permissividade
O amor
dourado de sol
enrolado num cobertor
recatado ou desaforado
tombando de paixão
cultivado com zelo ou não
calmo ou obsessivo
mas cheio de más intenções
a tudo se permite
até tornar-se inviável.
o rastelar das verdades
A realidade nos distrai.
As pessoas nos enganam.
Vivemos sob a égide da mentira.
Cuidado com quem ama.
A verdade de cada um é uma farsa.
Versões maldosas ou fantasiosas
da fraude de ser humano.
Somos seres grotescos, que tentamos
à todo custo esconder.
De nada nos envergonhamos. Pois o mundo
assim o exige.
A mentira em autodefesa.
A farsa com fins lícitos.
Até que o rastelar dos atos
a realidade nua e crua restaure.
Sem culpa nem castigo.
Ninguém gosta de ouvir verdades.
Por isso escrevo.
linda partitura
Tempos difíceis moldam a consciência.
No eterno aprendizado de uma orbe de metamorfoses,
o fruto umbroso cai por seu próprio peso,
no tempo estipulado pelo acaso.
És jovem, fogoso, acredita que os sonhos são factíveis,
mas a impaciente demora acaba
quando o labirinto devora a criatura.
Vicissitudes vêm roubar o sono e a paz,
e as fantasias caem por terra.
Morrem e renascem em ciclos bizantinos.
Jovens e velhos, rudes guerreiros, impregnados de amor
e desencanto,
carregam pedras até que o destino se cumpra.
Nada nos salva de nós mesmos.
Mas assim como a neve derrete e a vida se refaz,
a linda partitura da perseverança
é o fim condutor que perpassa as agruras do mundo.
Faz a aventura da vida valer a pena.
pelas bordas da vida
Como a vida pelas bordas.
Diante de mim, a miragem de tudo que é humano
agoniza em falso esplendor.
A complexidade das coisas jaz em lama e desalento,
à espera do impossível.
Reluto em envelhecer. Atado a fantasias
como um velho fauno que perdeu o senso do ridículo.
As veias em chamas que já não incendeiam.
Em belos campos sem semeaduras, procuro compensações
para o que perdi.
Aos olhos de um viver obscuro, a alma desdenha o coração
como uma concha sem pérola.
Sob o portal da existência, emudeço.
Os rastros já se apagam.
Contemplo o que fui
para ao menos saber
ao que vim.
bestas-feras
Eis que toda felicidade se resume a tão pouco.
Enquanto provisoriamente poupados das dores e males
que só acontecem com os outros.
E que, por fim, vem a ser nossa história.
Seremos sempre as bestas-feras das desavenças e
controvérsias.
Perdidos nas perdas, agraciados por doces servidões,
vivemos como quem não tem nada a perder. Enquanto
tudo se perde.
As mortes do presente nos fustigam diariamente.
A memória é a única morada permanente.
prêmio de consolação
Nada é mais do que tenho.
O definitivo não retorna ao antigo instante.
Na hora em que a mente se desdobra em gélidos mosaicos,
só o que fica são pedaços de histórias estúpidas e baças,
enquanto o improvável já vive outras vidas.
Te perco, paixão, nos silêncios porosos que impões
quando te ausentas.
E o querer se torna um jogo que consome
em pequenos sorvos.
Os segredos, à porta, auscultam o denso vário dos desenlaces.
Te perco como um lamento incessante a esbater-se
nos passos em falso.
A procissão dos anos remonta à dores arcanas
e carne depravada.
Te perco quando tua ausência se cobre do musgo dos dias
sem sentido.
E o pulsar das partidas são rastros que somem
sem deixar vestígios.
Nada me recorda as paixões de outrora.
Se maltratado, o amor retrocede a terra entristecida,
em que o despertar forja fantasias recidivas.
Os ciclos se completam no caos disforme dos desgastes.
Ainda não é nascido o sentimento que perdure, conquanto
o coração relute em jogar a toalha.
Te perco porque tudo se perde, como Troia perdeu Helena,
e o amor se dispersa em diásporas irreversíveis.
O tempo é o grande inimigo dos amantes, as palavras inventam
distrações que macetam a dura realidade.
Todavia, a vontade é soberana e não se curva aos infortúnios.
No mundo oco e sem fundo, o peito de chumbo se vira como pode.
Os anseios febris se alongam e ressurgem, como tudo
que é humano.
Cedem à mente e as tentações da carne, como bons devotos
do sacrílego.
O chamado os põem a caminho, imaginação à solta e
a pseudoconsciência devidamente acoimada.
Na falta do amor, o sexo como prêmio consolação.
sou pródigo, mas nem tanto (recall) Agarro o azul Mastigando vidro Improviso de ouvido Fungando no cangote D...