Os dias se repetem.
Tudo parece igual.
Ledo engano.
Só são iguais para quem não consegue ver
além do trivial.
Para quem estacionou na mesmice.
Acampado na miséria.
achismo
O mundo das coisas vastas prodigaliza o breve clímax.
Explica-se no achismo. Debulha os paradigmas.
Nau no porto, de passagem e a serviço.
Ataraxia é o meu ponto fraco.
Na ponta da língua, o malogro fecunda a matéria dormente.
Persona grata dispensa exéquias.
Tudo se resolve por exclusão.
Um homem sozinho vive de artifícios.
Aqui é onde assaz se desfaz o inaudito, em prol
das lides incontroversas.
Um jogo de contrários exclui o contraditório.
Amores e ódios andam lado a lado, às vezes se distraem
e trocam de lado.
A lua homizia sarjetas.
Inúteis borboletas adotam ermos jardins.
Vilezas humanizam o mundo das coisas castas.
Nada mais fácil do que descartar alguém.
Por ignorância, discriminação, despeito.
Motivos não faltam.
Sofismas enganam a mente.
A lucidez é quase uma ilação de demência.
Ser normal é uma excrescência.
sem direito de errar
Não se iluda, o amor é a maior das enganações.
É lindo enquanto dura, mas se desfigura ao longo do tempo.
Inebria e lacera com sua linguagem de cantos
e de guerras.
Para que o escutes, adelga-se em vigílias de angústias
e volutas de desejos.
Brinca e se fecha como uma flor noturna para acalentar
o desconhecido.
Joga, se opõe, germina em terra dura, enquanto a vida
escorre pelos cantos e os segundos destilam pressa.
Mora em ti na ilusão de querer sem questionamentos.
Livre, sem precisar de muros, grades, arame farpado,
só deseja mutilar-se.
Seu fruto traz as sementes que sincronizam
todos os elementos.
Sem distinções, nos faz idênticos.
Eternos aprendizes sem direito de amar.
como dois animais
Nada é como devia ser.
Bravo amor que corrói.
Sentimentos desiguais,
que não conseguem conviver em paz.
Às vezes só o amor não basta.
Às vezes ser bom não é suficiente.
Quando o sentir fica em segundo plano.
E as superficialidades se aprofundam,
em amanheceres repletos de segredos.
Desconfianças afoitas ferem e mutilam.
De tanto ir do céu ao inferno num instante,
exausto de tentar,
desejaria nunca ter te conhecido.
o que importa é a essência
Não queira ser o que não é.
Não inveje sequer a formosura alheia.
Pois o que importa é a essência.
Nenhuma beleza se sustenta além do tempo.
Mas o que vai por dentro, sim.
Não queira ser como a rosa,
que impera bela e radiosa enquanto no jardim.
Mas quando posta num vaso,
logo murcha e morre.
E como tudo na vida,
é jogada fora.
matar ou morrer
Saiu menino de manhã.
Voltou homem à tarde.
Com amargura viçosa nos olhos.
O rosto acometido de escamas.
Forte de detritos e exímio em bordas de estradas.
De tão cedo que abraçou o mundo,
ninguém o reconhece mais.
De profissão de natureza esguia.
Raskolnikof talhado em sabedoria iletrada.
O pai o quereria morto.
Já a mãe fingia não ver.
O homem baldio.
Que cresceu na condição de matar ou morrer.
Resto anuroso de pessoa.
Cansado de ser ermo.
Sem um verme que o iluminasse.
sou pródigo, mas nem tanto (recall) Agarro o azul Mastigando vidro Improviso de ouvido Fungando no cangote D...