domingo, 23 de janeiro de 2022


                                     penhores






             Dos versos que escrevi para essa desalmada,

             o que mais me dói 

             é ela não ter entendido nada.


Nada mais justo que te esqueças de mim.

Nada lamento, fiz por merecer.


           Antes de partir, 

           só me faço um favor :

           me restitua o amor 

           que te dei em penhor.


Poucas coisas resistem ao tempo.

Sobretudo, aquilo que não é nosso.

Afetos, amores presumidos.








                    quarentena 






Queria escrever um poema

Que não fosse de anátemas

Que tivesse o amor como tema

Mas, oh, que pena !

Meu coração continua de quarentena. 




sexta-feira, 21 de janeiro de 2022




                 errar é humano





Como tudo na vida,

erros existem para serem cometidos.

Afinal, é errando que se aprende.

Se por bem ou na marra, a escolha é sua.





                            

                     a realidade extraviada 



                                                                        gravura de Salvador Dali


Deixei-me nascer de novo.

Venho de caminhar por eras de cifras e marcos

que me legaram, por assim dizer,

três vidas em uma.

A memória sobranceira desapegou-se

das antigas diegeses.

E de tudo desaprendido - dúvidas, desejos,

paixões -, abraço essa realidade extraviada

como um presente inesperado.


Agora podem me ver como realmente sou.

Nem feliz, nem triste,

posto que despojado de tudo 

o que me alegrava e me tolhia.

E, quase póstumo, me permito

viver como nunca consegui.









 


 

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022


                                         às margens do nada






Aqui termina essa viagem em que tudo é cansaço

e abandono.

A distância entre as coisas, nos dias de todos,

o que resta, senão, aceitar ?

Às margens do nada, as nuvens ignoram a verdade

desconcertante.

É tarde, cumpro o percurso que me redime ou me cega.

Fui aquele que preferiu contemporizar à dor.

Em todas as coisas aniquiladas, a precisão da punição

injusta se apega a tudo que não existe mais.

Enquanto a vida sangra sem qualquer esperança,

como uma fera mortalmente ferida.


 



Por que escrevo ?

Talvez para tentar decifrar

aquilo que me foge à compreensão.

Talvez para disfarçar minha ignorância.

Talvez para dar vazão ao eterno desassossego da alma.

Talvez escreva, simplesmente, para aliviar 

minhas culpas.  



terça-feira, 18 de janeiro de 2022

                                 aprendizado





O que eu descobri depois que te perdi :

Que hoje sou capaz de amar como se deve amar.

Que os dias sem você podem ser mais calmos e tranquilos,

mas nunca plenos.

Que a sabedoria chega quando já é tarde. 

Que o melhor do amor não é o que vivi,

mas o que faltou viver.

Que só porque não te amei do jeito que você quis, 

não significa que não te amei de verdade.

Que nunca me senti tão próximo de você, depois que

te perdi.

Que precisei passar pelo que passei, para valorizar

o que a gente tinha.

Que precisei te perder para ser uma pessoa melhor.

Que para encontrar paz, precisei fazer um pacto

com a solidão.

Que a força invencível que me permitiu superar 

os desgostos 

reside na memória das coisas boas

que tivemos. 

Que foram muitas.






 


 

Postagem em destaque

                                            da calmaria ao tormento Cedo ou tarde, os dias de tormento chegam. E não há nada que se possa fa...