quinta-feira, 14 de maio de 2026

 

                     velhos erros         


O relógio avança

Rostos apagados

Memória gasta

O som do nada

Ecoando no vazio

Velhos erros me perseguem


Passos lá fora

Mas ninguém chega

Olho para o teto

Sou só eu

E o quarto escuro

O relógio avança

O silêncio ocupa

Os meus vazios

Esqueci sua voz

Onde havia nós

Só há poeira

E um vento frio lá fora.



terça-feira, 12 de maio de 2026


 

               sou pródigo, mas nem tanto (recall)

            


Agarro o azul

Mastigando vidro 

Improviso de ouvido

Fungando no cangote

Das meias palavras.


Meu dilúvio me incendeia

Sou pródigo, mas nem tanto

Há densidades que não habito

Nem cogito

Deus nem sempre sabe o que faz.


Nas dobras do tempo

Os sentimentos se misturam

Melancolia e paz

A cada história interrompida

Tudo ressoa dentro de mim

como se não tivesse fim

Como se tudo

Já não tivesse acabado.



segunda-feira, 11 de maio de 2026


                       em causa própria



Abro a porta do coração e a solidão me abraça.

Como um novo amigo que inventei.

Vem para levar o que o tempo não apagou.

Lembranças que não sei onde guardar.


Mudo e desnudo, mergulho no silêncio para

me encontrar.

Não é desespero, é só uma pausa necessária.

Uma conversa serena, uma prece solitária.

Vivendo só o agora, sem tristeza nem urgência.

Enquanto busco minha essência.


A casa está quieta, do jeito que eu gosto.

É bom não ter que me justificar, dar explicações.

Conquistei o direito de desfrutar

desse tempo ocioso, sem culpas, sem planos.

Desapegado do ego e do gênero humano.

Demorou, mas hoje sou dono da minha

própria vida.

Só em meu canto, com meu canto.

Sem fingimento, nem preguiça.

Apenas e tão somente, me fazendo justiça...





quinta-feira, 7 de maio de 2026


                               romance sem filtro


Não é sobre ser educada e culta.

Não é sobre ser carinhosa, compreensiva.

Tem a ver com coisas que não se explicam.

Como esse teu jeito meio selvagem.

O modo como a gente se entende, sempre 

o mesmo roteiro sem nexo.

Tem a ver com viver entre o caos e as delícias

que escondes entre as pernas.

Com o nosso jeito torto que se revela perfeito.

Com o romance sem filtro, a vontade de não estar

em outro lugar. 


Entenda, 

não se trata de racionalizar, comparar,

e muito menos entender.

É um amor sem nome, sem legenda.

Que não precisa que ninguém entenda.

Sem glamour, apego, sequer planos.

A gente só vai ficando, cada qual com suas

necessidades e interesses.

Sem mapa, sem rota, nem contrato assinado.

É parceria de asfalto, sol e poeira.

Que não cansa de subir ladeira.

Entretido entre ir e vir. 

Na paz de não precisar fingir.










 



 






                                         roteiro mal-escrito



Vai a luz, fica o frio.

Nosso silêncio é cheio de vazios.

Onde foi que nos perdemos ? 

Se era tanto, por que acabou em nada ?


Ah, que saudade daquilo que não vivemos.

Ah, essa mania de não esquecer

das tantas coisas que ficaram por acontecer.

Do tanto de nós que cansei de buscar,

nesse inventário que no tempo se perdeu.


Olha, eu cansei de você me fazer de otário.

O nosso amor foi um roteiro mal-escrito, 

sem a menor chance de dar certo.

Vaza, e não esqueça de pegar as tralhas.

Depois apaga a luz e pode levar o gato.

Só deixa na estante

aquele nosso retrato...



                                 


                            castelo de areia


No fundo, você é a menos culpada.

O engano foi meu, ao querer moldar alguém

que nunca quis mudar.

Eu decorei teu riso, o teu jeito de andar,

fiz do teu abraço o meu lar.

Mas construí um castelo de areia para abrigar

um amor que nunca existiu.

Fui o príncipe de uma história que eu mesmo inventei.


Engraçado como a gente às vezes finge não ver.

Eu amei o que eu queria que você fosse.

Não tardei a descobrir quem realmente você é.

Te dei o meu melhor mas o teu melhor sempre 

foi uma mentira.

Hoje, sinto dizer, o amor que eu tinha, 

você mesma destruiu.

Azar o meu, quem mandou acreditar em quem 

nunca nada prometeu.











 




[Introdução instrumental]








Desejaria ser pacífico, amável, sem mistificações.

Ser presciente e maduro.

Prestimoso como a terra podre e fecundada.

Desejaria ser íntegro, digno, perdurável na arte de amar
e de ser amado.

Ser aquele que ainda se importa e não se corrompe.

Ser o galho partido que se refaz no caule.

Ter olhos e ouvidos capazes de ver e ouvir.

Ser a poça que reflete a lua, o brejo dissoluto, o barco
que regressa cheio de peixes.

Desejaria ser capaz de olhar para a vida como saído
de um coma.

Ser capaz de sentir alegria e saudades por coisas que
já não importam. Coisas que já foram tudo.

Queria ser capaz de me limpar das infâmias, dos males que
causei, e ainda causo.

Queria deixar de ser estúpido, ignorante, presunçoso.

Estar disponível para ouvir. Ter a humildade de aprender,
pedir desculpas, voltar atrás.

Quisera me reconciliar comigo mesmo, antes que seja tarde.

Quisera aprender a amar direito, antes tarde do que nunca.

Descobrir que não me falta nada, me sentir de bem com a vida.

E seguir em frente sem olhar para trás.

Forte e frágil como uma criança

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