Lavo-me da vida
sempre suja.
Esfrego, esfrego e não me limpo
da sujeira que me faz humano.
Desejo, luxúria, usura.
venturosa história
Tive toda sorte do mundo.
Não nasci desnaturado, aleijado.
Não me perdi em berço de ouro
nem chorei por abandono.
Tive toda sorte do mundo.
Nunca precisei mais do que tive.
Afeto, alimento, nunca me faltaram.
Meu anjo da guarda sempre esteve comigo.
Tive toda sorte do mundo.
Mesmo tudo perdendo, sempre me recuperei.
Não sou rico mas nada me falta.
Até um novo amor encontrei.
Tive toda sorte do mundo.
Com mais sorte do que juízo.
Oxalá o epílogo esteja à altura
de tão venturosa história.
sem respostas
Amanhece.
Nada é o que parece.
A vida reinventa seu exuberante inferno.
Reunindo e apartando.
Ferindo e curando.
Abrindo e fechando portas.
Articulando e desfazendo.
Recompondo-se sem distinguir
o certo e o errado.
Alteando-se ao desumano convívio.
Transitando entre exílios e ardis sexuais.
O eflúvio das manhãs irrompem em meio
a embriões e eternas controvérsias.
Qual a receita para os dias mais ásperos ?
Qualquer tempo é tempo de nascer e de morrer.
Qualquer tempo é tempo de fazer valer a pena.
Qualquer tempo habita um tempo para viver
e que foi vivido.
Pequenas fugas, doenças ocultas, a vida desmorona
nos elementos que ignoramos.
O que passa decifra-se até as lindes do inconsciente.
O mundo de cada um deixa-se possuir pelo que degrada,
pelo amor que se vinga,
quando o disfarce já não serve,
quando as delícias punem,
e a vida dadivosa se desfaz.
Amanhece. Nada é o que parece ou pareceu.
Os males de nascença, os laços que consomem,
o amor que trai.
A manhã engravida o dia de mortes sem morte.
Dia que se interroga e entardece sem respostas.
A vida distribui e recolhe.
É tudo que se pode saber.
sangue fresco
Minhas lembranças são como vidas passadas.
Volto pelos caminhos a procura de mim, sem encontrar-me.
Em cada etapa da vida fui outro.
Sou o outro que sabe ter vivido de enganos.
Que traz consigo o pó das coisas findas.
O espectro das ilusões jamais confirmadas nem desfeitas,
poreja a existência sucateada.
Morri para as vidas que tive me evadindo dos afetos
mordentes,
que a tudo e a nada me levaram.
Renasço contra o mundo desfeito.
A sombra da sombra do homem que fui.
Surpreendentemente refeito das tantas vezes que me
assassinaram.
O sangue fresco de uma nova era - bendita ninfa ! -
referenda o novo sentir,
a vida reinventada sob novas condições.
Amar de novo, por que não ?
O céu das possibilidades já não é azul,
nem a alma límpida, mas a despeito de tudo,
alguma coisa em mim me obriga a continuar acreditando.
Uma força interior me protege dos desastres
cotidianos.
As vidas que vivi morreram sem pompa nem circunstância,
posto que esvaídas até a última gota.
O defunto amor morreu por mim.
Horrível dizer, mas foi melhor assim.
O que morre se torna melhor depois que morre.
da calmaria ao tormento Cedo ou tarde, os dias de tormento chegam. E não há nada que se possa fa...