sábado, 13 de agosto de 2022



                       metamorfose




Sou minha própria âncora e cruz.

Sou a noite galvânica, 

buscando na dureza do destino o alimento 

que devora a boca.

Sou a transição do que eu era convertida

em tórrido estio.

Quando escolhi ser eu, o fecundo céu 

abriu-se como o Mar Vermelho de Moisés.

Nos dias lentos que cerram suas pálpebras, 

a verdade se descobre pétala por pétala.

Minha nova identidade me outorga as feridas

cicatrizadas.

Não ser o que fui é tudo o que eu quero.

Um tigre com sangue no focinho.

 





                        nem antes, nem depois



 


Pássaros assustados

voam à esmo.


               Um filho perdido

                       a espera

                       do pai pródigo.


Ramos secos, nuvens obsidianas,

paradas no meio da chuva.


              De que serve a vida

              senão para tanger

              ou ser tangido ?


Andando é que se conhece

e se aclaram as ideias.


            O homem que rasteja

             dir-se-ia que finalmente

             se encontrou ?


A gente é do tamanho do que pensamos.

             

             É mais fácil uma borboleta voar em linha reta

             que achar alguém feliz.


Intenso e gárrulo : assim se faz o álacre.


            Ninguém merece passar fome, já começou errado por aí.


Inteligência é se fingir de burro

Plantar verde para colher maduro.


            A vida avelã nunca será um pêssego.


Nem antes, nem depois. A aurora sempre chega na hora.




             

 




                             fragrâncias secretas





Nossas raízes acendem ao mistério das fragrâncias secretas.

O que somos, por que somos, nos debatendo em falsas identidades.

Em voos brancos e negros, nos segredos e medos,

vagando por premências insepultas,

da lenta infância não saímos ilesos.

Sempre mudando, nunca mais sendo os mesmos.

Filhos do impuro, do veneno inoculado pela velha

condição humana.

Consta que Hitler também foi "ein gutes kind" (colhido em

Paulo Mendes Campos).



 




                    pegar ou largar

                       ilustração de Rene Magritte


Apesar dos pesares, não descreio do amor.

Desde que preencha certos requisitos, normalmente 

ignorados,

mas que após tantos malogros, passam a ser pétreos. 

Que haja compatibilidade como muro e caramujo,

pedra e musgo,

calça e suspensório,

cipó e macaco,

cupim e madeira,

a coisa e o coiso.

Que haja intimidade como a corda e o enforcado

a aldrava e a porteira,

o bicho e a goiaba,

o osso e o tutano.


Que o amor saiba ser vital e desimportante,

como as coisas que vivem e apodrecem,

discursos entupidos de silêncios,

palavras que secam ao sol,

repositório de vidros, grampos, urinóis. 


Mas não estranhe se ainda assim

o amor mije na sua perna,

defeque na sua cabeça.

Capaz das coisas mais ordinárias.

Em não tendo limites nem fronteiras.

Às vezes belo e gratificante

Outras vezes, seco e oco como junco.

De uma forma ou de outra, não se faz de rogado.










 





       ela veio passar a tarde

      e nem vimos a tarde passar... 





                   coisas que ninguém me ensinou





A teoria é sempre melhor que a prática. Em tese. 


Pensar por conta própria é um luxo para poucos.


As coisas definitivas não acontecem por acaso.


A besta humana está sempre disponível 

para as coisas mais sórdidas.


A incapacidade de perdoar é um luto permanente.


Perdoar uma traição não é só uma questão de querer.

Requer ampliar as virtudes até a quimera.


O dinheiro não compra felicidade. Pouco dinheiro, né ?









  



                          BECOS



Beco que se preze não tem saída.


           Beco sem bar 

           é como um homem sem lar.


Todo beco tem um marginal

de estimação.


            Beco que é beco tem aversão

            a carros, luz estridente, gente normal.


Beco sem bêbado, prostitutas e ratos,

que se renda aos fatos.


             Beco é uma rua que não deu certo.




                   

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