Nascemos, inocentes.
E logo nos vemos adestrados
sob normas idiotizantes.
acalanto do homem só
O que pode um homem esperar
do que ora sorri, ora dá nojo,
alheio ao propósito
da vaporosa vez do possível ?
O fardo tardo decomposto
adivinha faces de morrer.
Noturno e confidente.
Ao som remoto de aleluias eternas.
O que pode um homem saber
das vilipendiadas verdades
em que todas as mentiras se parecem ?
Por ventura, amar, não sabendo a quem amar,
sequer conhecer,
seres loucos e dissimulados,
que nunca falam a mesma linguagem ?
O que pode salvá-lo da flor-mulher-Capitu,
de olhar oblíquo e dissimulado ?
O que pode um homem que não entende
as sutilezas dos cansaços e gestos filtrados
do grande e incorpóreo nada ?
Perseguindo e perseguido pelo conhecimento
que interroga a repartida orbe e maltrata a terra nua.
Sensações sem luz e caridade perseguem o
hermético lábio.
Consumido em clarões em susto, lumes de paixões
que ferem sem sonhar-se.
O que pode um homem fazer, ante o que
se esconde nas frinchas do tempo ?
Na polpa do ser, mil máscaras se dispersam
no sujo e esquecido repasto das coisas.
Ignoto, covarde como um desertor, não obstante,
irradiando surda sabedoria,
o que pode um homem só senão apegar-se
ao que não passa.
A morte que o procura.
Ao acalanto do desterro.
O cio, a vida, a poesia como
fiel companhia.
a alegria do povo
Futebol é a alegria do povo.
Muito mais que um simples jogo.
É diversão, batalha estilizada, catarse.
Ludismo para todos os gostos e idades.
Futebol é paixão sem explicação.
Jogando ou assistindo, arrebata milhões.
Não discrimina raça, credo, nível social.
Nada pode ser mais democrático e radical.
Futebol é a alegria de ricos e de pobres.
Amor que não se cansa nem exaure.
Tudo o que mais se quer é a emoção
de soltar o grito de "é campeão!".
LUXO
Luxo é poder desfrutar de seus dias
sem ter que dar satisfações a ninguém.
Luxo é poder gastar seu dinheiro do jeito
que quiser, sem ter que prestar contas ou se privar
do que lhe dá prazer.
Luxo é não ter hora para nada, não precisar dar expediente,
dispor do tempo para fazer o que gosta, ou simplesmente
ficar à toa.
Luxo é poder ouvir as músicas que gosta, ler ou ver os filmes
de sua preferência, sem ninguém para torcer o nariz
ou encher o saco.
Luxo é poder namorar, ficar, transar sempre que quiser,
e não necessariamente com a mesma pessoa.
Luxo é poder curtir a vida como bem lhe aprouver,
viajar, festar, enlouquecer.
Mas luxo mesmo é ter alguém que o faça prescindir
disso tudo. Sem se sentir lesado.
no que eu creio
Já professei todas as crenças.
Já comunguei todos os credos.
Já frequentei todos os cultos, templos, sinagogas,
terreiros.
Já fiz promessas, votos, mandingas, macumba,
tomei banhos de ervas,
fiz defumação, joguei - e ainda jogo - sal grosso pelos
cantos da casa.
Meditei no Tibete, peregrinei no Caminho de Compostela,
experimentei o espiritismo, o curandeismo, o satanismo,
tomei o Santo Daime em noite de lua cheia,
Li e reli a Bíblia, folheei o Alcorão, o Talmud (muito maçante, não aguentei),
amei Lao-Tse, o Bhagavad Gita,
mas não me converti.
Não me convenci da verdade absoluto que todas crenças
e credos apregoam.
Muito menos do poder do pensamento positivo.
Por mim, misturaria tudo para extrair o sumo.
Ou simplesmente, ficar com o Deus de Spinoza.
da calmaria ao tormento Cedo ou tarde, os dias de tormento chegam. E não há nada que se possa fa...