domingo, 27 de outubro de 2024


                    os vermes do esquecimento



o sol frenético escapa pelas frestas,

enquanto lá fora 

meus próprios pés me pisoteiam.


na brancura dos dias, o que eu

sei sobre a alheia bravura ?

apalpo a memória

funestamente perfeita

sem me encontrar.


nesse exato momento alguém lembra

de mim como falésias à deriva.

o ludíbrio engorda os vermes

do esquecimento.

de tudo isso que sou,

não sobrou nada.




                    amor sem fim



do alto do meu eremitério

um amor sem fim 

supre

o compassivo e ardente coração.


a vida dá e tira, bem o sei, 

"os tristes e alegres sofrimentos da gente"

(João Guimarães Rosa).


meu amor sem fim partiu

mas não o que representou.

nunca acaba o que vive

eternamente dentro de nós.



quinta-feira, 24 de outubro de 2024


                   gente ordinária




 


Ninguém é culpado de ser o que é.

Você não tem culpa de ser o que é.

Eu não tenho culpa de ser o que sou.

Somos o que somos.

Desgraçados, filhos da puta,  o que for.


Rostos são máscaras.

Palavras são disfarces.

Nossas ações são urdiduras de mentes doentias.

A normalidade é apenas pensada mas não real.

O que existe transcende a diáfana realidade.

O ignorado vive em nós, morrendo.

Pensar e sentir acalenta a suave fuga dos ergástulos.


A vida é um jugo que caminha a passos lentos

e confusos.

Tendo o irrefletido como fiel escudeiro.

Não há como evitar os enganos e desencantos.

Cada um tem o amor que merece.

Gente ordinária não sofre, finge.

A desdita alheia não nos diz respeito.

Histórias infames banalizam o sofrimento.

Viver sem gozo nem dor 

é o pior dos castigos.


 




sábado, 19 de outubro de 2024



                      minha história





Sendo assim,

autêntico e banal,

a transmutação se processa

sem saudades nem pressa. 

Antes tarde do que cedo, conheci o filho inédito,

o livro pródigo.

Os anos não me trouxeram

nada

além de acertos crivados de erros.

Quem julga o que não vê

se recusa a ver com os próprios olhos.

A vida ensina a fazer do ordinário

algo extraordinário, 

mas poucos conseguem.

Cultivo meu jardim sem flores 

permitindo-me 

resgatar a solidão que edifica.

Preencho-me de vazios para escrever 

minha história.







                   o ressignificado das coisas





 

Tudo na vida carece de ser revisto, revisado.

Conceitos, opiniões, estão sempre sujeitos a mudanças,

novos enfoques.

É preciso atinar com o ressignificado das coisas.

O que há por trás das aparências, do jogo de interesses.

Entender o seu papel requer estar atento a linguagem

cifrada do gestos e símbolos.

Saber distinguir a realidade da imaginação.

A representação do mundo abastece-se de inteligência

cega e de opressivas verdades.

O ressignificado das coisas desmonta a armadilha dos 

enganos, ilumina a decadência das virtudes.

As máscaras que caem escancaram o despropósito dos pactos

sem sentido.

Certezas metafísicas, palavras e promessas vazias,

no fundo meras masturbações mentais de relações

superficiais. 

Ninguém jamais se cura dos próprios males

sem a ascese dos disfarces.

Ser como se fôssemos deixa-nos à deriva de perguntas

(im)pertinentes.

Para que eu sirvo, afinal ? - é uma delas.




 










quarta-feira, 16 de outubro de 2024


                             barganhas


Tudo está sujeito a barganhas.

Concessões, afetos.

Tudo é negociável, tudo tem seu preço.

Até o cu.



domingo, 13 de outubro de 2024


                      o elogio da mentira





O capiroto poderia argumentar : se é tão difícil 

encarar a verdade, 

o que há de errado

em mentir, enganar, esconder ?

Se a verdade nua e crua inviabiliza qualquer relação ?

Se somos os primeiros a nos enganar ?

Ao acreditarmos.

Ao nos iludirmos.

Ao nos acharmos melhores que os outros.

Tudo mentira deslavada que nos auto-impingimos. 

Ninguém sabe o que se passa em nossa mente.

Ainda bem.


A vida é um grande desfile de máscaras.

Qual a verdadeira, nunca se sabe.

Acreditamos no que nos convém.

Pode não ser o mais sábio, mas é o mais prático.

Somos mais felizes convivendo com a mentira 

do que com a verdade.

Essa é a verdade.

Ou a maior das mentiras.

Nunca se sabe.




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