segunda-feira, 9 de junho de 2025


                        nada mais traiçoeiro



A gente luta

tenta 

investe

concede

se reinventa

arrisca

sofre

se desdobra, não mede esforços

para fazer dar certo

aquilo que nunca se contenta

que não se sustenta

não tem lógica

maltrata

mutila

rasga por dentro

sangra

até converter-se em mágoa

náusea

O amor faceiro

matreiro

nada mais traiçoeiro

encanta

seduz

consome

arde feito fogo

até a exaustão

quando a brasa

vira carvão.



* letra de música



domingo, 8 de junho de 2025


                    

                      desiderato


A espera pelo que não virá é longa.

Mas meu coração não  se cansa 

nem se dá por vencido.

Às vezes ridículo e ingênuo, colecionando

tropeços.

Mas sem nunca deixar de ser 

grande e generoso.


Nele cabe de tudo.

Amor, sofrimento, melancolia.

Cabe música e poesia.

Cabe o mundo todo.


Paciente, não se importa de esperar.

Elabora circunstâncias, quimeras.

Consolando e sendo consolado.

Corajoso e imprudente.

Sempre aberto a novas paixões.

Iluminado pela beleza da solidão.

Vivendo de sonhos e fantasias.

A espera pelo que não virá.


                           fora de moda



Mesmo fora de moda e correndo o risco

de parecer piegas, 

me assumo um romântico da velha guarda. 

Mando flores, puxo a cadeira para as damas,

sou respeitoso com as palavras

e - santa heresia ! - dado a fazer poemas.


Sou sentimental, gosto das músicas antigas,

bolero, tango e tudo mais.

Ao contrário de hoje em dia, dou e exijo 

exclusividade. 

Curto andar de mãos dadas, jantar a luz de vela,

namorar no carro.

Não abro mão de muito beijo e abraço. 

Se bobear, até serenata faço.


Confesso meu desconforto com o imediatismo

de hoje em dia.

Que dispensa o ritual da conquista.

Estranho os relacionamentos vazios, 

a banalização do sexo,

o amor precificado.

Meu romantismo fora de moda

ainda acredita no amor verdadeiro.

Mesmo que precise inventa-lo. 












                         quando o mundo se quebra




Um dia o mundo se quebra.

E nada nunca mais será como antes.

Novos atores entram em cena,

com  suas armas e bagagens.

Perdido, o amor se lava de seus triunfos

e pecados.

Outras portas se abrem, enquanto o desencanto

inventa outras formas de viver.

Roendo o osso das banalidades

como um cão esfomeado.

Impregnado de valores abstratos.

Contrastando com ser.

Contrastando com estar.

Enquanto o silêncio se expande.


Quando o mundo quebra

outro surge, igualmente injusto.

Igualmente imundo.

Em que as dores de amores se dissipam

com outros amores.

 

sexta-feira, 6 de junho de 2025


                 um pouco de tudo


Já não estando, ficando

Já não querendo, dando

Dei de melhorar, piorando

Me perdendo, procurando


Ai de mim, meu olho não repousa

Tudo o que aumenta, piora

Tudo o que é vago e vulgar

encanta o mundo.


Miséria pouca é bagagem

No dia lindo de morrer, o terror ignora 

o cessar-fogo

Qualquer coisa é melhor que nenhuma


Carrego um pouco de tudo

Pedras preciosos e entulhos

Coisas que venho garimpando

nos descampados do mundo


Sou um pouco de tudo

Gente fina e vagabundo

Não sou herói nem bandido

Sou o vício da minha cura.






                    nem tanto ao mar, nem tanto a terra.



Nada do que tive se compara

ao que tenho agora. 

O presente é tudo o que importa.

De que vale lembrar das alegrias da vida pregressa

se tudo ficou para trás ?

Ainda mais que nem tudo foi tão bom, tão real,

como me parecia.

Que por melhor que a vida tenha sido, nada é duradouro.

Muito menos o amor.


Há que ter consciência de que a vida é feita

de altos e baixos.

Que o segredo é manter o prumo.

Sem se deixar levar pela empolgação ou pelo desespero.

Em suma, nem tanto ao mar, nem tanto a terra.

Ninguém é feliz sem conhecimento de causa.


  


        antes, durante, depois


Não sei se ainda há amor entre nós.

Se ainda é amor o que sinto.

Me dói admitir que já não te vejo como antes.

E certamente sentes o mesmo.

E eis que o impasse se estabelece.

Prosseguir, administrar, se conformar

com uma relação morna, 

baseada muito mais em companheirismo,

ou tirar o time, partir para outra ?


Não há como saber qual o melhor caminho.

Há muitos fatores em jogo, que exigem

reflexão, pé no chão.

Compreender o real significado 

do antes, durante e o depois.


De tanto amar nos perdemos no tempo.

Subitamente, nos vemos confusos, insatisfeitos.

Desejosos de auroras que não vimos.

De repente, tempos pressa e a insatisfação

nos leva a acreditar que há uma nova vida

à espera.

Redescobrir um Paraíso que nunca mais 

será o mesmo. 


Eis os fatos. Não se pode ter tudo.

E tudo tem um preço.

Não se iludir com o amor que chega

já de partida.

Trocar seis por meia dúzia.

Conferir o que vê no espelho.

Se mancar que talvez 

já tenha passado tua hora.






  

Postagem em destaque

                                            da calmaria ao tormento Mais cedo ou mais tarde, os dias de tormento chegam. E não há nada que s...