sou pródigo, mas nem tanto
Agarro o azul
Mastigo vidro
Improviso de ouvido
Perdido, fungo no cangote
das meias palavras.
Meu dilúvio me incendeia.
Sou pródigo, mas nem tanto.
Há densidades que não habito,
nem cogito.
Deus nem sempre sabe o que faz.
O amor que não se basta
O que nos une, nos separa.
O amor que não se basta.
Não faz nada de graça.
Vive de pirraça.
Ambos pavio curto.
Volta e meia eu surto.
Você não fica atrás.
Quando baixa o Satanás.
É um tal de brigar e fazer as pazes.
De dialogar somos incapazes.
Eu cheio de razões.
Você cheia de dedos.
Eu marrento.
Você desbocada.
Ambos chegados num drama.
Só nos entendemos na cama.
O que nos une, no separa.
Não temos nada em comum.
Além do gênio ruim.
E assim vamos levando.
Mordendo e assoprando.
O amor que não se basta.
* musicado em 07/04/25
quebra-galho
Houve um tempo em que achei possível
você me amar.
Apesar do meu ardor sem contexto,
o meu querer destrambelhado.
O jeito diferente de pensar.
Mas você me amar... sejamos francos.
Seria como o mundo girar ao contrário.
Um corte sem cicatriz.
A rosa amar o espinho.
Houve um tempo em que achei possivel
você me amar.
Ser o vício da tua cura.
O jornal que embrulha o peixe.
O álibi do teu disfarce.
Mas você me amar...francamente.
Mais fácil a galinha criar dente.
Um ateu virar crente.
O sol nascer no poente.
Pois você só ama a si mesma.
E eu só sirvo de quebra-galho.
Mais fácil você me odiar
quando a mamata acabar.
Não me faz falta esse amor
que arrebata e maltrata.
Que morde e assopra.
jogo jogado
Cansei do amor
E pelo visto, ele de mim
Não reúno mais os requisitos.
Sequer tenho vontade.
Amar também cansa.
De tanto suar a camisa sem colaboração
e reconhecimento, botei o amor para escanteio.
De tanto levar botinada e bola nas costas,
tirei o time de campo.
Já foi o tempo em que tinha disposição e fôlego
para correr atrás.
Hoje jogo na retranca, e olhe lá.
Não faço mais questão de jogar um jogo que já
não encanta.
Em que a deslealdade campeia.
Em que jogar limpo é uma temeridade.
Cansei de correr por mim e pelos outros.
De fazer a minha parte enquanto os outros assistem.
A verdade é que o amor só compensa
quando se é jovem.
Cheio de gás e testosterona.
Com o tempo, ao contrário do vinho, só piora.
A menos que se ganhe na loteria.
Pois como se sabe, o dinheiro compra tudo.
Até mesmo amor sincero.
a coisa e o coiso
apesar dos pesares, ainda creio no amor.
Desde que sob certos requisitos, normalmente ignorados.
Mas que após tantos atropelos, tenho como
cláusulas pétreas.
Buscando correspondência e contra-partidas.
Como entre o muro e o caramujo.
A pedra e o musgo.
A calça e o suspensório.
O mico e o cipó.
A madeira e o cupim.
A coisa e o coiso.
Que haja intimidade como entre
a corda e o enforcado.
A aldrava e o portão.
O bicho e a goiaba.
O osso e o tutano.
Que o amor saiba ser vital e desimportante.
Como tudo que vive e apodrece.
Perene como palavras que secam ao sol.
Eloquente como discursos entupidos de silêncios.
Repositório de cacos de vidro, grampos, lençóis.
Mas não estranhe se mesmo assim o amor
te passar a perna.
Te fazer de otário.
Em não tendo limites nem fronteiras.
Às vezes belo e gratificante.
Em outras capaz das coisas mais ordinárias.
Em sonhos que se desfazem em outros sonhos.
Nos quais ainda se acredita
em finais felizes.
partes que se partem
Somos parte de partes que se partem e repartem
desencantos secretos.
Não se sabe se por sina ou maldição, perpetua-se
a existência soterrada de enigmas e hiatos.
O homem e a besta convivem amigavelmente.
Tão próxima e tão distante é a irmandade destroçada.
Das coisas que importam vivemos nos despedindo.
Sobrevivendo a pequenos holocaustos, o fausto e
o miséria tecem a mortalha dos incautos.
Partes que se partem sufocam os irmãos consumidos
pelo gozo dionisíaco.
Entre idas e vindas, tudo se encontra no contrafluxo.
Não há inocência no reino consumido por desejos fálicos.
A despeito da glória dos bordéis, tudo se explica
nas entrelinhas.
O esculacho glorifica nossas ovações, submetendo-se
à poda das surrubas peripatéticas.
O tempo perdido morreu de velho.
A submissão vem na cola do liburno.
A verdade constituída é um libelo que carrega
o peso da discórdia.
Nada se revela sem armas em punho.
Saqueadores de sonhos é o que não falta.
chega mais Chega mais, irmão. Hoje é dia de pagode e de cerveja. Só sofre sozinho quem quer. Se a tristeza apare...