terça-feira, 5 de outubro de 2021



   

           quase não sou mais eu




                  

Quase não sou mais eu. A medida que o tempo 

avança feroz sobre mim,

o distanciamento se expande 

como matéria de conhecimento e expiação.

A solidão enlaça-me com a ternura de uma anaconda.

Vivo como um soldado que perdeu a batalha,

preso à memória do homem que fui um dia.

O amor que persiste em mim é a grade

de meu cárcere. 

Fonte de toda angústia e melancolia

que movem os teares de minha entressonhada

mortalha.

É tempo de sacrificar o cordeiro redentor,

fazer por merecer 

o mundo lavado de todas as infâmias.

Arrasto minha cruz comprada no cartão de crédito.









 

segunda-feira, 4 de outubro de 2021



                      antiuniverso





Dias rotundos retroagem 

à carapaça iracunda que divide a terra 

entre o humano e a besta.

Densas catástrofes anunciadas 

se expandem

nas arcadas vilipendiadas, 

em que a raça espúria se esgueira, 

entre sangue e ossadas.


Promontórios devassados, pontes tombadas, 

soerguem enigmas unidos a dor e ao prazer. 

Nascidos, provisoriamente, em ventres ungidos

na beatitude de sociopatas e genocidas.


O antiuniverso em franca expansão açambarca 

a dor e o prazer.

Novos braços se abraçam. 

Ao pecador previamente perdoado, tudo é permitido.

Queira o Senhor ou não.



  

sexta-feira, 1 de outubro de 2021




               a espera do que não virá



Não virá o dia com que sonhava,

isso eu sei.

Como sei que nada mudará o fato

de que continuarei esperando

pelo dia 

que não virá. 






                           a vida real



nos guetos

nas favelas

nos asilos

é onde se vive

a vida real

sem glamour

adulterada

nauseabunda

em que morrer

é o melhor 

que pode acontecer.






segunda-feira, 27 de setembro de 2021




Nada existe nada

fora do mercado de consumo.

Ou somos 

consumidores ou insumos.


 




Nada é por acaso.

Nem o acaso.

Cada caso é um caso.

Se tudo der certo

eu nunca mais caso.



                    O homenzarrão desfila

                    com seu minúsculo cachorro.

             A moça magricela se deixa arrastar

             pelo cão tamanho de um cavalo.

             O ser humano às vezes é patético.


Quando nasci, Deus disse :

este vai precisar 

de um anjo da guarda daqueles !


             Entre o dente e o palito

             estabeleceu-se um conflito.

             Nada bonito.







                     



             



quarta-feira, 22 de setembro de 2021




                         as razões do tarado






Sua presença, diria, avassaladora,

despertou em mim, a um só tempo,

os melhores e os piores instintos.

Quando entrou no elevador,

recém saída do banho - via-se pelos cabelos 

cacheados ainda molhados,

o bico dos seios quase furando a blusinha tipo

tomara-que-caia, 

bermuda e sandália daquelas de usar em casa,

o cheiro de sabonete de endoidecer,

e em que pese meu visível alvoroço,

meu coração disparar, 

e ela

sequer me olhar, 

reparar na minha presença,

mesmo sendo só eu e ela no maldito cubículo,

no qual não tirou os olhos do maldito celular, 

foi aí 

que entendi 

as razões do tarado. 

 






  

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