O amor não vê defeitos.
Já o ódio, é só o que vê.
Resta saber o que é pior.
o Paraíso te espera, meu amor
Meu amor, meu amorzinho, não tenha medo. Deus falou comigo. Não me pergunte como isso foi possível, mas de repente tudo veio à minha mente tão claramente que só pode ter sido Ele.
Falou para você ficar tranquila, que a travessia pode parecer assustadora mas não há nada a temer. Pagou suas culpas com juros por aqui. Sobre o meu questionamento do por que de você partir tão cedo, com apenas 41 anos e tanta vontade de viver, ele disse que esse departamento está fora de sua alçada. Que todo mundo nasce com seu destino traçado, e só casos excepcionais são passíveis de revisão.
Fiz força para aceitar a alegação, afinal, ele não é o todo-poderoso, que tudo sabe e tudo pode, conforme nos ensinaram ? Daí se vê a precariedade dessa crença incondicional, que nos serve muito mais de bengala do que outra coisa. Porque na prática, o que tiver que ser, será. Nem em crenças alternativas se pode acreditar cegamente, como a lei do retorno, ou a sedutora "justa lei máxima da natureza", na qual, confesso, depositei os resquícios de minha fé.
Não me sobrou mais nada para acreditar. Nada além de em mim mesmo, na vocação inata que carrego dentro de mim para trilhar o caminho do bem. Algo que provavelmente temos em comum, porque você sempre foi do bem, como minha companheira, mãe, filha dedicada. E se chega tão precoce e injustamente ao fim de sua jornada terrena, por alguma razão maior há de ser. Cumpriu dignamente seu papel por aqui, o Paraíso te espera, meu amor.
Deus me garantiu.
Em memória de Fernanda Cristiane de Lima.
em teu louvor
Te imagino assim, doce, intensa, travessa.
Hesitante entre ser menina e mulher
Por ti, em teu louvor, conspiram o perfume
das flores, o canto dos pássaros,
o ardor do sol que doura tua pele da cor do pecado.
A carícia da brisa a envolver
teu corpo de graça e leveza.
É assim que te vejo.
Não apenas bela, mas etérea.
Pronta para o amor mas desejosa de ir
além da silhueta perfeita.
Menina-mulher em plena floração,
prisioneira de seus sonhos...
Inevitável não devanear
ante tantos encantos.
Não obstante de ti nada saber,
amo-te sem conhecer-te.
Amo a imagem que de ti construi.
De alguém que ilumina tudo
por onde passa.
É assim que te vejo
É assim que te imagino.
É assim que te quero.
o número mágico
Tantas conexões, vínculos, eventos,
e no fim das contas, o que sobrevive a voragem
do tempo ?
Afinal, qual o número mágico, quantos afetos
verdadeiramente sobrevivem à inescrutável jornada ?
Dê-se por feliz, amigo, se meia dúzia de corações
partidos
chorarem lágrimas de dor e de sangue
em seu velório.
Pois é fato que mal o corpo baixou à cova
e você já é passado.
Nem de levar flores à seu túmulo lembrarão.
Normal. É a vida.
Não faça drama nem se sinta melindrado.
Porque chega a ser hilário.
A começar pelo exagero das referências elogiosas
normalmente ditas ao pé do caixão,
em você sabendo o tanto que aprontou, traiu,
sacaneou.
Depois, porque quando você se for, tudo acabar,
os segredos serão o de menos.
No mundo dos espíritos todos podem se ver
como são, o que pensam, sentem,
provavelmente até o que aprontaram.
E nada fará diferença.
O mundo continuará girando da mesma forma.
Mundo em que a priori, ninguém é melhor do que
ninguém.
Desde o útero materno, tudo na vida é circunstancial.
Não faço ideia dos critérios vigentes, tal a
balbúrdia reinante.
Talvez nem Deus saiba.
Mas quem somos nós para julgar ?
Nossa punição não carece de juízo final ou
do fogo dos infernos. Aqui se faz, aqui se paga.
Tudo se resolve aqui.
Feliz de quem usufrui de seu quinhão
com a devida sabedoria.
Pois é só o que torna o tal número mágico
a medida certa de sua obra.
hipótese de mim
Já não sei cantar o mundo que tudo me permitia.
Posto que hoje até a sanidade me custa manter.
Sou uma hipótese de mim mesmo.
Invenção sucessiva de fingidas cosmogonias.
Em meio ao desperdício e à abundância, a mercenária
vida poupa apenas o sonho não sonhado.
Minha vida é uma hipótese não formulada.
Reservo-me o direito de inventar
o que eu quero ser.
à margem de mim Passei a vida à margem de mim mesmo. Desperdicei meus parcos talentos por falta de discernimen...