sábado, 12 de fevereiro de 2022


         O que eu ainda quero




Da vida,

quero tudo que ainda me é permitido.  

O querer legitimado pelo merecimento.

E acima de tudo, 

o que ela me deu e tirou.



quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022





                 o número mágico





Tantas conexões, vínculos, eventos, 

e no fim das contas, o que sobrevive a voragem

do tempo ?

Afinal, qual o número mágico, quantos afetos

verdadeiramente sobrevivem  à inescrutável jornada ?  

Dê-se por feliz, amigo, se meia dúzia de corações

partidos 

chorarem lágrimas de dor e de sangue

em seu velório.

Pois é fato que mal o corpo baixou à cova

e você já é passado.

Nem de levar flores à seu túmulo lembrarão.


Normal. É a vida.

Não faça drama nem se sinta melindrado.

Porque chega a ser hilário.

A começar pelo exagero das referências elogiosas

normalmente ditas ao pé do caixão,

em você sabendo o tanto que aprontou, traiu,

sacaneou.

Depois, porque quando você se for, tudo acabar,

os segredos serão o de menos.

No mundo dos espíritos todos podem se ver

como são, o que pensam, sentem,

provavelmente até o que aprontaram.

E nada fará diferença.

O mundo continuará girando da mesma forma.

Mundo em que a priori, ninguém é melhor do que

ninguém.

Desde o útero materno, tudo na vida é circunstancial.

Não faço ideia dos critérios vigentes, tal a

balbúrdia reinante.

Talvez nem Deus saiba.

Mas quem somos nós para julgar ?

Nossa punição não carece de juízo final ou

do fogo dos infernos. Aqui se faz, aqui se paga.

Tudo se resolve aqui.

Feliz de quem usufrui de seu quinhão

com a devida sabedoria. 

Pois é só o que torna o tal número mágico

a medida certa de sua obra. 




 










 





 


 

  







 




 

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022


                                                  hipótese de mim 






Já não sei cantar o mundo que tudo me permitia.

Posto que hoje até a sanidade me custa manter.

Sou uma hipótese de mim mesmo.

Invenção sucessiva de fingidas cosmogonias.

Em meio ao desperdício e à abundância, a mercenária

vida poupa apenas o sonho não sonhado.

Minha vida é uma hipótese não formulada.

Reservo-me o direito de inventar

o que eu quero ser.


 

domingo, 6 de fevereiro de 2022


 

                         poeminha à toque de caixa



                       tela de Salvador Dali


eu só quero ter alguém

que me queira também

sem querer nada além

do que eu posso dar.


alguém que não só me queira bem

mas me inspire a ser

melhor do que sou.

alguém que me ensine

o que é o verdadeiro amor.




                           

sábado, 5 de fevereiro de 2022



                será amor ?


Faça chuva ou faça sol

Aconteça o que acontecer

Estou sempre querendo te ver

Sempre e de novo

Sempre e de novo... 







                           solilóquios


                                 tela de Salvador Dali


Tudo passa tão rápido

muda tão rápido

que o hoje nem aconteceu

e já é ontem.


                  Não se interessava por futebol

                                                       política

                                                       religão.

                  E sobre o resto, não tinha opinião formada.


Diante de tudo o que vem acontecendo,

palavra,

não acredito nem vendo.


                  Um gato 

                  pulou o muro

                  sumiu no escuro.

                  Tardo.


Meu palpite é que isso ainda vai dar merda.

(o papel-higiênico para a privada)


                 Nada será como antes.

                 Nem antes nem depois.


Honrarás o teu pai e tua mãe.

O resto é secundário.


                Prometer e não cumprir.

                Deveria dar cadeia.


Nunca leve juras de amor à sério.

Como levar á sério 

o que não tem critério ?


               A carne é fraca.

               E cara !


Curioso : assim que as luzes se apagam

                ficamos no escuro.


              A vida se resolve por si só.

              Às vezes com um empurrãozinho.




quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022



                   é preciso que o encanto nunca cesse





Cada dia, ao longo do turbilhão das coisas tortas,

golpeia a vida.

Inflama as chagas de nosso inferno particular. 

Inquilinos de espedaçadas esperanças,

só o que nos salva 

é ter algo para edificar, pelo que lutar. 

Antes que nada mais faça diferença.

Até que o irremediável aconteça. 


É preciso que o encanto nunca cesse. 

É preciso crescer ao contrário. Crer ao contrário, 

depor as ideais pré-concebidas. 

É preciso prescindir de representantes, intermediários,

mensageiros para enfim conhecer a verdade.

É preciso fugir das redes, das malhas, das armadilhas

reais e virtuais.

É preciso ver Deus onde Ele não exista, expulsando 

os demônios que se passam por Ele. 

É preciso suportar o mundo sem fazer concessões, 

sacrificando tudo, menos a dignidade.

É preciso ser amável, prestativo, humilde, sem ser

subserviente.

É preciso ser forte, destemido, altivo sem ser arrogante.

E, sobretudo, é preciso nunca se dar por vencido, 

para que a vida faça sentido. 

Mesmo o amor eventualmente perdido.


No tempo ligeiro é preciso ser certeiro. 

Pois tudo o que se guarda acaba perdido ou adulterado, 

em ardilosos labirintos. 

Altas virtudes e vícios postiços embutem cínicos delitos.

Como vinhos da mesma pipa.

Argumentos e pensamentos embebidos de insidiosas artimanhas, 

engendrados em silenciosa e obstinada salmodia. 

Matanças indiscriminadas, passatempos banais,

eis a terra prometida.

Eis a herança. 

Saber e ignorância nivelados na dúbia face de estoicismo

e desespero.

Pois uns aos outros amamos e desprezamos com o mesmo fervor. 

A remissão dos males e dos pecados 

começa pela humildade. 

Escuta o silêncio. Afasta os maus pensamentos. 

Tire os sapatos e caminhe descalço até ferir os pés, 

e na dor se humanize.

Desate os nós, e estreite os laços.

Livre-se dos jugos, lavre novos tratos.

Honre os compromissos, mas sem neuras.

É preciso deixar de se preocupar  com tolices, 

com coisas que não pode resolver. 

É preciso apreciar o frescor dos dias inúteis, 

em que nada e tudo acontece.

Valorizar os árduos e ardentes elos.

Antes que tudo se resuma a ludibriar o tempo.

Para que não chegue ao precário fim prescrito, 

proscrito, sem um legado, como se não tivesse existido.

Incógnito como um rio subterrâneo, 

sem nascente nem foz.







 

Postagem em destaque

                                         roteiro mal-escrito Vai a luz, fica o frio. Nosso silêncio é cheio de vazios. Onde foi que nos perd...