 

me navega,

quem me navega é o mar."

 

(O Timoneiro/Paulinho da Viola)






quinta-feira, 12 de agosto de 2021




            o cotidiano báratro



Há abundância de mentira e fome no mundo.

De solidão e arrependimento.

Tiranos no poder, como sempre.

Pranto de crianças em todo canto.

Há abismos, súplicas, vociferações por toda parte. 

Ausências, sortilégios, suicídios entretecem 

o cotidiano báratro.

Bárbaros dirigem automóveis, mimam os filhos,

paparicam os cães de estimação, 

e põem os pais no asilo.

O Inferno de Dante é aqui.

 










 

quarta-feira, 11 de agosto de 2021



                      hora marcada



Sou um homem já sem venturas e pesares.

Que espera e sonha

Com flores de cera sobre o mármore.

O campo está arado e as uvas, maduras.

A eternidade me espera na encruzilhada das estrelas.

Sob o elmo quimérico e irascível, o eterno inimigo

Do absoluto mede o tempo.

Estamos em paz : na desabitada vida, 

Anseio pela hora marcada. 





 

quinta-feira, 5 de agosto de 2021



peçonha







Não é a palavra ferina

que provoca as piores feridas.

Mais perigosos são os que posam de honestos,

que ocultam sua peçonha 

em virtuosos gestos.


  

quarta-feira, 4 de agosto de 2021





                  desejos





Tudo o que eu quero da vida

É o que a vida já não pode dar

Os arroubos da juventude

Os amores imaturos

E até os desejos impuros

Principalmente estes.



 

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