O que eu ainda quero
Da vida,
quero tudo que ainda me é permitido.
O querer legitimado pelo merecimento.
E acima de tudo,
o que ela me deu e tirou.
o número mágico
Tantas conexões, vínculos, eventos,
e no fim das contas, o que sobrevive a voragem
do tempo ?
Afinal, qual o número mágico, quantos afetos
verdadeiramente sobrevivem à inescrutável jornada ?
Dê-se por feliz, amigo, se meia dúzia de corações
partidos
chorarem lágrimas de dor e de sangue
em seu velório.
Pois é fato que mal o corpo baixou à cova
e você já é passado.
Nem de levar flores à seu túmulo lembrarão.
Normal. É a vida.
Não faça drama nem se sinta melindrado.
Porque chega a ser hilário.
A começar pelo exagero das referências elogiosas
normalmente ditas ao pé do caixão,
em você sabendo o tanto que aprontou, traiu,
sacaneou.
Depois, porque quando você se for, tudo acabar,
os segredos serão o de menos.
No mundo dos espíritos todos podem se ver
como são, o que pensam, sentem,
provavelmente até o que aprontaram.
E nada fará diferença.
O mundo continuará girando da mesma forma.
Mundo em que a priori, ninguém é melhor do que
ninguém.
Desde o útero materno, tudo na vida é circunstancial.
Não faço ideia dos critérios vigentes, tal a
balbúrdia reinante.
Talvez nem Deus saiba.
Mas quem somos nós para julgar ?
Nossa punição não carece de juízo final ou
do fogo dos infernos. Aqui se faz, aqui se paga.
Tudo se resolve aqui.
Feliz de quem usufrui de seu quinhão
com a devida sabedoria.
Pois é só o que torna o tal número mágico
a medida certa de sua obra.
hipótese de mim
Já não sei cantar o mundo que tudo me permitia.
Posto que hoje até a sanidade me custa manter.
Sou uma hipótese de mim mesmo.
Invenção sucessiva de fingidas cosmogonias.
Em meio ao desperdício e à abundância, a mercenária
vida poupa apenas o sonho não sonhado.
Minha vida é uma hipótese não formulada.
Reservo-me o direito de inventar
o que eu quero ser.
solilóquios
Tudo passa tão rápido
muda tão rápido
que o hoje nem aconteceu
e já é ontem.
Não se interessava por futebol
política
religão.
E sobre o resto, não tinha opinião formada.
Diante de tudo o que vem acontecendo,
palavra,
não acredito nem vendo.
Um gato
pulou o muro
sumiu no escuro.
Tardo.
Meu palpite é que isso ainda vai dar merda.
(o papel-higiênico para a privada)
Nada será como antes.
Nem antes nem depois.
Honrarás o teu pai e tua mãe.
O resto é secundário.
Prometer e não cumprir.
Deveria dar cadeia.
Nunca leve juras de amor à sério.
Como levar á sério
o que não tem critério ?
A carne é fraca.
E cara !
Curioso : assim que as luzes se apagam
ficamos no escuro.
A vida se resolve por si só.
Às vezes com um empurrãozinho.
é preciso que o encanto nunca cesse
Cada dia, ao longo do turbilhão das coisas tortas,
golpeia a vida.
Inflama as chagas de nosso inferno particular.
Inquilinos de espedaçadas esperanças,
só o que nos salva
é ter algo para edificar, pelo que lutar.
Antes que nada mais faça diferença.
Até que o irremediável aconteça.
É preciso que o encanto nunca cesse.
É preciso crescer ao contrário. Crer ao contrário,
depor as ideais pré-concebidas.
É preciso prescindir de representantes, intermediários,
mensageiros para enfim conhecer a verdade.
É preciso fugir das redes, das malhas, das armadilhas
reais e virtuais.
É preciso ver Deus onde Ele não exista, expulsando
os demônios que se passam por Ele.
É preciso suportar o mundo sem fazer concessões,
sacrificando tudo, menos a dignidade.
É preciso ser amável, prestativo, humilde, sem ser
subserviente.
É preciso ser forte, destemido, altivo sem ser arrogante.
E, sobretudo, é preciso nunca se dar por vencido,
para que a vida faça sentido.
Mesmo o amor eventualmente perdido.
No tempo ligeiro é preciso ser certeiro.
Pois tudo o que se guarda acaba perdido ou adulterado,
em ardilosos labirintos.
Altas virtudes e vícios postiços embutem cínicos delitos.
Como vinhos da mesma pipa.
Argumentos e pensamentos embebidos de insidiosas artimanhas,
engendrados em silenciosa e obstinada salmodia.
Matanças indiscriminadas, passatempos banais,
eis a terra prometida.
Eis a herança.
Saber e ignorância nivelados na dúbia face de estoicismo
e desespero.
Pois uns aos outros amamos e desprezamos com o mesmo fervor.
A remissão dos males e dos pecados
começa pela humildade.
Escuta o silêncio. Afasta os maus pensamentos.
Tire os sapatos e caminhe descalço até ferir os pés,
e na dor se humanize.
Desate os nós, e estreite os laços.
Livre-se dos jugos, lavre novos tratos.
Honre os compromissos, mas sem neuras.
É preciso deixar de se preocupar com tolices,
com coisas que não pode resolver.
É preciso apreciar o frescor dos dias inúteis,
em que nada e tudo acontece.
Valorizar os árduos e ardentes elos.
Antes que tudo se resuma a ludibriar o tempo.
Para que não chegue ao precário fim prescrito,
proscrito, sem um legado, como se não tivesse existido.
Incógnito como um rio subterrâneo,
sem nascente nem foz.
roteiro mal-escrito Vai a luz, fica o frio. Nosso silêncio é cheio de vazios. Onde foi que nos perd...