"O amor, entre duas pessoas inteligentes, não dá certo"
A frase atribuída a Fyodor Dostoevsky é provocativa — mas não deve ser lida ao pé da letra. Ele não está dizendo que o amor verdadeiro exige alguém “burro”, e sim questionando o excesso de racionalidade nas relações.
Para Fyodor Dostoevsky, o amor envolve entrega, vulnerabilidade e até uma certa perda de controle. Duas pessoas “inteligentes” no sentido frio — calculistas, orgulhosas, sempre protegendo o próprio ego — podem ter dificuldade de amar porque estão sempre analisando, desconfiando, medindo riscos. O “idiota”, aqui, é aquele que ousa sentir sem garantias, que se permite amar mesmo correndo o risco de sofrer.
Isso aparece muito nos personagens dele, como em O Idiota, onde o protagonista, o príncipe Míchkin, é visto como “idiota” justamente por sua pureza, empatia e capacidade de amar sem malícia — algo raro em um mundo cínico.
No fundo, a frase critica a ideia de que podemos controlar tudo, inclusive o amor. Amar exige um tipo de “loucura consciente”: abrir mão da segurança absoluta para viver algo real.
Então talvez a pergunta não seja se é preciso ser “idiota” para amar, mas: até que ponto a inteligência — quando vira defesa — impede alguém de se entregar de verdade?
#Filosofia #Dostoiévski #Amor #Reflexão
apoteoses de ilusões
Eu sempre soube que você não é confiável.
Abandonei a razão para viver
a mais precária mentira.
Profundo e imundo, meu coração
acostumou-se a ódios e insultos.
Somos opostos que sarabandam apoteoses
de ilusões.
Tudo entre nós remonta a alucinações
cruciantes.
Minhas culpas e teus desatinos se entretecem
em desentendimentos crônicos.
Findo o encanto, o que sobra são os defeitos.
Quando se ama, dorme-se como um rei,
e acorda-se como mendigo.
o fim do amor
O fim do amor é sempre triste.
Mas também pode ser uma libertação.
Quando o coração já não aguenta
tanto desgosto e provação.
Te amei loucamente, mas você nunca
retribuiu.
Mesmo assim, me sujeitei a tuas regras.
Aceitei o inaceitável.
Me sentindo culpado por sentir em excesso.
Como se o afeto precisasse ser dosado.
Mas como tudo que não dura é farsa,
o que ficou para trás finalmente
encontrou seu lugar.
Quando percebi que não valia a pena
tanto esforço para caber no teu mundinho.
Quase me desculpando por te amar.
Estou indo.
Reconciliado comigo mesmo.
Precisei te perder para me encontrar.
passado sem futuro
Entre muros e memórias
edifico minha história.
Sem pompa nem glória.
Venturosa e atribulada trajetória.
Que se desfaz no limbo
das paixões merencórias.
De há muito esqueci-me de quem sou.
A despeito de o coração pulsar pelo afeto
que não dura.
Presciente, como um passado sem futuro.
Meu avesso desce das estrelas, lúcido e frio.
Para que ninguém chore por mim
quando eu partir.
não quero mais amar
Não quero mais amar
Mas posso muito bem fingir
De repente, pode ser até melhor
Sem cobranças, ciumeiras
Essas coisas que só atrapalham.
Tudo o que é demais, sobra
Ando cheios de vazios
Sinto remorso, mas faria tudo de novo
De outro jeito
Refeito, entre compensações e desenganos.
Eis meu coração
Deponho a respectiva chave
Nada mais tenho a dar
Além de uma esperança que já não tenho.
antagonismos
Em tempo se percebe que há tarefas
que jamais serão cumpridas.
Que todo esforço se desfaz diante do austero
breviário de desilusões e desatinos.
Nunca se sabe o momento da mudança irreversível.
Quando o amor não mais compartilhado
se avilta
de tal forma
que nem o perdão se torna mais necessário.
O que parecia divino
dura o tempo que duram as fugazes magias.
Fazer durar em meio a tantos antagonismos
é como tatear às cegas.
Arriscando-se a tudo.
Sem certeza de nada.
meio sol, meio escuridão Louve-se a perenidade das coisas sem nome. O labor anônimo, o sacrifício velado às ca...