domingo, 23 de outubro de 2022


                      coisas atiradas ao acaso






Todas as coisas juntas,

atiradas ao acaso, em cada esquina,

cumprem sua sina.

Todas as coisas justas,

todas as coisas fajutas,

o vento levando os lamentos,

ventos lavando o vento.


O orador tropeça no silêncio.

No jogo para não ganhar, misturo o que ignoro

com o que esqueci.

Quero isso de ser só eu.

Muito é dito, pouco é feito.

A boca diz o que o coração não sente.

O jeito é abolir o presente.


Pesadelo de camaleão é ter uma só cor.

Não acredite em tudo que lhe falam, mas arrisco 

um palpite : o vento sopra o lume só para ver 

o circo pegar fogo.

É todo um nunca que perscruta o passado.

Acredite, posso ser o que quiser, menos eu.






 

sábado, 22 de outubro de 2022

 


                                                  convergências





Palavras se perdem.

Amizades se dispersam.

Sentimentos convergem em meio ao olvido.

Na linguagem que dissimula como branco

e súbito raio.






                  efabulações






A vida pensada nunca é como pensamos.

Os pensamentos nos traem, os sentimentos nos enganam,

as pessoas quase sempre nos decepcionam.

A cabeça pensa mas é o mundo quem manda, dando

ordens, impondo condições.

Perdidos em efabulações, impossível não considerar

a razão das vísceras.

A mais alta forma de expressão prescinde de palavras.

É feita de pulsações,

latejos, contrações, arrepios.

A linguagem das entranhas governa a existência.

A dor é o maior dos argumentos.

No poema que se escreve com um bisturi de aço,

o câncer é a antítese da beleza. 




quarta-feira, 19 de outubro de 2022



                      coisas que a gente já

                devia nascer sabendo





Ninguém nasce sabendo, o quanto antes amadurecer, melhor. 


Não conte com a sorte nem espere nada de mão beijada. 

Faça acontecer.


Descubra o quanto antes suas aptidões. E invista tudo nelas.


Não espera nada de bom de ninguém. Afeto e interesse 

incondicionais, só o dos pais. E olhe lá.


Não se torne dependente de vícios, drogas, sexo, e do próprio afeto.

Que só servem para fragilizá-lo. 


Desconfie de tudo que é fácil, excessivo, gratuito. Tudo

tem seu preço, e o diabo é ardiloso.


Não ajude quem não merece, pois são os primeiros a lhe virar

as costas e jogar pedras.


Não acredite em promessas, juras, ainda mais em nome do amor.


Não desperdice seu tempo com o quê não dá dinheiro. Como

meu pai sempre dizia, burro carregando de açucar até o cu é doce.




 





 



 

 

terça-feira, 18 de outubro de 2022



                  eu sou aquele que morreu e não sabe






Eu sou aquele que pensa nas delicadas melodias

que o tempo afasta lentamente.

Acompanha-me a trama jubilosa, a jornada adversa

que rege o muito e o precioso que perdi.

Para além das coisas vistas, rostos que não quero recordar,

ao morrer tão devagar.

Eu sou aquele que morreu e não sabe. 



segunda-feira, 17 de outubro de 2022



                  diamantes





Quando tudo parece inútil e incerto,

contemplando o inexistente, a vida sem sentido,

sufocado por um sentimento de morte silenciosa.


Quando tudo se repete dia após dia,

e os anos passam sem nada para reter,

nada além de recônditas epifanias. 


Quando a vontade gasta se desprende 

enquanto o irreversível tempo avança, 

e a esperança

destece sua cansada história.


Quando o grave círculo que tudo abarca

completar seu ciclo, e a carne corrompida

remontar aos gozos infernais.


Quando, enfim, se ver envelhecido em meio 

a tantos espelhos e delicados paradigmas,

esquecido do próprio passado.


Quem sabe, então, a rotina, o sonho e os rostos

apagados da memória, se convertam em esplêndidos

e atrozes diamantes.













 

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