os poderes do mundo
Nos limbos da verdade
colunas perenes
em conformidade com o oculto
aludem a desditas
que já nasceram tristes.
Os poderes do mundo
subvertem a provisória aliança
com Deus.
estar só
Estar só é dormir entre flores e espinhos.
É estar no seio da morte.
Nu e liberto,
nas bordas da existência.
Estar só é viver de miragens.
Afagar casas tortas, sutis venenos.
É ir além de si próprio,
para chorar com os mendigos.
Estar só é viver em dobro.
Íntimo de covis de mil acenos.
Beber da água mais pura
com a boca imunda de apelos.
Estar só é abrir os braços
para o abraço que não pode ser.
É uma saudade estranha escondida no coração.
E gostar de estar assim, esquecido.
terra abençoada
Domingo frio e chuvoso, pouca gente na rua,
saio para caminhar, como de hábito.
A orla santista é bonita
mesmo com o tempo carrancudo.
Santos, terra abençoada !
Onde fixei morada há quase meio século.
Onde vi crescer meus filhos,
construí minha história,
fiz incontáveis amigos, alguns poucos
desafetos,
que foram os que mais me ensinaram.
Por mais feliz que eu tenha sido
em minha infância gaúcha,
foi aqui que me fiz homem.
Onde, a exemplo do meu saudoso pai,
deixo um nome do qual meus filhos
podem se orgulhar.
Obrigado Santos, pelos dias de ouro e
de chumbo,
por tantos domingos de sol e de chuva,
os quais ainda hoje, perto do fim, celebro
por poder desfrutar.
a parábola
Reza a parábola que um homem foi deixado pela mulher.
Um homem bom e justo, mas que, segundo ela, deixava a desejar
em outros quesitos.
O tempo passou e o homem descobriu que na verdade,
ela o havia trocado por outro bem antes, e para justificar-se,
passou a difama-lo inclusive perante o próprio filho.
Quis o destino, porém, que não tardasse para que ela ficasse
seriamente doente, e coube a ele acolher e cuida-la
em seus últimos dias.
O homem ainda reza para poder perdoa-la.
forte e frágil
Desejaria ser pacífico, amável, sem mistificações.
Ser presciente e maduro.
Prestimoso como a terra podre e fecundada.
Desejaria ser íntegro, digno, perdurável na arte de amar
e ser amado.
Ser aquele que ainda se importa e não se corrompe.
Ser o galho partido que se refaz no caule.
Ter olhos e ouvidos capazes de ver e ouvir.
Ser a poça que reflete a lua, o brejo dissoluto, o barco
que regressa cheio de peixes.
Desejaria ser capaz de olhar para a vida como saído
de um coma.
Ser capaz de sentir alegria e saudades por coisas que
já não importam. Coisas que já foram tudo.
Queria ser capaz de me limpar das infâmias, dos males que
causei, e ainda causo.
Queria deixar de ser estúpido, ignorante, presunçoso.
Estar disponível para ouvir. Ter a humildade de aprender,
pedir desculpas, voltar atrás.
Quisera me reconciliar comigo mesmo, antes que seja tarde.
Quisera aprender a amar direito, antes tarde do que nunca.
Descobrir que não me falta nada, me sentir de bem com a vida.
E seguir em frente sem olhar para trás.
Forte e frágil como uma criança.
OS ARRIMOS DA CRIAÇÃO
Memórias e paisagens refinam-se em ambivalência.
Imprecações não são bem-vindas. Mas há exceções.
O fio da meada e o fio de Ariadne elucidam-se em frêmito.
Se as coisas não forem complicadas, que graça têm ?
Como já dizia meu pai, ninguém perde por ser cauteloso.
Se você não sabe, desaprenda.
Meus melhores versos Rimbaud já escreveu.
Nada do que eu supunha aconteceu.
Não fomos feitos para amar o próximo incondicionalmente.
Passeei invisível pelo shopping.
Habituar-se à lâmina, para não sentir o corte.
Habituar-se à divergência, para tolerar a incompreensão.
A virtude é uma causa perdida.
Depois da curtição, vem a ressaca sinestésica.
Lua nua em água lenta articula náiades concupiscentes.
Vontades infelizes vão além dos enganos. Continuam sem
medir a iniciativa e as consequências.
Benditas sejam as criaturas pacíficas, inermes, que não fazem
mal a ninguém,
crustáceos, moluscos, galináceos, toda a família
dos bovídeos, pássaros, caracóis, grilos, sapos, borboletas,
besouros...
Os arrimos da Criação.
da calmaria ao tormento Mais cedo ou mais tarde, os dias de tormento chegam. E não há nada que s...