sábado, 13 de agosto de 2022



                     os poderes do mundo





Nos limbos da verdade

colunas perenes

em conformidade com o oculto

aludem a desditas

que já nasceram tristes.

Os poderes do mundo

subvertem a provisória aliança

com Deus. 



                     estar só




Estar só é dormir entre flores e espinhos.

É estar no seio da morte.

Nu e liberto,

nas bordas da existência.


Estar só é viver de miragens.

Afagar casas tortas, sutis venenos.

É ir além de si próprio,

para chorar com os mendigos.


Estar só é viver em dobro.

Íntimo de covis de mil acenos.

Beber da água mais pura

com a boca imunda de apelos.


Estar só é abrir os braços

para o abraço que não pode ser.

É uma saudade estranha escondida no coração.

E gostar de estar assim, esquecido.







 

domingo, 7 de agosto de 2022


                                   terra abençoada




                    


Domingo frio e chuvoso, pouca gente na rua,

saio para caminhar, como de hábito.

A orla santista é bonita

mesmo com o tempo carrancudo.

Santos, terra abençoada !

Onde fixei morada há quase meio século.

Onde vi crescer meus filhos,

construí minha história,

fiz incontáveis amigos, alguns poucos 

desafetos,

que foram os que mais me ensinaram.


Por mais feliz que eu tenha sido 

em minha infância gaúcha,

foi aqui que me fiz homem.

Onde, a exemplo do meu saudoso pai,

deixo um nome do qual meus filhos 

podem se orgulhar.

Obrigado Santos, pelos dias de ouro e 

de chumbo,

por tantos domingos de sol e de chuva,

os quais ainda hoje, perto do fim, celebro 

por poder desfrutar.





                       a parábola





Reza a parábola que um homem foi deixado pela mulher.

Um homem bom e justo, mas que, segundo ela, deixava a desejar

em outros quesitos.

O tempo passou e o homem descobriu que na verdade, 

ela o havia trocado por outro bem antes, e para justificar-se, 

passou a difama-lo inclusive perante o próprio filho.

Quis o destino, porém, que não tardasse para que ela ficasse

seriamente doente, e coube a ele acolher e cuida-la 

em seus últimos dias.

O homem ainda reza para poder perdoa-la.

 

 

quinta-feira, 4 de agosto de 2022



                      forte e frágil





Desejaria ser pacífico, amável, sem mistificações.

Ser presciente e maduro.

Prestimoso como a terra podre e fecundada.

Desejaria ser íntegro, digno, perdurável na arte de amar

e ser amado.

Ser aquele que ainda se importa e não se corrompe.

Ser o galho partido que se refaz no caule.

Ter olhos e ouvidos capazes de ver e ouvir.

Ser a poça que reflete a lua, o brejo dissoluto, o barco

que regressa cheio de peixes.

Desejaria ser capaz de olhar para a vida como saído 

de um coma.

Ser capaz de sentir alegria e saudades por coisas que 

já não importam. Coisas que já foram tudo.

Queria ser capaz de me limpar das infâmias, dos males que

causei, e ainda causo.

Queria deixar de ser estúpido, ignorante, presunçoso. 

Estar disponível para ouvir. Ter a humildade de aprender, 

pedir desculpas, voltar atrás.

Quisera me reconciliar comigo mesmo, antes que seja tarde.

Quisera aprender a amar direito, antes tarde do que nunca.

Descobrir que não me falta nada, me sentir de bem com a vida.

E seguir em frente sem olhar para trás. 

Forte e frágil como uma criança.

















                                O TRATO





Que nunca nos falte razões para viver. 

Ainda que rarefeitas.  


Que nunca nos falte alguém ao lado. 

Mesmo não sendo quem desejaria.


Que nunca nos falte saúde, fé.

O resto a gente tira de letra.


Que nunca nos falte lucidez, empatia.

Para que a JUSTA LEI MÁXIMA DA NATUREZA

cumpra a sua parte.




quarta-feira, 3 de agosto de 2022



                      

                   OS ARRIMOS DA CRIAÇÃO






Memórias e paisagens refinam-se em ambivalência. 

Imprecações não são bem-vindas. Mas há exceções. 

O fio da meada e o fio de Ariadne elucidam-se em frêmito.

Se as coisas não forem complicadas, que graça têm ?

Como já dizia meu pai, ninguém perde por ser cauteloso.

Se você não sabe, desaprenda.

Meus melhores versos Rimbaud já escreveu.

Nada do que eu supunha aconteceu.

Não fomos feitos para amar o próximo incondicionalmente.

Passeei invisível pelo shopping. 

Habituar-se à lâmina, para não sentir o corte.

Habituar-se à divergência, para tolerar a incompreensão.

A virtude é uma causa perdida.

Depois da curtição, vem a ressaca sinestésica.

Lua nua em água lenta articula náiades concupiscentes.

Vontades infelizes vão além dos enganos. Continuam sem

medir a iniciativa e as consequências.

Benditas sejam as criaturas pacíficas, inermes, que não fazem

mal a ninguém, 

crustáceos, moluscos, galináceos, toda a família

dos bovídeos, pássaros, caracóis, grilos, sapos, borboletas, 

besouros...

Os arrimos da Criação. 



 





 







Postagem em destaque

                                            da calmaria ao tormento Mais cedo ou mais tarde, os dias de tormento chegam. E não há nada que s...