culpa e castigo
Eu te amei e consumi nosso amor
até à exaustão.
O niilismo da culpa me sentencia
a viver para sempre como pó.
O coração dissoluto se distrai lambendo
a memória,
em seu silêncio de seda.
Inútil conjecturar, martirizar-se à toa.
Tudo está como sempre esteve.
Os cânones existenciais são pétreos.
Os mais fortes prevalecem, canibalizam os mais fracos.
Há que ter astúcia
para sobreviver, mesmo os fortes sucumbem.
A normalidade doentia nos agarra pelo pescoço.
Todos tem fraquezas, neuroses, taras.
Eu, por exemplo, gosto de ouvir o coração
para não me sentir sozinho.
Consolo estúpido, porém, eu não sou Endimião.
Descreio das inapeláveis cosmogonias.
Em compensação, já não me defendo nem me debato,
prestes a apagar
como uma lâmpada que queima ao toque no interruptor.
Pufff, já era. Acabou.
Uma lâmpada queimada é a metáfora da minha vida.
Evoé !
Prefiro catálogos à livros. São convenientemente
práticos.
Palavras muitas vezes repetidas caem no vazio.
Reducionismo, superficialidade, rebaixamento cultural,
a era digital é uma grande farsa.
Mas bosta enlatada também vende, acredite.
Desconheço as leis da atração.
Eu sou a fome e o alimento do meu canto.
De tanto ser sozinho, não preciso
que ninguém me goste.
Evoé !
O que eu quero da vida ?
Estou à deriva mas nunca estive tão lúcido.
Acordo de meu amoroso desencanto à sombra
do esquecimento.
A vida empacada em suposições comezinhas.
De repente, consigo me ver como o mundo me vê.
Mais um perdedor, é claro, mas tudo bem.
Não tenho mais veleidades. Sinto o mundo se fechando,
mas é bom sentir essa leveza.
Não decepciono mais ninguém e ainda quebro
o galho, como um velho candeeiro.
Evoé !
quem viver, verá
Ser ou não ser não é tão simples.
Porque há o ser e o não-ser no sentido
do existir não existindo.
Existimos, porém, não existimos, à luz do atomismo.
O quantum da consciência-inteligência carrega
a areia do tempo.
O halo vital fecunda o espírito.
Átomos espirituais remontam à imortalidade da alma.
Nos fundamentos da Criação vibra o pensamento quântico
do Criador, que recém dá as caras.
Vem chumbo grosso por aí.
A matéria, pulsação da humanidade, se esgota no esmaecer
da força vital patafísica.
Os espíritos estão entre nós, só não podemos vê-los.
Sem mistério : somos seres quadrimensionais,
e o hiperespaço euclidiano é o portal
do insondável Além.
Quem viver, verá.
Quem morrer, também.
manhãs
Agonizam as manhãs de sóis esquartejados.
Do ventre que gesta as coisas mais belas e mais amargas,
os liames primordiais transcendem os mitos e farsas.
Mitos e farsas que incendeiam os paradigmas.
A vida é o que é, inútil tentar modificá-la.
Maternidades e cemitérios, igrejas e bordéis : tudo
remonta a mesmo mescla de carnes corrompidas.
Agonizam as manhãs de sóis esquartejados.
O choque do tempo contra o absurdo e o imutável
acende as luminárias das alegorias insofridas.
Monturos absconsos de ritos e vontades absorvem
a áspera realidade.
Restos de antigas dignidades subvertidas aos cerimoniais
hereges.
O homem morre sem saber quem é.
Só se encontra na angústia dos proscritos.
Agonizam as manhãs de sóis esquartejados.
A vida autônoma assiste a barbárie eternizar-se.
Bárbaros matam a fonte em que todos bebem.
Não importa. O ritual dos sacrifícios faz parte da natureza.
Uns devem morrer pelo bem de outros.
O sangue derramado é a aliança com divindades
de reputação duvidosa.
Não importa. Nada importa. Nada restitui a inocência perdida.
Agonizam as manhãs de sóis esquartejados.
Manhãs de reinvenções dos elementos.
Manhãs de súplicas.
Manhãs estéreis, perfuradas de matizes difusas,
que por decreto divino velam a própria eternidade.
Os poderes do mundo rejeitam a pomba branca da paz.
Libertamos Barrabás e crucificamos Cristo.
Não espere nada menos.
da calmaria ao tormento Cedo ou tarde, os dias de tormento chegam. E não há nada que se possa fa...