terça-feira, 14 de dezembro de 2021




                   às vezes a vida é só o que é


Gravura de Salvador Dali



Às vezes a vida é só o que é.

De indescritível horror. Na violência implícita

e explícita do dia-a-dia. No drama silencioso de cada um.


                "Quando eu era pequeno, ia pelo calçadão no sol, sem

                 chinelo, com medo de ser roubado, nas horas de folga,

                 ia com minha prancha no alfalto quente, 

                 e trabalhava pesado com 10 anos de idade, e completei

                 os estudos, e cuidei das minhas irmãs, e ainda treinava

                 musculação, fazia surfe, hoje em dia levanto

                 a traseira (sic) de uma ambulância, tomo remédios

                 fortes, e agora sou normal.


                 Eu bati a cabeça num fusca com 5 anos de idade,

                 a culpa não foi minha, 60 quilômetros 

                 por 20 de bicicleta, calcula, perdi parte da massa

                 cefálica (sic), e não tem cura."


Às vezes a vida é só o que é.


  * Depoimento de Cesario Parada Neto Parada em sua página no Facebook.


 

domingo, 12 de dezembro de 2021


                          tarde ontológica 





 


Envolta em angustiante quietude,

a tarde ontológica

esconde desejos prementes,

desde sempre pendentes,

renitentemente ausentes. 


Nada muito urgente,

nem extravagante,

diria até pouco inteligente.

Apenas o grito pungente

de um ser carente, reagente,

dependente daquilo que a gente

mais finge que sente

do que sente.


Honestamente ?

Tudo pode esperar.

A verdade dos supremos desconsolos.

A espera que aclara os sofrimentos.

A repulsa moral.

A esperança que não tenho.

Tudo pode esperar.

Tudo e nada que compõe 

o pouco e o demasiado.

A falta e o excesso.


Ora, um poema não precisa ser um poema.

Apenas um ato-falho.

O halo.

O talo.

O hipotálamo.

Mais bucólico que 

um hipopótamo 

tomando sol

na tarde ontológica.











 

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021




                     água dura em pedra mole





Há dias em que as horas desaparecem na brancura,

e os desertos ásperos do esquecimento trituram

ossos, estrelas, os próprios enganos.

Para, enfim, conduzir-me para além dos erros,

enquanto o coração derrete.


Sou eu mesmo, agora. 

O que posso dar de mim nem sei se é amor.

Poderia ser mas não faz mais diferença. 

O que eu sou é onde estou, 

vi o chão molhado de enredos oníricos e me afastei.

O que sobrou : pensamentos que vagueiam

como singelo arroio entre as duras rochas.

Sou água dura em pedra mole.






    

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021




                            sinopse





Calmaria.

Saudades da Maria.

Passou na minha vida

Feito uma ventania.


               Tristeza

                      dispensa

                      destreza.


Certezas.

Há que conhecer

suas sutilezas.


               Feliz é o beija-flor.

               Íntimo de todas as flores. 


       Do amor já fui escravo

       Hoje sou feitor.




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