VIDA LONGA AOS HIPÓCRITAS
Luta inglória, reverter sentimentos.
Recuperar aquilo que foi perdido.
Restaurar o amor, o respeito.
Como tudo que se quebra,
os sentimentos nunca voltam a ser como eram.
Inútil tentar.
Bobagem insistir.
O máximo que se consegue é um arremedo
tosco e insatisfatório.
Melhor esquecer, se conformar,
partir para outra.
É o certo a fazer.
Como conviver com alguém que te traiu,
que mente, finge ser o que não é ?
A menos que se aceite as regras do jogo.
Que todo mundo mente, finge, trai.
Todos, menos a pujante raça dos hipócritas, é claro.
Felizmente, a grande maioria.
Porque sem eles, a vida em comum seria
impossível.
o Deus do desamor
Não sei se a vida é errada ou o errado sou eu, mas estranho que Deus
tenha caprichado tanto no geral e acabasse perdendo à mão no arremate.
Ao criar o Homem, essa aberração que destoa em sua obra-prima.
A menos que tenha sido proposital, por mera diversão, para quebrar a monotonia
que as más línguas dizem imperar no Paraíso.
Não é à toa que o inferno parece bem mais divertido.
Não é à toa que o seu anjo dileto se rebelou, e que o próprio menino Jesus
debandou quando pôde, segundo o relato insuspeito do sublime
"Guardador de Rebanhos", de que Deus está velho, caduco
e pouco se importando conosco, simples mortais.
Ora, de fato, tivesse Ele amor pela humanidade, por que esse sofrimento todo,
essa cruz que carregamos desde o nascer ?
Não faz sentido.
O imperfeito ser humano não se explica, a não ser como um contraponto,
um apêndice, ou o mais provável, um rebanho para ser imolado ou para
louvar-Lhe os feitos.
O que eu sei é que Deus não é bom para quem ama.
Porque nos fez fracos, permissivos, promíscuos, de modo que cedo ou tarde
tudo estragamos.
Estragamos o amor, e ficamos com a dor, doenças, solidão.
Sabe-se lá sob quais critérios, poucos conseguem a graça de uma vida tranquila.
Ou estarei exagerando ?
Que Deus não se envolve, em função do livre-arbítrio ?
Pode ser, mas o diabo se envolve, e como !
Ok, são conjecturas toscas, não sou nenhum guardador de rebanhos
como o grande poeta lusófono, o que penso não importa,
sequer sei onde me encaixo, por que ainda estou vivo,
se em tese já dei o meu melhor, e a essa altura apenas gasto o tempo,
sem qualquer expectativa de dias melhores,
tampouco de amenizar meu fardo, me reabilitar
aos olhos daquela que hoje diz que preferia não ter me conhecido.
Tal o mal que lhe causei.
Eu só sei que Deus não é bom para quem ama.
Mais que no amor, é no desamor que Ele se encontra.
um peso, duas medidas
Por motivo algum e motivos vários,
sou a melhor e a pior das criaturas.
A mais digna e a mais vil.
Louvado e execrado.
Anjo e demônio.
O melhor e o pior filho, pai presente e
ao mesmo tempo ausente.
Amante fogoso e relapso.
O outro que existe em mim, afinal,
quem é ?
Sadio e podre,
o certo e o errado, numa só pessoa.
Ou alguém que foi sem nunca ter sido ?
A um só tempo, belo e sujo.
Incrível e sórdido.
Herói e psicopata.
Intenso e promíscuo.
Assim mesmo, aos olhos
de quem mais me conhece.
Há que se dar crédito...
Meu coração generoso e ardiloso,
mártir e algoz de si mesmo,
em paroxismos se diverte e padece.
Despojado de atrativos, às feras lançado,
julgado e condenado
sob um peso e duas medidas.
Eis como tenho sido retratado.
A um tempo triunfante e espicaçado.
Demiurgo de antigas fantasias, amado e
repudiado, fiz de mim um simulacro
do que deveria ter sido.
Dói saber
que quem mais me difama,
consta que um dia me amou.
da calmaria ao tormento Mais cedo ou mais tarde, os dias de tormento chegam. E não há nada que s...