terça-feira, 23 de abril de 2019

Id

                                 


                             vago de acalanto






Certamente não haverá nada de perfeito
a ser lembrado.
Nada que não seja dispensável, depois de exaurido. 
Porque já não te amo.
Porque já não me amas.
Um caminho deserto entre duas tumbas
é tudo que restou.
Exânime, vago de acalanto, o coração já nada espera.
Aquela que parte, aviltada.
Aquela que chega, corrompida.

Deusa intemerata, 
um brinde à sua formosura.
Descrente de tudo, 
de ti me embriaguei.
E depois te vomitei.





segunda-feira, 22 de abril de 2019




                            





Aconteceu. Eis que o azul se tornou negro
debaixo de nossos olhos, de improviso,
sem que percebêssemos.
É o fim. E o fim é fulmíneo.
Adeus, adeus. Não era nada de especial,
não era um dia extraordinário, não era sequer
especialmente luminoso
ou especialmente escuro.
Nem muito bom, nem muito ruim;
não era um dia histórico, nem um dia
para se recordar.
Era um dia como qualquer outro,
nem triste, nem alegre;nem bonito, nem feio.
Quase um dia inútil.
Mas não havemos de vê-lo nunca mais.
Como qualquer outro dia memorável ou não.

* Adaptado do ensaio "Entre a mentira e a ironia", 
de Umberto Eco (1932-2016).






Se falsidade fosse uma doença mortal,
o planeta estaria salvo.








às vezes a melhor estratégia é se fazer de morto (ou de cego)



domingo, 21 de abril de 2019







               O PARDALZINHO



Havia um pardalzinho na minha antiga casa,
que meu filho achou na sarjeta.
Recém-nascido, desmilinguido, 
foi um milagre ter sobrevivido.

Ficava na área de serviço,
não tivemos coragem de colocá-lo numa gaiola,
em que só ficava para dormir.
Era meu companheirinho de todas as horas.
Me fazia companhia no café da manhã, logo cedo.
Quando eu estava na sala, lá vinha ele,
pousava no meu ombro, ou no joelho.
Às vezes bicava meu dedão do pé, para chamar
a atenção.

Que saudades dele !
Às vezes penso que aquele pardalzinho
era quem mais me amava 
na minha antiga casa.





sábado, 20 de abril de 2019



                   BORDOADAS




Crente ou incrédulo, somos sempre ludibriados.
Pelas crenças que nos enganam e traem.
Desenganados no amor, desiludidos com as pessoas.

Esvoaçantes, os anjos da infância nos abandonam 
à própria sorte.
À sorrelfa, à socapa, nas encolhas
da vida tangenciada,
à revelia do tempo perdido, dos passos tortos,
é bordoada de todo lado.

Na vida que se rompeu,
distante da antiga casa,
entregue às dúvidas que corroem a existência,
sempre a espera do que não virá. 
O antigo amor, um novo amor, a redenção.
O perdão de quem não consegue se perdoar.








                     coração bandido



Maneira simples e infalível de blindar a vida :
não criar expectativas.
As pessoas são como são. 
Não mudam.
E quando mudam, 
salvo raríssimas exceções, 
mudam para pior.
Um coração bandido 
sempre será traiçoeiro.





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