domingo, 26 de julho de 2020





                                como manda o figurino







Estava tudo impecável, como manda o figurino. A igreja repleta, a entrada triunfal da noiva sob os acordes do tradicional "Jesus, Alegria dos Homens", a união do lindo casal enfim sacramentada aos pés do altar, com o esperado "sim" para as promessas de praxe, fidelidade, juntos nas alegrias e tristezas, até que a morte os separe, etc, etc.

Três meses depois cruzo com meu amigo na rua, e a pergunta é inevitável : e aí, que tal a vida de casado ?
- A maior roubada. Já separei.

Pois é. Sem entrar em detalhes, casamento não é apenas viver sob o mesmo teto. Ter com quem dormir. Como também apenas amar não é o suficiente. Amar qualquer um ama. A vida a dois requer muito mais. Compartilhamento. Cumplicidade. Abnegação. Estar disposto a se sacrificar em prol de um bem maior. O quê no caso dos homens, grosso modo, implica em entender e aceitar a transição de animal selvagem para animal doméstico. 

O fato é que todos os nubentes preferem ignorar que estão jogando contra as probabilidades. Apostando no azarão. Que as chances de dar errado são muito maiores. Mas o amor é cego, como se diz. Cego, lindo e teimoso. Tanto que vai tentando, se reinventado. Às vezes é tudo uma questão de não abandonar o barco só porque está fazendo água. Mesmo porque todos os barcos fazem água. 






 
















                  ser feliz







Ser feliz é esquecer.
É não ver.
Esquecer das tristezas e amarguras.
Não ver a desgraça ao largo.
Só é feliz quem não se martiriza 
com o que não pode mudar.
Só é feliz quem valoriza as coisas
boas,
que vive a vida 
como se andasse à toa.












                           CORTINA DE FUMAÇA






Ah, a vastidão humana !
Arcabouço de princípios, desventuras, elegias,
cacos do espelho estilhaçado da vida.
Mortalhas e guirlandas de nosso eterno desvario.
Nas múltiplas realidades da existência sem nexo,
o prazer e o horror entrelaçados,
o saber que ignora a alma fendida, 
o atro mistério de ser isso que invariavelmente somos : 
um monte de estrume. 
Nas máscaras que caem.
Na revelação da podridão que escamoteamos.
Pensamentos tenebrosos 
que mantemos em segredo, mas desfloram a alma,
defloram o espírito. 
Primazia de loucos e degenerados, 
condenados pelo mundo hipócrita,
posto que só o que nos diferencia
é a cortina de fumaça 
que impede que nos vejam
como realmente somos.

O quanto temos coragem de ser,
é o que realmente somos.
Que ninguém se peje, porém, 
que é em torno do erro e do pecado  
que o íntimo e pavoroso mundo  
gira,
tão logo a inocência acaba.



















sexta-feira, 24 de julho de 2020



                  o martelo de Nietzsche






Obediência e crendices, 
eis o que aprendemos desde cedo.
Educados para obedecer e crer.
A forja que, ao mesmo tempo, 
nos marca e aprisiona, como pássaros na gaiola.
Somos o que o mundo quer que sejamos.
O que permite que sejamos. 
Não mais que vassalos,
serviçais, zumbis,
massa de manobra, inocentes úteis...
Ora, nada mais cômodo que 
alguém que pense por nós.
Nada mais prático que seguir o rebanho.
Obedecer, acreditar, como nos ensinaram.
Dane-se a dor que tudo isso desencadeia.
Duvidar, contestar, para quê ? 
O que se ganha duvidando, contestando, 
além de desencanto, desavenças, desafetos ?
Razão ? Reconhecimento ? Uma pinoia !
Antes fosse. Dúvidas e contestações nunca soam bem.
Mesmo quando procedentes. 
Duvidar semeia discórdia. Contestar, antagonismo.
Mais sensato é deixar pra lá. O tempo sempre se encarrega
de mostrar a verdade.
Viver em paz não tem preço.
Conciliar vale mais que hostilizar.
Se tiver que fazer alguma coisa, faça na surdina,
por debaixo dos panos.
A verdade pouco importa. Mais importante
é manter as aparências. 
Posto que a verdade tem mil caras.
É à serventia da casa.
Felizes os que creem e erram, 
mas encontram na própria inconsciência
o consolo da felicidade fugidia. 
Algo que nunca consegui. Algo que sempre rejeitei. 
O martelo de Nietzsche só me trouxe problemas.










 









 























Fim de tarde tão magnífico que a lua
passa quase despercebida.






quarta-feira, 22 de julho de 2020




                                                                gratidão




                       


Essa solidão no fim da vida,
é justa, merecida.
Justa, porque assim não sou
um fardo para ninguém.
Merecida, ora, porque colho 
o que plantei.

Não foi o que planejei,
não era o que queria,
mas há momentos em que as coisas
fogem do controle.
Por culpa nossa ou obra
do destino,
de repente tudo desanda,
ou simplesmente caducam.
Faz parte, há que aceitar, buscar algum bálsamo 
na penosa lassidão de quem sabe
que o fim está próximo. 
Que cada dia sem dor e sofrimento
é uma vitória.
Cada dádiva, um presente. 
Minha fé é fraca, mas a gratidão é grande. 
Por ter tão pouco a pedir, e tanto a agradecer.
































terça-feira, 21 de julho de 2020


                                                 coisa de momento









Fazer poesia é como tirar
fotografia.
É coisa de momento.
O registro permanece,
mas os sentimentos não.    

Tudo muda, como uma bola 
que cai no quintal do vizinho,
que ele, ao invés devolver,
fura.









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