queria dizer que te amo
Queria dizer que te amo.
Não fosse uma expressão tão banalizada.
Que nem se pode mais levar à sério.
Ainda assim, gostaria de dizê-lo.
Meu coração assim o exige.
Antes que outro o faça.
E eu fique a ver navios.
as lembranças que vale a pena lembrar
Quem, nato em círculos sulcados de trilhas e ausências,
onde o amargor do perdido se dilui na impermanência,
as sutilezas da intemporalidade não estranha.
Do irredimível êxtase afasta o cálice.
A força invencível expulsa do Paraiso perpassa
a palavra amorfa,
para que a brevidade das coisas faça sentido.
A procura de consolo na mumificada e intransferível
bem-aventurança,
refluem dentro de nós os sentidos embotados
pelo tempo.
Querendo fechar o corpo para o desgosto das despedidas,
não como pedra, mas como a concha ou a noz
que guardam dentro de si
a essência da vida.
As lembranças que vale a pena lembrar.
caixas pandóricas
É preciso não ser feliz para ser sábio.
Se desfazer dos disfarces com que se confunde.
A quem pensa bem, lhe basta seus constos.
O canto simula as secreções que o corpo segrega.
Narciso distraído pelas amarguras da rua, de onde
vem essa incapacidade de ser além do que convém ?
O amor vence mas não compensa.
Interesses dispersos emboscam paradoxos suspeitos.
Deus lhe dê em dobro tudo que elucubra.
O que não é de ninguém, não se tem. Corações, por exemplo.
Caixas pandóricas simulam heresias.
A cada outro, quem vai embora fica.
O membro viril também fraqueja.
Em tempos incertos, porcos comem pérolas.
E o truão caga ouro.
trabuco velho
Esteja onde eu estiver, ainda estou aqui.
Vão-se os inimigos e ficam as caveiras.
Qualquer coisa é melhor do que as amarguras da amnésia.
O que se esconde atrás do que vejo ilumina
os desgostos passados.
Nada continuará sendo depois de ter sido.
De todos os lugares em que estive, o melhor
era inabitável.
Um reino em que só se entra via crucis.
A alma gasta pode ser salva ?
Radical ( e às vezes indispensável ) é arrancar as coisas
pela raiz.
O que a morte perde por esperar, ganha em certeza.
Isso é básico : não acredite em tudo que lhe dizem,
alguns falam a verdade.
Não descreia em Deus só porque suas preces
não são atendidas.
Não se apegue ao extraviado.
Uns saem, outros ficam, os que não voltam são os melhores.
A parte contrária é sempre arbitrária.
Eu tento, tu tentas, e não dá em nada. Ambos imprestáveis.
O coração em apuros não sai de cima do muro.
Somos todos dúvida, o diálogo é impossível.
Estados estacionários congregam enigmas.
Sofismas não se decifram, senão não seriam sofismas.
Quanto a mim, desfaço o que digo na prática.
Abrace quem não confia mas não dê as costas.
Entre uma pedrada e uma trepada, alguma dúvida ?
Como diria meu pai, trabuco velho também dá tiro.
livre-arbítrio
Para toda solução, há um problema.
Com a tua ausência, aprendi a me amar.
Despojos de guerra.
O medo de te perder
me impedia de ver
o que ganharia.
Amor, porque me trais ?
Eu não traio, meu bem.
Apenas atraio.
É possível, mas totalmente improvável.
Eu deixar de ser otário.
Alguém me explique : o interior é anterior
ao exterior para o que o posterior prevaleça ?
O prodigioso saber humano
só é comparável
a sua prodigiosa ignorância.
A mínima disposição
é melhor que nenhuma, certo ?
O alvitre é livre.
Já o arbítrio, nem tanto.
Dilema pós-moderno : ser corno com ela
ou infeliz sem ela ?
verdades sem caminho
As coisas se repetem.
A provisoriedade de tudo se renova, negando-se a olhar
para trás.
Diante de nós, o insubornável mantém a promessa
ao quebra-la.
Os ritos diários são feitos de coisas inacabadas.
Anônimos esforços tramitam os beirais da submissão.
Nada termina antes de retornar ao começo.
Como pedras que desmoronam sem sair do lugar.
Na impossibilidade de reverter os fatos, o novo tece
sua trama de verdades sem caminhos.
Entre tantas hipóteses, nada é garantido.
Somente a mente e o pensamento perfuram o vazio
imperturbável da vida.
sou pródigo, mas nem tanto (recall) Agarro o azul Mastigando vidro Improviso de ouvido Fungando no cangote D...