quinta-feira, 14 de outubro de 2021



                           culpa e castigo



 

Eu te amei e consumi nosso amor

até à exaustão.

O niilismo da culpa me sentencia

a viver para sempre como pó.

O coração dissoluto se distrai lambendo 

a memória,

em seu silêncio de seda.




 

terça-feira, 12 de outubro de 2021



Meu pai me ensinou muitas coisas

sem dizer uma palavra.

Dava o exemplo.



 





O que fazer com as gastas palavras ?

Como diz o mago Borges, engano supor 

que para cada coisa existe

uma palavra.

"A vida é fluída e cambiante; a linguagem,

rígida".

De fato, andamos às cegas, atrás de artifícios

retóricos que melhor expressem os sentimentos.

Alguns poucos conseguem.

Por acaso, poetas.


 



                     

             evoé ! sou uma lâmpada queimada

               



Inútil conjecturar,  martirizar-se à toa.

Tudo está como sempre esteve.

Os cânones existenciais são pétreos.

Os mais fortes prevalecem, canibalizam os mais fracos. 

Há que ter astúcia 

para sobreviver, mesmo os fortes sucumbem.

A normalidade doentia nos agarra pelo pescoço.

Todos tem fraquezas, neuroses, taras.

Eu, por exemplo, gosto de ouvir o coração

para não me sentir sozinho.

Consolo estúpido, porém, eu não sou Endimião.   

Descreio das inapeláveis cosmogonias. 

Em compensação, já não me defendo nem me debato, 

prestes a apagar 

como uma lâmpada que queima ao toque no interruptor. 

Pufff, já era. Acabou.

Uma lâmpada queimada é a metáfora da minha vida.  

Evoé !


Prefiro catálogos à livros. São convenientemente

práticos. 

Palavras muitas vezes repetidas caem no vazio. 

Reducionismo, superficialidade, rebaixamento cultural, 

a era digital é uma grande farsa.  

Mas bosta enlatada também vende, acredite.

Desconheço as leis da atração.

Eu sou a fome e o alimento do meu canto. 

De tanto ser sozinho, não preciso 

que ninguém me goste. 

Evoé !


O que eu quero da vida ?

Estou à deriva mas nunca estive tão lúcido.

Acordo de meu amoroso desencanto à sombra

do esquecimento.

A vida empacada em suposições comezinhas.

De repente, consigo me ver como o mundo me vê. 

Mais um perdedor, é claro, mas tudo bem.

Não tenho mais veleidades. Sinto o mundo se fechando, 

mas é bom sentir essa leveza. 

Não decepciono mais ninguém e ainda quebro

o galho, como um velho candeeiro. 

Evoé !









 











 

segunda-feira, 11 de outubro de 2021



                       ritos




 


Viver na penumbra. 

Sem rumo nem aconchego.

Relegado ao limbo, sem nada poder fazer

além de seguir os ritos.

De preferência, sem encher

o saco de ninguém.

Há infinitas maneiras de morrer.




                                quem viver, verá




 

                      



Ser ou não ser não é tão simples.

Porque há o ser e o não-ser no sentido 

do existir não existindo.

Existimos, porém, não existimos, à luz do atomismo.

O quantum da consciência-inteligência carrega 

a areia do tempo. 

O halo vital fecunda o espírito.

Átomos espirituais remontam à imortalidade da alma.

Nos fundamentos da Criação vibra o pensamento quântico

do Criador, que recém dá as caras. 

Vem chumbo grosso por aí.

A matéria, pulsação da humanidade, se esgota no esmaecer 

da força vital patafísica. 

Os espíritos estão entre nós, só não podemos vê-los.

Sem mistério : somos seres quadrimensionais, 

e o hiperespaço euclidiano é o portal

do insondável Além.

Quem viver, verá.

Quem morrer, também.


  

domingo, 10 de outubro de 2021


                                                    manhãs





Agonizam as manhãs de sóis esquartejados.

Do ventre que gesta as coisas mais belas e mais amargas, 

os liames primordiais transcendem os mitos e farsas.

Mitos e farsas que incendeiam os paradigmas.

A vida é o que é, inútil tentar modificá-la. 

Maternidades e cemitérios, igrejas e bordéis : tudo

remonta a mesmo mescla de carnes corrompidas.


Agonizam as manhãs de sóis esquartejados.

O choque do tempo contra o absurdo e o imutável

acende as luminárias das alegorias insofridas.

Monturos absconsos de ritos e vontades absorvem 

a áspera realidade.

Restos de antigas dignidades subvertidas aos cerimoniais

hereges.

O homem morre sem saber quem é.

Só se encontra na angústia dos proscritos.


Agonizam as manhãs de sóis esquartejados.

A vida autônoma assiste a barbárie eternizar-se.

Bárbaros matam a fonte em que todos bebem.

Não importa. O ritual dos sacrifícios faz parte da natureza.

Uns devem morrer pelo bem de outros.

O sangue derramado é a aliança com divindades 

de reputação duvidosa. 

Não importa. Nada importa. Nada restitui a inocência perdida.


Agonizam as manhãs de sóis esquartejados.

Manhãs de reinvenções dos elementos.

Manhãs de súplicas. 

Manhãs estéreis, perfuradas de matizes difusas, 

que por decreto divino velam a própria eternidade. 

Os poderes do mundo rejeitam a pomba branca da paz. 

Libertamos Barrabás e crucificamos Cristo.

Não espere nada menos.











 




 

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