sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

 

                    o futuro da sociedade


É cada vez mais crescente o numero de pessoas que ficam sozinhas durante toda a vida. Muitos por escolha e outros porque de fato não conseguem encontrar alguém. Ocorre, contudo, que a grande maioria de nós não tem mais paciência para relações. É sobre isso que comenta Luiz Felipe Pondé.


Recentemente, durante uma entrevista com uma jornalista da Dote e Velha, ela estava chocada com o fato de que algumas pessoas na Alemanha estão buscando do estado o direito de “casar consigo mesmas”. Isso me lembrou uma conversa que tive com uma aluna, que brincando, disse: “se eu pudesse, eu casava comigo mesma”. O direito de casar consigo mesmo, no sentido de que o estado reconheça o voto de amor próprio, é algo interessante de se pensar. Um tempo atrás, um homem tentou casar com seu cachorro, o que gerou um grande escândalo. Mas, pelo menos no caso do cachorro, é outro ser, outra espécie – embora radical, é outra forma de relação. No caso de casar consigo mesmo, isso representa um completo fracasso de lidar com o contraditório, e é um sinal da tentativa de reconfigurar as relações humanas e sociais.

 

A jornalista, de 31 anos, ficou impressionada com a ideia de que muitos europeus, principalmente os alemães, que estão chegando aos 30 anos, permanecem sozinhos e não conseguem encontrar parceiros. Eles até decidem procurar alguém, mas não conseguem, e a razão é simples: não conseguem aguentar estar com outra pessoa. Eles até buscam parceiros, mas a convivência com outros se tornou insuportável. O sexo, por outro lado, se tornou muito mais fácil. Hoje em dia, é possível fazer sexo sem precisar tolerar nada – em alguns casos, até de graça. Isso mostra que, para satisfazer os desejos mais imediatos, não é necessário estabelecer instituições ou criar compromissos de longo prazo.

 

Essa reportagem demonstra que, para muitos jovens, encontrar alguém com quem valha a pena se relacionar é difícil. Isso está relacionado com uma sociedade que cada vez mais valoriza a individualidade e a satisfação imediata. O desafio de encontrar alguém compatível não é só sobre a falta de pessoas, mas também sobre as expectativas irreais que são colocadas sobre os relacionamentos. A vida moderna leva a um isolamento crescente, onde as pessoas, altamente exigentes, acabam buscando apenas satisfação pontual e não se comprometem com o outro.

 

O futuro da sociedade, como vejo, não será uma ruptura radical em relação à produção material, mas sim uma marcha em direção a indivíduos isolados e cada vez mais exigentes, que buscam serviços, inclusive afetivos e sexuais, quando necessário. Esses indivíduos terão vidas centradas em si mesmos e viverão com famílias fragmentadas. A sociedade verá uma diminuição progressiva de jovens, que agora custam muito para educar, pois os pais exigem muito deles. Como resultado, esses jovens acabam se tornando cada vez mais ansiosos – nunca houve uma geração que tenha tomado tantos ansiolíticos. Isso ocorre porque as expectativas impostas pelos pais são tão altas que os filhos têm que lidar com pressões insuportáveis. E é muito difícil ser perfeito; essa busca pela perfeição pode, literalmente, matar uma pessoa.

 

Essa reflexão traz à tona a natureza complexa e muitas vezes contraditória da sociedade contemporânea, onde o individualismo e as expectativas irreais geram um ciclo de solidão, ansiedade e frustração.

 

Transcrição feita e adaptada pelo Provocações Filosóficas da fala de Luiz Felipe Pondé em: Evento INNITI DAY – Conference for Tomorrow, sobre o Futuro da Ética e da Sociedade realizado na FAAP no dia 23/08/2017

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026



                      conclave de lembranças



Andei, andei, até a lonjura brincar

de ausência. 

Tudo o que perdi paira como um amoroso

conclave de lembranças.

Onde vivi a paisagem depura-se tão casta

e docemente

que atravessa os limites do tempo.


Muito tempo se passou 

desde que me perdi

pela primeira vez.

Ainda hoje, tento me encontrar.

D onde estou, não posso mais voltar.

Nem quero.

Como sobrevivi a tantos desenganos ?

Ora, bolas, renomeando-os...


 

domingo, 25 de janeiro de 2026

 

                   o tempo dirá



Se ninguém cruza nosso caminho por acaso,

como dizem, 

por que tantos desencontros ? 

Por que tantas frustrações ?

A verdade é que a maioria de nós vive assim, 

batendo cabeça,

sofrendo e fazendo sofrer.

Com raras e honrosas exceções, somos todos 

incompatíveis.

Se ninguém cruza nosso caminho por acaso, 

a única justificativa para que isso aconteça,

é encarar tudo como um aprendizado.

Um aprendizado sem fim.


Ai de mim, é tudo o que tenho feito na vida.

De desamor em desamor.

Em constante litígio.

Sem nada aprender.

Minha melhor parte ninguém conhece.

Talvez ela nem exista.

Se nem o meu melhor te satisfez, mulher,

talvez você esteja certa.

Mais uma vez saio de cena como vilão.

Se merecidamente ou não, o tempo dirá.





                      o amor é traiçoeiro



Um minuto e já não é amor.

Esquecemos de tudo, nos machucando mutuamente.

Destruindo o que aprendemos.

O coração devotado clama por ser enganado.

Ninguém sabe quem é quem.

Você me chama de ignorante,

ignora o quanto tenho sido paciente,

abusa por eu ser tão carente.

Qual o futuro desse amor tão dependente

do afeto que você nem sente ?


No fim das contas, tornei-me aquilo

que nunca quis ser.

Não muito diferente de você.

Egoísta, mentiroso, um farsante.

Que finge ser o que não é,

para não ficar em desvantagem.

O amor é traiçoeiro, só é fiel ao dinheiro.




quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

 


                             carência não é amor


Há uma confusão silenciosa, porém devastadora, que atravessa a experiência afetiva humana, a tendência a chamar de amor aquilo que, em essência, é apenas necessidade. Amar e precisar não são sinônimos, embora frequentemente se apresentem com a mesma linguagem, os mesmos gestos e até as mesmas lágrimas. O problema é que a carência sabe imitar o amor com perfeição suficiente para enganar até os mais atentos.


A carência nasce de uma falta interna não elaborada. Ela não busca o outro como alteridade, mas como remendo. Não deseja o encontro, deseja o alívio. Quando alguém ama por carência, não se dirige ao outro, dirige-se ao próprio vazio, esperando que o outro o preencha. O amado torna-se função, instrumento, suporte emocional, quase um objeto terapêutico improvisado. Não é visto como é, mas como aquilo que pode oferecer.


O amor, ao contrário, pressupõe inteireza relativa. Não perfeição, mas consciência da própria incompletude. Quem ama não exige que o outro salve, cure ou complete, aceita que o outro acompanhe. O amor verdadeiro nasce quando o eu já não está em estado de desespero, quando a presença do outro é desejada, não necessária para sobreviver. Amar é escolher, precisar é agarrar-se.


Psicologicamente, a carência é ansiosa e possessiva. Ela teme a ausência porque não sabe sustentar o silêncio interior. Por isso confunde intensidade com profundidade, dependência com vínculo, controle com cuidado. Quanto mais frágil o eu, mais absolutiza o outro. E quanto mais absolutiza, mais sufoca. O amor, por sua vez, tolera a distância, respeita a autonomia e não transforma o afeto em contrato de sobrevivência.


Há também um traço ético nessa distinção. Amar alguém implica reconhecê-lo como fim em si mesmo. Precisar de alguém, quando não elaborado, tende a reduzi-lo a meio. A carência não pergunta “quem você é?”, pergunta “o que você pode fazer por mim?”. Por isso tantas relações adoecem, não por falta de sentimento, mas por excesso de expectativa.


Confundir carência com amor é perigoso porque produz vínculos frágeis, embora intensos. São relações inflamadas, mas pouco luminosas. Quando o outro falha, se afasta ou simplesmente se mostra humano, a estrutura desmorona, pois não era amor que sustentava o laço, era a urgência.


Filtrar o humano, aqui, é aprender a suportar a própria solidão sem transformá-la em chantagem afetiva. É compreender que o amor não nasce da escassez desesperada, mas da capacidade de estar consigo sem horror. Só quem não precisa desesperadamente pode amar de fato. O resto é pedido de socorro disfarçado de paixão.


Oliver Harden

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026


                      amor bandido



Mudei para poder te amar.

Não foi algo que se possa romantizar.

Ao contrário, foi tudo o oposto do que eu imaginava.

Custei a entender que te amar não cabia em quem eu era.

Te amar não respeitou minhas feridas, meus traumas.

Me obrigou a te aceitar do jeito que és. 

Mesmo com parte de mim gritando

que eu estava sacrificando minha identidade.

Precisei me reinventar, ficar vulnerável

a teus caprichos e desatinos.

Pensei mil vezes em desistir,

mas algo dentro de mim me obrigava a ficar.

Mudei, não para merecer o teu amor bandido,

mas para abandonar as versões em que amei

só pela metade.

Mesmo comendo o pão que o diabo amassou.

Mudei para poder te amar por inteiro.

Ambos com defeitos, mas mais honestos,

verdadeiros.















 


               o amor que me mudou



Mudei por amor. E não falo da mudança bonita, publicável, que fica bem em frases curtas. Falo da mudança que dói, da que desmonta, da que tira o chão antes de me dar outro qualquer, da que não pede licença e não pergunta se é conveniente. Mudei porque amar alguém de verdade não cabia em quem eu era, não cabia nos meus automatismos, nas minhas defesas, nos meus atalhos. A verdade é que o amor não negociou com as minhas desculpas, não se acomodou às minhas feridas, não se moldou às minhas fugas. Ficou. E ao ficar, expôs tudo o que em mim não era inteiro. 

Efetivamente, mudei porque percebi que não podia amar e continuar a proteger-me da mesma forma, que não dava para tocar em alguém e manter intactas as minhas muralhas, que não podia prometer presença e continuar a desaparecer por dentro. O amor não me pediu para ser melhor. Obrigou-me a ser verdadeiro. E isso é muito mais exigente, porque houve partes de mim que resistiram, partes que queriam ficar como estavam, partes que gritavam que eu estava a perder a minha identidade. 

Mas eu não estava a perder, mas a largar versões minhas que já não serviam, que só existiam para sobreviver e não para amar. Mudei porque amar alguém de verdade desloca as prioridades, muda o eixo, reorganiza o centro, deixa de ser sobre ganhar, provar, controlar, e passa a ser sobre não ferir, não fugir, não mentir. E isso mexe em tudo. No corpo. No ritmo. Na forma como se responde. Na forma como se fica. 

Com efeito, o amor não me transformou num herói. Tornou-me vulnerável. E esta foi provavelmente a maior mudança, porque tudo em mim tinha sido treinado para aguentar, não para proteger. Para sustentar, não para pedir. Para estar forte, não para estar aberto. Amar ensinou-me a falhar sem desaparecer, a tremer sem fugir, a ficar mesmo quando sentia uma enorme vontade de partir. 

Mudei porque o amor não aceita versões parciais, não aceita nenhuma presença pela metade, não aceita uma alma em fuga. O amor exige inteireza, e a inteireza cobra caro. Cobra escolhas. Cobra cortes. Cobra silêncios. Cobra a coragem de deixar cair quem se é para dar espaço a quem se pode ser. 

Não mudei para merecer amor. Mudei porque o amor mostrou-me que eu podia ser ainda mais verdadeiro do que tinha sido até ali. E eu aceitei. Simples assim.


José Micard Teixeira


Postagem em destaque

  A chamada **teoria da cadeira** não fala de amor, amizade ou parceria de forma romântica. Ela fala de **comportamento**. A ideia é simples...